Glória Feita de Sangue

julgamento

(Paths of Glory, Dir. Stanley Kubrick – 1957)

O dia em que o Blog anunciou que teríamos a Maratona Kubrick foi uma loucura na redação. Os funcionários deste Blog saíram no tapa e xingaram pelo menos oito gerações das famílias Lipka, Machado, Ferreira, Alves e Carvalho na disputa pelos textos de 2001, Laranja Mecânica e O Iluminado. Eu apenas me sentei confortavelmente em minha cadeira reclinável para assistir a tudo, pois o que me interessava mesmo era ser o responsável por Glória Feita de Sangue, a primeira das grandes obras-primas do diretor, e o filme que tornou realidade um dos mais antigos menes internos do Shitcheth.

O MENE DO CHÁ DE BETERRABA QUE VIU TODOS OS FILMES DO KUBRICK!!!!!!!

O MENE DO CHÁ DE BETERRABA QUE VIU TODOS OS FILMES DO KUBRICK!!!!!!!

Vou ser bem direto: Glória Feita de Sangue é um dos meus filmes favoritos da vida. Top 5. Talvez seja o segundo, sei lá. Cada vez que revejo eu acabo gostando mais. Kubrick faria outros filmes anti-guerra em sua carreira, muito mais cínicos e sarcásticos. Mas nenhum deles seria tão poderoso quando este aqui. E, tipo assim: não tenho o menor respeito por qualquer pessoa que considere esta delícia alguma coisa abaixo de obra-prima. A essas pessoas, Ana Maria Braga dá um recado:

Obrigado, Namaria. Agora vamos falar do filme. Em Glória Feita de Sangue, um velho escrotíssimo que está de olho em uma promoção do exército dá uma ordem impossível de ser cumprida a soldados franceses da Primeira Guerra Mundial. Logicamente que eles se fodem e o velho fica putíssimo e exige que três deles, escolhidos por diferentes motivos, sejam levados a julgamento. Só que o Kirk Douglas roda a bahiana por causa dessa injustiça.

irritada

Do primeiro ao último minuto, Kubrick deixa claro seu ponto: a guerra é uma coisa sem sentido, estúpida e comandada por pessoas escrotas que pensam somente no ganho pessoal e estão cagando para os seres humanos que participam realmente dela. O desdém para com a vida humana (“Os homens morreram maravilhosamente”) e o fato de os oficiais do alto escalão verem as baixas de seu próprio exército como necessárias e fundamentais (“Se eles não enfrentam as balas alemãs, enfrentarão as francesas”) são não somente uma retratação precisa da realidade, como também, IMO, a crítica mais importante da carreira de Kubrick.

Sou apaixonado pela sequência do ataque frustrado à Ant Hill. Kubrick utiliza um travelling e o espectador sente como se fosse um dos soldados. À medida que o exército francês avança, bombas são jogadas em todos os cantos, e a maioria deles explode. Há alguns cortes na cena, mas o diretor se recusa a desviar a lente. Ele quer que você acompanhe aquele momento cruel do início ao fim. Diferentemente, por exemplo, daquela que uns e outros por aí consideram a melhor sequência de guerra do cinema: a abertura de O Resgate do Soldado Ryan. Que, não me entendam mal, eu gosto. Mas toda aquela tremedeira do Spielberg tem o propósito de passar a adrenalina e o perigo da situação. Aqui, Kubrick não precisa disso.

ant hill

O momento em que Kirk Douglas passeia pelas trincheiras marchando se sentindo a poderosa, como se fosse os funcionários do Shitchat fazendo aquela walk of shame maneira da manhã de domingo ou Carrie Bradshaw no final de cada episódio de Sex and the City já é uma das cenas mais comentadas da carreira do Stanly.

luz na passarela que lá vem ela

luz na passarela que lá vem ela

No entanto, mais forte do que isso, mais forte do que o ataque à Ant Hill e mais forte até do que a força de vontade do funcionário Tiago Lipka em esconder que na verdade ele é o Tenente Roget

desmascaradaaaaaa

desmascaradaaaaaa

é o encerramento de Glória Feita de Sangue. Após 1h20min de uma visão pessimista sobre o ser humano, esperamos pelo pior. Lembro que na primeira vez em que assisti ao filme estava aos prantos só com a possibilidade de aquela mulher ser estuprada por 114 soldados bêbados e sujos.

