Atrizes

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(Actrices, 2007, Dir. Valeria Bruni Tedeschi)

Atrizes é o segundo filme da atriz Valeria Bruni Tedeschi na direção (além disso, ela atua e é responsável pelo roteiro) e, sendo uma atriz, inclusive bastante conhecida do cinema europeu, Tedeschi transfere a dica do “escreva sobre o que conhece” para o cinema e faz um longa cujo pano de fundo é uma peça de teatro.

Mas não apenas o teatro, o foco do filme é a protagonista Marcelline. Perto dos quarenta, ela tem a mãe (Marisa Borini, mãe de Tedeschi na vida real) opinando em sua vida e a lembrando que ainda é solteira; tem que lidar com as pressões do diretor (Mathieu Amalric), que não está satisfeito com seu trabalho na adaptação de A Month in the Country; e trava uma espécie de guerra fria – misturada com inveja – do teatro com sua ex-colega de palco e agora assistente do diretor, Nathalie (Noémie Lvovsky). No meio de tudo isso, o que Marcelline quer é um filho, mas na verdade ela está no meio de uma crise pessoal.

if27jwfh0a1lfi7aMarcelline está perdida, à mercê dos outros ao seu redor. Há um vazio dentro dela que não foi preenchido pela fama – tanto que ela implora à ícones religiosos que lhe dêem um filho em troca de seu sucesso -, e ela tenta preencher este vazio justamente com uma criança. Mas, na verdade, a protagonista não se conhece o bastante, nem conhece o mundo o bastante, e é isso que a impede de se entregar à personagem que tem que interpretar. O que Marcelline busca é um retrocesso: desde os devaneios com o ex-amante que morreu, com o pai, a estar na piscina juntamente com as crianças, ela não busca o controle de sua vida, mas que os outros a controlem. E sempre que surge oportunidade para ela segurar as rédeas, ela foge.

i5p5mrvmie7dvripParalelo à trama da protagonista, o elenco de apoio tem seu momento para roubar os holofotes. Todos os coadjuvantes tem espaço, como o jovem ator e galã Eric, interpretado por Louis Garrel, que tem uma paixonite pela protagonista, e o já citado Denis, diretor da peça. Porém, quem mais se aproveita disso é Noémie Lvovsky como Nathalie, a rival de Marcelline. A protagonista a inveja por ter o marido, o filho, e uma carreira, enquanto que a assistente inveja a atriz pelo seu trabalho e fama. No entanto, a personagem de Lvovsky ganha espaço à medida que seu relacionamento com Denis é desenvolvido.

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O roteiro se divide entre mostrar a realidade e os delírios de Marcelline, e aí que está o grande problema. Fica claro que a protagonista é instável, mas a insistência na ênfase disso atrapalha o ritmo, e a conclusão de algumas tramas é apressada. No entanto, como diretora, Valeria Bruni Tedeschi capta boas imagens, como a cena dos atores confraternizando ao som de I Will Survive (que poderia ser a melhor cena do filme, mas por quê tão longa?), ou as cenas de Marcelline dialogando com Natalia Petrovna (Valeria Golino) nos bastidores do teatro. Mas, de forma geral, o resultado é satisfatório. Tedeschi soube transportar de forma competente uma história que até poderia ser mais interessante, mas não deixa de merecer a atenção.

NOTA MARCELLE MACHADO: 8,0

Felipe Rocha: 3,0
Tago Lipka: 7,5

Média Claire Danes do ShitChat: 6,16, Clér tem umas ideiazinhas pra Marcelline preencher o vazio dela, não é, Claire?

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Paul McCartney – Out There!

As funcionárias do Blog conferiram Paul McCartney no Brasil, e contam como foi a apresentação do ex-Beatle…

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EM BELO HORIZONTE

Em 2011, quando Paul McCartney veio ao Rio, eu ainda não era funcionária deste humilde blog, e tive que deixar a oportunidade passar. Porém, quando foi anunciado que Paul viria ao Brasil, o que veio na minha mente foi que não importasse onde, eu tinha que ir. E quando definiu o show em Belo Horizonte, a vontade virou certeza. Ingresso e passagem na mão, saí do Rio de Janeiro para Belo Horizonte, cidade que nunca havia visitado. Claro que rola uma insegurança, chegar no aeroporto e ir pro estádio, mas foi tudo tranquilo. Não vi engarrafamento, o acesso ao estádio foi sem nenhum problema. Fui até à fila, e não é que achei a leitora e fã Dani @dannamagno agradecendo o blog?

