As Aventuras de Pi

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(Life of Pi – Dir. Ang Lee)

“Acredito que, ao final, a vida em si se torna um ato de desapego”

O “ame ou odeie” nunca foi tão verdadeiro quanto é com este novo filme do versátil sr. Ang Lee. Não se enganem, é fácil se apaixonar pelo que “As Aventuras de Pi” tem a oferecer em visual e técnica – desconcertantes em tamanha belezura – o desafio aqui é a história. Não que a mesma seja complexa (não é), mas é transcendente em sua abordagem da fé de tal forma que muitos não se renderão a ela. Elemento exclusivo do texto baseado em obra controversa – e dita inadaptável – de Yann Martel.

O roteirista David Magee (do excelente “Em Busca da Terra do Nunca”) faz as escolhas certas. A fórmula que o roteiro utiliza para contar a história não é uma preferida particular, mas prova ser crucial para o equilíbrio necessário ao desfecho. No filme, o personagem adulto de Pi narra suas “aventuras” para um romancista, que por sua vez se torna um recurso expositivo ao representar a audiência. A função do romancista se revela, porém, muito mais importante. Sem seus questionamentos e seu distanciamento, o discurso de Pi (e de Lee) teria ecoado piegas e perigosamente moralista.

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Vamos entender, então, “As Aventuras de Pi”: começa com o charme de uma boa dramédia, ao retratar a vida de Pi e sua família na Índia, em primeiro ato bem amarrado e pontuado por momentos memoráveis. Depois, a coisa fica um pouco mais tensa. Sem abandonar o bom humor, Ang Lee nos lança em uma história recheada de tensão e drama que envolve e prende a atenção sem grandes esforços. Boa parte do filme é apenas Pi (muito bem interpretado por Suraj Sharma), um tigre chamado Richard Parker e a imensidão do mar. A imprevisibilidade (e o apuro técnico) fazem deste segundo ato cinema em seu melhor.

Aí vem o ato final. Evitando estragar para quem não tenha visto, é válido dizer apenas que “As Aventuras de Pi” bota tudo a perder. E com certeza perde, na visão de alguns. O que fica é o tour de force vibrante da história e seus visuais hipnotizantes (cujo ápice se dá em sequência bizarra numa ilha carnívora). Portanto, se você não abraçar a parábola firmada pelo narrador no clímax de sua história, “As Aventuras de Pi” será apenas um espetáculo vazio.  Há uma chance, porém, dos ideais de Piscine Patel incitar algo, provocando o mesmo arrebatamento na audiência direcionado ao romancista. E é neste elo emocional que está a riqueza do longa-metragem de Ang Lee, que pontua o encerramento com o tom certo – de subjetividade, questionamento e possibilidades. É, ao final, um filme sobre fé. Em toda sua falta de complexidade e abundância de sentimento. Ame ou odeie.

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NOTA WALLYSON SOARES: 8,5

Felipe Rocha: 3,0 (af)
Tiago Lipka: 8,5 (atrasado, af)

Média Claire Danes do Shitchat: 5,5

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