Terapia de Risco

sideeffects1-470x260(Side Effects, 2013, Dir. Steven Soderbergh)

Depois de dar as caras na #MaratonaCannes, Steven Soderbergh volta a dar as caras no Blog, dessa vez com Terapia de Risco, um filme que pode não trazer nada de inovador, mas que nas mãos do diretor, o resultado não é apenas um thriller sem graça.

A trama começa mostrando sangue no chão até focar num presente, e daí voltando para três meses antes do incidente, quando Martin (Channing Tatum), marido de Emily (Rooney Mara) sai da prisão depois de quatro anos. É o bastante para criar suspense e prender a curiosidade. O que aconteceria para resultar na cena de abertura? E tudo isso sem trilha, só apresentando os personagens. O que Martin não sabia é que enquanto estava na prisão, Emily entrou em depressão, e sua saída causa um surto na esposa, chegando ao extremo tentando se matar. É aí que o caminho do casal cruza com o do psiquiatra interpretado por Jude Law, Jonathan Banks. Ele passa a atender Emily, e acaba receitando alguns remédios em paralelo ao tratamento, mas os efeitos colaterais do remédio acabam interferindo na relação do casal.

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Falar mais estragaria um pouco as surpresas do filme, que podem não ser as viradas mais elaboradas, mas pelo menos são bem conduzidas, e jamais cansam. Soderbergh sabe criar suspense psicológico como ninguém, e, principalmente, lida muito bem com os personagens que tem. Num filme cuja força é o desenvolvimento dos personagens à medida que a situação vai se complicando, isso se mostra essencial para que o filme não caia na armadilha de virar uma rasa saga de vingança. Soderbergh mostra a motivação dos personagens, e todos têm um propósito em cena, sem contar que eles têm camadas. Não há ninguém inteiramente inocente.

O roteiro, responsabilidade de Scott Z. Burns, é um bom apoio para o diretor. Sem excessos, há equilíbrio entre diversos temas, como o drama de uma mulher em crise com sua depressão, o suspense após o acontecimento da abertura ser revelado, e o jogo de perseguição e obsessão do final. A tensão é construída de forma crescente, inclusive o aspecto que mais me agradou no filme, como tudo começa bem, e daí segue ladeira abaixo para o caos. Outro ponto interessante é a transformação do personagen de Jude Law, que acontece aos poucos, lado a lado com a intensificação da tensão.

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Somando à direção e ao roteiro, há o quarteto de atores. Mesmo com boa direção e bons roteiros, os personagens ainda corriam risco de se tornarem caricatos, mas o elenco foi bem escalado, apesar de Zeta-Jones e uma escorregadas no final. Rooney Mara mostra que é camaleoa, entrega uma das personagens femininas mais fortes que já vi em Os Homens Que Não Amavam as Mulheres para vir agora com a frágil e misteriosa Emily. Rumores dizem que Soderbergh pensa em se aposentar do cinema, para alegria de uns deste Blog, mas torcendo para que seja algo passageiro. O diretor ainda é capaz de entregar um trabalho eficiente ao que se propõe, sem cair em armadilhas e saídas fáceis, salvando Terapia de Risco de ser um filme esquecível.

NOTA MARCELLE MACHADO: 8,5

Ralz Carvalho: 7,5
Tiago Lipka: 8,5

Média Claire Danes do ShitChat: 8,1 tumblr_mcll13C71o1rjfsoao1_500

Sexo, Mentiras e Videotape

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(Sex, Lies and Videotape, 1989 – Steven Soderbergh).

Já pensou que louco, um filme cujo título faz jus ao que tem a narrar? Pois então: longe de ser um filme pornô ou com um erotismo exacerbado, este vem jogar à mesa o sexo enquanto ausência, enquanto uma constante frequência ou, porque não, enquanto finalidade terapêutica. Logo, vão guardando as genitálias, pois não é um filme que estimule o cinco contra um.

A história se desenvolve em torno de quatro personagens: Ann, John, Grahan e Cynthia. Ann é uma mulher centrada, voltada aos afazeres domésticos e casada com John, um advogado que acaba de ser promovido em seu escritório. Aparentemente um casal perfeito, mas que se encontram em constante conflito, sobretudo no que diz respeito à vida sexual dos dois: Ann não sente atração pelo marido, não o toca, não sente tesão, não se masturba (em depoimento ao terapeuta, ela fez isso apenas duas vezes em toda a sua vida), ou seja: a mulher é frígida. Essas atitudes de Ann levam John a buscar a “osadia” em outra vizinhança, e vai em Cynthia, irmã da Ann e muito oposta a esta: desinibida, não dá importância ao que pensam sobre si, sobretudo ao que Ann pensa sobre ela, e muito boa de cama (perguntem ao John!). O comportamento de Cynthia intriga Ann, e ela mal sabe que a irmã e o marido guardam segredos embaixo do seu nariz, inclusive se divertem com isso, a ponto de Cynthia querer transar com John na cama do casal.

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O filme vai tomando corpo com a chegada do Grahan, um antigo amigo de John, que chega à cidade para passar uns tempos na casa do casal até encontrar um lugar para morar. O surgimento do Grahan afeta Ann, de acordo com o que ela diz ao terapeuta, e o seu comportamento – à princípio – lhe incomoda mesmo. Entretanto, a aproximação entre Grahan e Ann é gradual, ambos passam a se entender e os diálogos riquíssimos são ponte para compreender que os dois tem algo em comum em relação ao sexo e à ausência do mesmo.

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Falando neste assunto e no personagem Grahan, que possui um passatempo meio que peculiar: entrevistar mulheres e gravar os seus depoimentos no que diz respeito às suas experiências sexuais. Grahan convive com uma frustração devido a um problema voltado ao sexo e sua forma de obter prazer é por meio de seus vídeos. Sem entrar em detalhes (vulgo spoilers) basta dizer que Grahan é um personagem que, ao mesmo tempo se apresenta como um homem carismático, também possui sua personalidade construída em torno de uma fragilidade.

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O filme tem seus altos e baixos. Os diálogos são muito bem desenvolvidos, e cruciais para a aproximação entre os personagens, especialmente os que envolvem Ann e Grahan, inclusive sendo mais ricos em detalhes pois os personagens vão amadurecendo a mente fechada durante o filme. O que peca em Sexo, Mentiras e Videotape é a pouca exploração dos atores, que oscilam momentos bons e ruins em suas atuações. Steven Soderbergh consegue se sair muito bem no trabalho ao desenvolver e dirigir um roteiro profundo e envolvente. De fato, os diálogos são a maior qualidade presente no filme.

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Sexo, Mentiras e Videotape é um filme capaz de provocar e seduzir. Engana-se que é com cenas eróticas; as mentiras reveladas são mais interessantes. GOZAI-VOS (admito, isso foi horrível)!

NOTA ALEXANDRE ALVES: 7,0

Felipe Rocha: 3,0
Tiago Lipka: 9,0

MÉDIA CLAIRE DANES: 6,3 – E aí Clér… Uma filmadinha na performance é bom, neah?

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