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Então começa a espera. Uma longa espera. E eu estava morrendo de sede, mas não havia um ambulante nas proximidades (obgta, Aécio). A entrada era liberada de acordo com os setores, e a ansiedade aumentava à medida que ficava na fila. Mas, mesmo com a ansiedade coletiva, não houve caos na fila. Todos se espeitaram, nada de empurra-empurra, nem quando foi liberado a entrada. A revista foi correta, inclusive vi muita gente facilitando e abrindo bolsas, só que nada disso importava porque eu estava dentro. Se a vistoria era parte do treinamento para a Copa, a do Mineirão está #aprovada.

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Aí vem a segunda espera, a mais lenta de todas: aguardar em pé o show começar. Houve uns empurrões, gente querendo ir pra frente, mas no geral, o público de Belo Horizonte confirmava a boa impressão. Pra esperar não parecer tão longa, o DJ sobe ao palco, o telão mostra cenas da vida e carreira de Paul McCartney, até que uns quinze minutos antes do previsto, o palco fica azul, e eis que Paul entra.

Impressionado com os aplausos e o público que gritava o seu nome, Paul McCartney apenas observa por uns momentos antes de começar Eight Days a Week, seguida de Junior’s Farm. O ex-Beatle só iria interagir com a platéia ao final da segunda música, agradecendo e falando algumas palavras em um esforçado português. Paul nem precisava disso pra conseguir meu respeito, bastava ele ficar cantando, e é o que ele faz em seguida, mas não foi qualquer música, foi All My Loving, e eu, que estava calma até então, não aguentei e comecei a chorar com os primeiros versos. E aí não sabia se parava de chorar, se olhava o telão ao fundo do palco – sério, as imagens eram lindas -, se focava em Paul no palco. Na dúvida, tentava fazer tudo ao mesmo tempo.

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Em seguida, Paul começa Listen to What the Man Said, e, confesso que não sou fã louca que decora informações de setlist, mas foi legal ver que era a primeira vez que a música era cantada em shows solo. Essa não foi a única surpresa do setlist. Também houve Your Mother Should Know, All Together Now, Being for the Benefit of Mr. Kite, Lovely Rita, músicas dos Beatles que, assim como Hi Hi Hi, música dos Wings, foram cantadas ao vivo pela primeira vez. É interessante observar que mesmo com a imensa quantidade de grandes hits, o bastante para fazer 3 setlists diferentes no Brasil, Paul McCartney se esforça em surpreender e homenagear o passado, cantando músicas que ninguém esperaria ouvir. É o caso, inclusive, da minha música favorita de toda a carreira de Paul McCartney, Another Day. Quando a música começou, não fazia idéia que o momento mais emocionante do show, para mim, era inesperado, pois a música não era cantada ao vivo desde 1993.

Falando em momentos emocionantes, não é o que falta no show. Desde a homenagem às esposas Nancy, com My Valentine e rosas atiradas ao palco, e Linda, com Maybe I’m Amazed – fazendo todos ao meu redor chorar, homens, mulheres, jovens, velhos, eu -, passando pelas homenagens aos ex-colegas de Beatles George Harrison, com Something cantada com ukulele, e John Lennon, com Here Today, e finalizando com a forma singela como Paul canta Yesterday e Blackbird, parece que o objetivo do ex-beatle é fazer todos chorarem.

