Rede de Intrigas

network1

“I’m as mad as hell, and I’m not going to take this anymore”

(Network, Dir. Sidney Lumet – 1976)

Este é o mantra que leva o Shitclássico da vez pra frente. Rede de Intrigas funciona assim: temos Howard Beale, âncora durante muitos anos no telejornal mais importante do canal UBS. Após seu programa começar a perder audiência, a morte recente da esposa, o uso excessivo de álcool por consequência disso e, como a ponta do iceberg nessa maré do demônio, a UBS resolve demití-lo. Quem lhe dá a notícia é Max Schumacher, seu melhor amigo. Mas aí o Beale começa a literalmente enlouquecer, sendo o primeiro sinal disso seu anúncio de suicídio no ar. Em seguida, o homem resolve profetizar sobre o mundo e, aproveitando o atual estado deplorável do âncora, dois produtores, Diane Christensen e Frank Hackett, resolvem demitir apenas Max, que é contrário ao ar sensacionalista que o programa assume e permanecer com Beale na grade.

tô loca!

tô loca!

Rede de Intrigas é um dos melhores filmes de todos os tempos por N motivos. O primeiro deles é o casamento Sidney Lumet e Paddy Chayefsky, que será comentado melhor depois. O tom profético do filme é absurdo (não é à toa que Howard se torna uma espécie de Messias): o filme prevê o dano que o jornalismo sensacionalista poderia causar às pessoas ao redor e infelizmente nos faz pensar que muitos assistiram ao filme e fizeram escola, da forma errada, claro. Há um cuidado do roteiro em citar e referenciar assuntos tão atuais, como, por exemplo, a cena em que Howard anuncia que irá se matar. Ela é uma referência ao real suicídio da âncora Christine Chubbuck (inclusive nessa cena é interessante ver o tamanho do descaso dos próprios diretores com Howard). O filme também se baseia no caso de Patricia Hearst, atriz e socialite da época que foi sequestrada pela Symbionese Liberation Army (aqui citada como Ecumenical Liberation Army). Curiosamente, a atriz que faz Mary Ann Gifford é Kathy Cronkite, filha de Walter Cronkite, que é citado por Beale e Schumacher com saudosismo na primeira cena do filme, sem contar Lauren Hobbs se parecendo mais com Angela Davis que a própria Angela Davis e diversos outros acertos no roteiro que nos faz crer que

comigo ninguém pode bee

comigo ninguém pode bee

O texto do filme é extraordinário. O cinismo de Diane é tão acentuado que chega a ser incômodo. A dureza nas palavras de Howard e a serenidade necessária de Max Schumacher são impressionantes e nos fazem duvidar se isso saiu de alguma pessoa normal, gente como a gente, sabe? Outro acerto do roteiro é nunca colocar Diane e Howard interagindo. Ele é o maior dos interesses dela, porém ela sequer se importa com a saúde mental dele ou com qualquer outra coisa que não seja o crescimento da audiência. Max é o único que parece se importar com Howard durante todo o filme e a cena inicial, que mostra uma conversa descontraída de Howard e Max, prevê todo o caos que viria no futuro, com Max contando uma história de suicídio (no caso, o dele). No entanto, o grande acerto do filme é a atemporalidade. As coisas proféticas ditas por Howard realmente eram proféticas, como, por exemplo, a tão famosa cena.

Se eu não soubesse que esta porra de texto era de 37 anos atrás, poderia achar que isso é de sei lá, ontem. A cena é o estopim em todo o filme, é o ápice da loucura de Howard e mostra o quanto a mídia sensacionalista e de pouco cuidado com apuração pode ser perigosa tanto pra quem assiste como pra quem faz, exibe e incentiva tal prática.

