O Iluminado

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“I said, I’m not gonna hurt ya. I’m just going to bash your brains in.”

(The Shinning – Dir. Stanley Kubrick – 1980)

Inquietante, assombroso, hipnotizante, apavorador, arrepiante. Palavras justas para descrever a abertura de O Iluminado, um dos planos mais marcantes do Cinema e que sempre me afeta em níveis inimagináveis. Você começa o filme com cu na mão antes mesmo de dar os cinco minutos de metragem. A partir daí esperamos pelo pior e é exatamente o que Kubrick entrega – só que da melhor forma possível. Não dá pra ler a obra complexa e aterrorizante de Stephen King e imaginar que seria filmada de tal forma. Kubrick surpreende completamente. E não só a nós – King, por exemplo, ficou surpreso e puto da vida.

Esse filminho leve e descomprometido – para os leigos que não sabem – retrata o isolamento de Jack “heeeeeeeeeeeeeeeres Johnny!” Torrance, sua tapadíssima mulher Wendy e seu filho deficiente mental especial Danny no gracioso Overlook Hotel. Jack vai fazer um trabalho de acompanhamento e manutenção do hotel e aproveita para trabalhar em seu livro. Só que, né, como a musiquinha horrorosamente horripilante da abertura sugere, as coisas ficam meio tenebrosas. E seja pelas gêmeas esquisitas escondidas nos corredores, uma onda de sangue jorrando do elevador ou a insistente trilha sonora apavorante, O Iluminado vai se tornando um terror como poucos. Daqueles que não só afeta seus nervos, mas entra na sua cabeça.

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O grande triunfo do texto de King é mantido em essência no filme de Kubrick: o personagem de Jack Torrance e seu gradativo colapso à insanidade ensandecida. O restante do livro de King é completamente mutilado, mas isso é outro assunto (vale dizer apenas que o senhor Stefano Rei não curtiu a brincadeira). Mas vamos concordar que o labirinto enevoado foi uma adição deliciousa do Kubrick. Por outro lado, o desfecho em si é anticlimático. Não só isso, mas deixa uma sensação errada ao fim que não sei bem explicar. Talvez se deva à exclusão de uma cena da versão final. Ou talvez Kubrick honestamente não soubesse onde levar seu filme.

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Se Jack Torrance é a crocância da história, o outro Jack (Nicholson, seu lerdo) é raio, luiz, estrela e luar. King tinha um pouco de razão quando discordou da escolha de Nicholson para o papel, alegando que a cara de perturbado do sujeito amenizaria o drama de seu colapso à loucura. Mas foda-se porque é apenas uma das atuações mais deliciosas e diabólicas. “All work and no play makes Jack a dull boy” virou hino e a bola de tênis, relíquia. Mais importante que ela só o bastão da Shelley Duvall (essa gostosa #sóquenão). Duvall, aliás, foi indicada ao Framboesa mas está maravilhosamente bulinada por King #chupalarsvontrier. Um deleite o desespero da gata. E o jovem Danny Lloyd não deixa a desejar, evocando inquietação em sequências de parar o coração.

O que dizer da técnica do Kubrick que já não foi dita pelos outros shitters sobre os outros filmes do cara? O Iluminado não é sobre trama e não adianta procurar por plot points e twists que estes não existirão. Só não digo é uma descida ao inferno porque Kubrick não acredita em inferno, mas é o mais próximo disso que podemos imaginar. Uma viagem sensorial que só Kubrick com sua câmera maravilhosa poderia retratar. Os enquadramentos são espetaculares e os planos divinos. Somam à trilha sonora para causar o maior desconforto possível e transformar O Iluminado nessa pérola do gênero. Se você não acredita em fantasmas, não se preocupe que tem o desequilíbrio psicológico do Jack Torrance para tirar seu sono. De uma forma ou de outra, Stanley Kubrick vai conseguir o que quer. Não é um filme perfeito e nenhuma obra-prima, mas uma preciosidade na mesmice do gênero e uma adaptação inusitada. “We all shine on”, como diria outro Johnny. O Iluminado não será esquecido.

stewie aprova essa mensagem

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NOTA WALLYSSON SOARES: 8,5

Alexandre Alves: 10
Felipe Rocha: 9,0
Leandro Ferreira: 10
Marcelle Machado: 10
Evanilson Carvalho: 10
Tiago Lipka: 10