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Mas não é apenas de emocionar que Paul entende. O ex-beatle não esquece o público, e muito menos em qual cidade do Brail está. Sim, Paul falou uai, eita trem bão, quase um mineiro (inclusive, estava liberado ficar). Cantou os grandes sucessos da sua carreira solo, do Wings e dos Beatles, como Hope of Deliverance, Let Me Roll It, Band On the Run, Hey Jude e Eleanor Rigby. Fogos iluminaram o palco e o céu em Live And Let Die, e é difícil se concentrar em uma coisa só. O público agradece a dedicação de Paul com cartazes, e iluminando o Mineirão em Let it Be, mas Paul também tem seus agradecimentos a fazer, e chama ao palco as responsáveis pela campanha “Paul Vem Falar Uai”, que o trouxe a BH. Com uns cinquenta anos de carreira, Sir Paul McCartney sabe como ser um cavalheiro com seu público, e o fim do show, ao som de The End, é com a esperança de que o retorno do britânico ao Brasil não demore (por favor!).
(Marcelle Machado)

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EM FORTALEZA

Foi muita incerteza até ser confirmada a inclusão de Fortaleza na nova turnê do Paul McCartney. Mas a campanha #PaulNoCastelão conseguiu que o velho viesse bater na capital cearense. “Finalmente Paul veio ao Castelão”, disse Paul para mais 50 mil pessoas explodindo aos gritos e começou Let Me Roll It. Mas o público já chorava com o clipe de meia-hora da trajetória do Beatle.

Antes do show, porém, a desorganização feat. má educação foi grande. Às 13 horas a fila era grande, mas não havia grade nenhuma para separá-las, isso só veio depois, mas não adiantou quando resolveram furar a fila e transformar tudo num aglomerado de gente na frente do portão de baixo de sol fortalezense das três da tarde. Daí atrasa hotsound, atrasa abertura dos portões, lentidão para liberar da revista (aliás, muita gente entrou sem ser revistado). Funcionários sem nenhum treinamento específico pro evento, gente passando mal na fila e ninguém pra socorrer. E, claro, o trânsito, que transformou a cidade num caos e se estendeu até o começo do show. As obras no entorno no Castelão ainda não concluídas foram o maior empecilho pra quem foi ao show e dificultou a volta para casa também. O Expresso Paul McCartney não rolou e nem tinha como.

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Tudo foi deixado de lado durante o show. Menos o calor, que tava grande, e fez Paul tirar o moletom logo que entrou. No público, o calor dobrava. Todos desejando chuva, e os seguranças complicando na distribuição de água. Plmdds, negar água pra quem tá na grade para um show de quase 3 horas é ridículo. Mas a maioria aguentou.

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Teve vezes que eu desejei estar sentadinho na arquibancada, mas eu olhava pro palco e via aquele cara e DAQUI NINGUÉM ME TIRA. NEM ESSES BBKS RECLAMANDO QUE TÃO EMPURRANDO. O mais massa é a paixão das pessoas: gente velha, gente nova e tal. Essa experiência é única mesmo. Imagine, então, pro sujeito que pediu a moça em casamento lá no palco. Paul abraçou o casal quando ela disse sim = o melhor presente da vida!

“Eita mah”, “Vamo botar boneco” e botou boneco mesmo. Fez outro de seus shows inesquecíveis para Fortaleza, algo que talvez nunca mais se repita na cidade. Parabéns para o pessoal da campanha #PaulNoCastelão, que desde de setembro do ano passado vem brigando pra trazer Paul para cá e trouxeram, e ainda por cima, mobilizaram os fãs às homenagens durante Something e Hey Jude.

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Todo o estádio em uníssono cantando as grandes músicas dos Beatles e Wings é de arrepiar mesmo. A emoção é grande e difícil de descrever. E você tem que se gabar mesmo por ter ido pra esse show. Oportunidade única em solo cearense.
(Fael Moreira)

Média Claire Danes do ShitChat: Claire está feliz com o show de Paul McCartney level tumblr_mjk8ndSlNl1qg3ryko4_250

Os Vingadores

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(The Avengers, 2012, Dir. Joss Whedon)