Que Sidneyzinho Lumet é um gênio, isso todo mundo sabe. Mas em Rede de Intrigas ele eleva isso em níveis ainda mais altos, como a já citada cena do maior surto de Howard Beale, na qual ele usa o completo silêncio pra evidenciar a atuação impressionante de Peter Finch, que torna toda a atmosfera da cena um tanto incômoda.Também temos a cena da conversa entre Max e sua esposa Louise e a cena da conversa de Max e Diane perto do final do filme (“I gave up comparing genitals back in the schoolyard <3333333333). Além disso, temos aquela que pode ser considerada a mais importante cena de todo o filme: a franca conversa entre Howard e Arthur Jensen, o presidente da UBS. A atmosfera da cena é sobrenatural, beirando ao assustador, a fotografia e a decisão de filmar a figura espantadora de Arthur de longe são geniais. Até que chegamos no momento crucial de todo o cinismo da indústria.

Arthur Jensen: You just might be right, Mr. Beale.

E isso aqui se chama

crocância

crocância

As atuações são de arrepiar, começando pela vencedora do Oscar, Beatrice Straight, que com apenas 5 minutos dá a atuação de sua carreira, mostrando sua Louise claramente cansada do descaso do marido com o seu longo casamento. As cameos chamam a atenção e a melhor de Rede de Intrigas é Ned Beatty. É assustador o quão compreensivo o personagem parece ser em seus primeiros momentos e quão nocivo e cruel ele pode ser em questão de minutos. Robert Duvall é um coadjuvante de luxo, muito luxo. Peter Finch é facilmente o mais impactante, papel que também o deu Oscar (póstumo). Suas cenas são impressionantes e é incrível como Finch consegue driblar o overacting que poderia ter sido encaixado sem soar estranho. E ai que chegamos a William Holden. Ele tá ali, onipresente, poucos prestam atenção nele, mas ele tá ali e é assim no estilo come quieto. Holden tem uma das melhores atuações do filme, a mais contida, que usa a firmeza necessária pra mostrar que alguém naquele lugar precisava de um pouco de sanidade. E, enfim, chegamos a Faye Dunaway.

SAI NA CAPOEIRA/PERIGOSA/MACUMBEIRA

SAI NA CAPOEIRA/PERIGOSA/MACUMBEIRA

Faye é um show à parte, o cinismo e a ambição da personagem é extraordinário, à margem do ofensivo. Dunaway encarna Diane como se ela fizesse tudo aquilo todo os dias da vida dela. É interessante prestar atenção que Diane não consegue parar de falar de trabalho até em seus momentos mais íntimos e Faye é uma metralhadora de palavras e comentários degradantes. A figura mais nociva de todo o filme, uma das melhores atuações da atriz e um dos Oscar mais bem recebidos de todos os tempos, Faye dá uma pequena aulinha de como se fazer gostoso.

Rede de Intrigas é perfeito tanto pra cinema com o intuito de descontrair quanto para cinema com o intuito de protesto, mostrando o quão podre e manipulativo pode ser aquele que devia lhe informar e o como é cruel usar a figura claramente prejudicada mentalmente apenas para ganhos individuais.

NOTA LEANDRO FERREIRA: DEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEZZZZZZZZZZZZRGH!

Alexandre Alves: 10
Felipe Rocha: 10
Marcelle Machado: 10
Rafael Morenga: 10
Tiago Lipka: 10

MÉDIA CLAIRE DANES : 10 e ela tá correndo assim pois está procurando uma janela mais próxima

claire de burca

Jack Reacher – O Último Tiro

jackreacher2

(Jack Reacher, 2013 – Dir. Christopher McQuarrie)

Christopher McQuarrie ficou conhecido pelo roteiro do excelente Os Suspeitos, mas depois disso…

ue

Entre outras colaborações com Bryan Singer (Operação Valquíria, Jack, o Caçador de Gigantes), um desastre (O Turista – aquele mesmo com Johnny Depp e Angelina Jolie) e trabalhos para a TV, ele escreveu e dirigiu À Sangue Frio, um filme policial violento e surpreendente. Não era nada extraordinário, mas parecia que um diretor promissor estava surgindo.