MÉDIA CLAIRE DANES DO SHITCHAT: 9,666 Clayre diabólica de burca claire_burca

Lolita

Lolita

I want you to live with me and die with me and everything with me!
(Lolita, 1962. Dir. Staley Kubrick)

O que pode ser mais polêmico que escrever um livro baseado na obsessão de um homem por uma garota de 12 anos? Kubrick deveria estar bem entediado quando decidiu que a história do russo Vladimir Nabokov deveria ser adaptada ao cinema, ou com tudo planejado. Vindo de filmes que apesar do grande valor técnico não o catapultaram à fama que viria, filmar Lolita garantiria pelo menos que seu nome tornasse bastante comentado.

Lolita conta a história de Humbert Humbert, um homem comum, professor, um cidadão acima de qualquer suspeita, exceto por um mero detalhe: sua atração por meninas. Ao ser aceito como professor numa universidade, ele se muda para a pensão de Charlotte Haze, onde conhece e se encanta por Dolores, filha daquela, e apelidada pelo protagonista de Lolita (sim, leitor desavisado, o termo foi cunhado com o livro). Acontece que a censura, ela não apenas impede que Rafinha Bastos compare negros à macacos, ela impede que Kubrick faça um filme que poderia ser genial.

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É evidente a intromissão do estúdio. O filme começa com Humbert cometendo um crime, para o público considerá-lo criminoso antes mesmo de mostrar sua trajetória. E há as diferenças entre filme e livro. Se fãs mais ardorosos reclamam da cor de cabelo que no livro era azul e no filme virou preto, a mudança nesse caso é bem mais grave. Enquanto a Lolita do livro tem 12 anos, a Lolita do filme tem 14 anos, e peitos. O relacionamento amoroso entre os protagonistas nunca fica evidente, sempre nas sutilezas, sem beijos, a confissão amorosa cochichada no ouvido. As passagens do protagonista em sanatórios são omitidas, e a soma de tudo isso influi na compreensão da motivação dos personagens, e em acreditar que há um relacionamento.

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Apesar de toda a censura, Kubrick realiza um trabalho que consegue ser provocante em cenas pontuais, como Humbert pintando as unhas dos pés de Dolores, ou fantasiando com uma foto de sua amada enquanto tem Charlotte em seus braços. E é nos detalhes capturados por Kubrick que as camadas de Humbert são desvendadas, seu horror pela esposa, que suporta apenas para ficar perto de Lolita, seu ciúme quando Charlotte fala em enviar a filha para um internato, tudo fica evidente graças à direção.

"I take your Queen"

“I take your Queen”

Sem o apoio de imagens, o roteiro – em teoria escrito pelo próprio Vladimir Nabokov, mas na verdade, pouco do que o russo escreveu foi aproveitado – é a grande força do filme, mas não é perfeito. O começo é bem elaborado ao apresentar os personagens e em desenvolver Humbert, mas entre conhecer Charlotte, se envolver com ela e ficar à sós com Lolita, tudo é um pouco apressado. Por outro lado, o filme perde força quando foca apenas nos dois protagonistas, e falha em mostrar o desencantamento de Humbert ao unir-se novamente com sua Lolita no final. Porém, é uma boa escolha expandir o personagem Clare Quilty no filme. Cria-se um mistério que prende após Humbert e Lola estarem juntos, e permite que Peter Sellers roube a cena, de longe, a melhor atuação em cena. O trabalho de Shelley Winters como Charlotte Haze também merece destaque. É fácil entender os motivos que levam Humbert a desprezar a esposa. Porém, nada mais falho que Sue Lyon como Dolores. Apesar de ter a idade certa, Sue não tem o menor apelo sensual – a censura agradece -, e leva Lolita mais como uma criança mimada e birrenta que o mistério que ela realmente é. Sem falar que a química com James Mason é abaixo de zero – a censura agradece, de novo.

Mesmo com essas falhas, Lolita é um bom retrato de um homem imperfeito que busca a perfeição da inocência, mas tem suas fantasias destruídas, pois, no fim das contas, não há perfeição.

NOTA MARCELLE MACHADO: 8,0

Alexandre Alves: 8,5
Felipe Rocha: 8,5
Ralzinho Carvalho: 8,0
Tiago Lipka: 8,5

MÉDIA CLAIRE DANES DO SHITCHAT: 8,3 claire danes sorrisinho