Quando foi decidido fazer a Maratona Marvel, me voluntariei prontamente para escrever sobre Os Vingadores, pois de Avengers eu entendo:

mim add e manda isos

mim add e manda isos

E Joss Whedon é o deus da minha religião:

melhores séries, as do jossinho <3

melhores séries, as do jossinho ❤

Além disso, pelo bullying feito na planilha de notas, eu já imaginava que se outra pessoa escrevesse sobre Avengers, o filme não teria a resenha que merece.

todos compreensivos com as notas dos outros

todos compreensivos com as notas dos outros

Depois de dois filmes sobre Homem de Ferro e com Hulk, Capitão América e Thor já apresentados, não faltava mais nada para o filme que juntaria todos os personagens e apresentaria como a Iniciativa Vingadores foi iniciada. Mas, quem seria capaz de criar um roteiro que unisse todos esses personagens sem que tudo ficasse aleatório nem forçado? Zak Penn, responsável pelo roteiro de Hulk, foi considerado, Jon Favreau, diretor de Homem de Ferro, esteve envolvido, mas quem acabou com a direção e o roteiro de Os Vingadores foi Joss Whedon, criador, diretor e roteirista de séries conhecidas do público como Buffy e Firefly. E em 2012, o filme foi lançado.

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Seguindo a trama de Capitão América, o filme começa com o Tesseract sendo roubado por Loki, vilão de Thor, que pretende utilizar o cubo para permitir a entrada de uma raça alienígena que dominará a Terra, e assim, o semi-deus terá um planeta para chamar de seu. Para localizar o Tesseract e encontrar Loki, são convocados Tony Stark e Bruce Banner, este recrutado pela Viúva Negra. Além deles, há Nick Fury, diretor da S.H.I.E.L.D., Maria Hill, tenente da S.H.I.E.L.D., e Gavião Arqueiro, à princípio, manipulado por Loki. E para impedir Loki e resgatar o Gavião Arqueiro, a Iniciativa Vingadores é retirada do papel.

O roteiro de Whedon faz um bom trabalho em juntar todos os heróis, e de certa forma, apresentá-los ao público que porventura não tenha visto algum dos filmes anteriores. Os primeiros quarenta minutos mostram a arrogância de Thor, o sarcasmo de Tony Stark, o heroísmo de Steve Rogers, a insegurança e o isolamento de Bruce Banner, o profissionalismo da Viúva Negra e do Gavião Arqueiro. Fica evidente que o foco do roteiro não é exclusivamente juntar os heróis para explodir tudo. Há desenvolvimento das personalidades, e conflitos causados por essas diferenças.

As pessoas mais amargas do ShitChat criticam o roteiro alegando que é uma versão de filmes do Mortal Kombat com dinheiro, pois Os Vingadores segue a mesma premissa: heróis diferentes tem que lutar juntos, brigam por causa das diferenças, e depois percebem que juntos ficam mais fortes e assim salvam o dia. Acho que minhas colegas estão deixando muita coisa de lado, como o fato de nada dos conflitos entre os personagens ser gratuitos. Há uma função na trama para Thor e o Homem de Ferro brigarem, e disso sai desenvolvimento dos personagens. Não tem nada de errado com clichês quando eles não são usados à toa.

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Outro mérito de Joss Whedon é que todos os heróis tem um arco dramático no filme. A Viúva Negra tem que caçar o colega que a salvou da prisão, o Capitão América descobre verdades sobre o exército norte-americano, Thor tem que lidar com o trabalho em equipe, o Homem de Ferro tem que lidar com a S.H.I.E.L.D., até mesmo Loki tem seu momento de protagonismo no filme. Também é sempre bom apreciar o humor de Whedon e os diálogos que ele consegue criar, especialmente um entre a Viúva Negra e Loki. Considerando que Whedon teve que lidar com exigências do estúdio, como o fato de Loki ser o vilão e a batalha final, ele fez um bom trabalho com o roteiro.

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Tecnicamente, o filme também tem seus méritos. Whedon também acerta na direção, e no tom dos personagens. Não há estranhamento no que os atores entregam se comparados aos filmes solo de cada um. Um dos pontos altos é a mixagem de som, bem detalhado, sendo possível ouvir o ruído da flecha do Gavião Arqueiro, por exemplo. A inserção do Hulk nas cenas também é bem feita, sem parecer gritante que é efeito especial.