Bom… 13 anos depois, ele volta à cadeira de diretor e… saiu esse Jack Reacher – O Último Tiro. É curioso pensar que ele estava mais preparado para a função 13 anos atrás. Não é um filme ruim, de maneira alguma. Tem uma trama suficientemente interessante para manter o espectador acordado, mesmo que para isso tenha que jogar fácil, apostando em clichês sempre que pode, e subvertendo uma coisa ou outra com gags visuais (mais sobre isso depois). Além disso, a cena inicial é daquelas que ganham nossa atenção na hora, e esporadicamente surgem momentos tão bons quanto aquele durante a trama – especialmente a apresentação do vilão, e o espectador fica com a esperança de que a coisa engrene…

Jack Reacher – O Último Tiro conta a história da consequência de um misterioso atentado, no qual um sniper mata cinco pessoas sem motivo aparente. Ao ser chamado para depoimento, pede apenas que chamem Jack Reacher, um misterioso investigador do exército que desapareceu do radar do FBI e caralhos a quatro, e retorna para investigar o ocorrido, formando uma dupla inusitada com a advogada de defesa do atirador, já que Reacher está convencido de que ele é culpado.

Mas os problemas são muitos, e boa parte deles vem da inexperiência de McQuarrie. Para começar, é curioso que os figurinos e a direção de arte não diferenciem os ambientes que a trama se passa, considerando que este é um dos temas do filme. Há unidade onde deveria haver contrastes – a vizinhança da garota forçada a se prostituir, visualmente, é igual à rua onde trabalham os advogados, e o mesmo se aplica às vestimentas. A fotografia até tenta criar esse efeito, mas a verdade é que esse é um problema menor do filme, então vamos relevar.

jackreacher1Os problemas mais sérios são dois: 1) o ritmo é lento demais, e apesar da trama ser interessante, ela tem problemas graves. Quando a advogada aceita o conselho de ~ver o outro lado~ e falar com as vítimas, nos questionamos quanto à sua sanidade (depois o filme justifica isso, mas não adianta, o protagonista teria conseguido aquilo de qualquer outra forma), e por falar em advogada, a personagem já surge como uma besta em cena,  e não precisava ganhar os tiques de uma besta por Rosamund Pike, que se limita a ficar linda no figurino com decotes/pernas de fora.

jackreacher3E além do ritmo lento, o humor surge esquisito: não dá pra começar um filme com uma matança, dar mais meia hora de seriedade em torno do caso, e depois quebrar o ritmo com piadinhas bestas. Quer dizer… dá, mas daí acaba saindo um filme desses aqui. Aliás, o momento em que dois capangas se atrapalham quando vão bater em Cruise merece chegar ao Framboesa de Ouro. Constrangedor.

Mas o segundo problema, e o maior de todos, é: Tom Cruise. Sua persona, sua aparência, tom de voz, absolutamente nada ajuda a acreditar que ele é Jack Reacher, frio, violento e desbocado. O ator se esforça, enche a boca nas frases de efeito,  sorri de canto nas piadinhas e faz as pausas corretas pra mostrar o raciocínio do personagem, mas… não funciona. Não chega a ser desastroso porque Cruise é um bom ator, e sempre se sai bem com cenas de ação, mas… é complicado.

jackreacher14

Melhor pessoa

Desperdiçando ainda Robert Duvall e uma das melhores escolhas de casting dos últimos tempos – Werner Herzog como vilão, com apenas duas cenas dignas de seu talento – Jack Reacher ainda incomoda pela sua mensagem meio torpe. Se bem que assistir um filme de ação hollywoodiano é praticamente pedir por algo torpe.

NOTA TIAGO LIPKA: 6,0

Média Claire Danes do Shitchat: Vestiu a burca pra Herzog, MAS TÁ DE OLHO NAS PALHAÇADA!!!!!!!!

tumblr_mkenf67YUf1rqawcuo1_500-2