No entanto, mais uma vez, Kubrick subverte as expectativas e, em vez de uma cena cruel e um soco no estômago, ele te dá um soco na cara e te manda acordar e prestar atenção, pois nem tudo é tão ruim assim. Alguns interpretam a atitude dos soldados como uma despedida (sabem que vão morrer, enxergam suas famílias na mulher etc). É válido, mas eu vejo mais como um lembrete de que as pessoas, mesmo inimigas, são pessoas, e o que mais me destrói é o fato de que a mulher canta em alemão e os soldados acompanham apenas a melodia, ou seja, não importa a língua, a mensagem é universal.

:'(

😥

NOTA FELIPE ROCHA: 10, né

Alexandre Alves: 10
Leandro Ferreira: 10
Marcelle Machado: 9,5 (af)
Tiago Lipka: 10

MÉDIA CLAIRE DANES DO SHITCHAT: 9,9

Moonrise Kingdom

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(Moonrise Kingdom – Dir. Wes Anderson)

Pré-adolescência: quando a inocência da infância começa a ser invadida pelos hormônios. Moonrise Kingdom narra a história de amor de um casal nessa fase, com todo o estilo peculiar de Wes Anderson, diretor de grandes filmes como Os Excêntricos Tenenbaums, Viagem a Darjeeling e Rushmore (que o Blog se recusa a chamar de ~Três é Demais~).

Para quem não conhece o estilo do diretor, aqui vai uma dica que pode ajudar a entender:

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Dito isso, o estilo visual do diretor (que mais parece um transtorno obsessivo-compulsivo) nunca esteve tão rígido, mas nunca pareceu ter funcionado tão bem: a sequência de abertura, por exemplo, ao mesmo tempo em que revela os personagens e suas relações, sutilmente também estabelece todo o cenário em que a trama irá passar – reparem nos quadros e fotografias.

O roteiro, do diretor em parceria com Roman Coppola, é ainda repleto de sutilezas – dessas que muitos devem ter deixado passar em branco: quando a garota se recusa a dar peixe para o gato, pois ele só come ~comida de gato~, um rápido corte mostra a marca da comida: All Fish. Mas talvez o cúmulo da sutileza seja o relacionamento amoroso que o personagem de Edward Norton tem durante o filme.

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Mas o principal de Moonrise Kingdom é mesmo o romance entre os protagonistas, e se a química entre Jared Gilman e Kara Hayward não fosse mais do que suficiente para isso, Anderson criou a melhor cena de sua carreira (e das melhores do ano passado) na inusitada declaração de amor entre os jovens (outro grande momento do filme: a conversa na cama entre Frances McDormand e Bill Murray). Além disso, o diretor surpreende na maneira sincera e até ousada em como retrata o relacionamento, desde piada sobre pau duro passando pelo simbolismo bem sacado da orelha sendo furada.

Com um elenco dos sonhos em atuações maravilhosas (impossível destacar alguém), o filme ainda é beneficiado por uma trilha sonora criativa de Alexandre Desplat, sujeito cada vez mais onipresente e preciso. Vale também mencionar o trabalho de arte no filme, com cenários e figurinos bem trabalhados numa paleta incrivelmente específica de cores (algo comum nos trabalhos do diretor).

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E para completar, como bem dito pelo comediante Aaron Blitzstein (@BlitznBeans), o DVD de Moonrise Kingdom ainda serve como presente perfeito para aquele amigo hipster e pedófilo.

NOTA TIAGO LIPKA: 10

Alexandre Alves: 9,5
Dierli Santos: 9
Felipe Rocha: 9
Marcelle Machado: 9
Rafael Monteiro: 9
Ralzinho Carvalho: 9

MÉDIA CLAIRE DANES DO SHITCHAT: 9,2

Claire Danes nos ama, mas acha que não sabemos o que estamos dizendo. ❤

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