Robert Downey Jr. e Tom Hiddleston roubam as cenas. O Tony Stark de Downey Jr seduz ao dizer verdades disfarçadas de tiradas sarcásticas, o megalomaníaco e ressentido Loki de Hiddleton diverte. Os demais atores aproveitam bem os bons momentos que o roteiro oferece a cada, mas sem atuações que sejam realmente memoráveis. É engraçado reconhecer atores de outras séries do Whedon no filme, e falando em atores de série, agora imagino que além de ser Robin Sparkles, Robin Scherbatsky foi da S.H.I.E.L.D. antes de ser amiga de Ted Mosby.

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O resultado final de Os Vingadores é bem positivo. Náo há um herói sem um objetivo ou função na trama, que é bem construída, sem forçadas de barra como em outros filmes da Marvel. Joss Whedon foi a escolha certeira para tirar do papel a história que reuniria todos os heróis da Iniciativa Vingadores, e mal posso esperar pela sequência.

NOTA MARCELLE MACHADO: 9,0

Alexandre 2Broke Alves: 4,0
Felipe and a Half Rocha: 3,5
Leandro Ferreira: 7,0
Fael Morenga: 8,0
Tiago Bazinga Lipka: 3,5
Wallyson Soares: 8,0

Média Claire Danes do ShitChat: 6,1 claire

Um Corpo Que Cai

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One final thing I have to do… and then I’ll be free of the past.
(Vertigo, 1958. Dir. Alfred Hitchcock)

Um Corpo Que Cai, na época de seu lançamento, foi considerado um fracasso, mas ainda bem que o tempo passa, o tempo voa. Hoje, esta crocância de Hitchcock tem seu devido destaque na história do cinema, sendo considerado um dos melhores suspenses de todos os tempos. E, para coroar a consagração de Um Corpo Que Cai, o filme ganha seu lugar no ShitClássicos da semana.

A trama começa mostrando como o protagonista John “Scottie” Ferguson (James Stewart) passa a sofrer de medo de altura, consequência de uma perseguição a um bandido, por isso, sendo obrigado a deixar o emprego de detetive. Um dos efeitos desse trauma é sentir vertigens – vertigo, em inglês, e título original do filme -, mas não é apenas literalmente que Hitchcock aborda esse aspecto.

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Sem emprego, Scottie passa seus dias ~ vagando ~ por aí, gastando seus dias visitando a casa de sua melhor amiga, Midge Woods (Barbara Bel Geddes), até que um ex colega o contata com uma missão intrigante: seguir Madeleine (Kim Novak), sua esposa, não por suspeita de estar sendo traído, mas dela estar sendo possúída por uma antepassada. À princípio cético, Scottie, pouco a pouco, vai acreditando na possibilidade de seu colega estar certo e Madeleine realmente estar se tornando outra pessoa. E à medida que o envolvimento de Scottie aumenta, indo mais fundo na espiral que a história se torna, ele se apaixona. Um amor que não pode ser concretizado, pois Madeleine acaba morrendo, empurrando Scottie de vez para dentro da espiral, e pra longe da realidade.

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O ex-detetive passa um período sob tratamento psiquiátrico, e aparentemente está de volta à vida. Porém, ainda continua procurando Madeleine entre desconhecidas. E é aí que encontra Judy Barton, jovem com uma enorme semelhança física à sua falecida amada, e se envolve com ela, buscando encontrar ecos de Madeleine na atual namorada. A loucura de Scottie vai crescendo enquanto tenta transformar Judy em Madeleine, e o amor daquela pelo ex-detetive é testado até o clímax surpreendente.

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A trama pode soar fraca – para os pedantes, né -, mas a forma como Hitchcok conta a história é irreparável, sabendo dividir corretamente o filme em duas partes. A primeira metade do filme é dedicada ao suspense sobrenatural. Estaria Madeleine realmente possuída? O limite entre realidade e sonho é enfatizado com São Francisco retratada de forma etérea, mesmo se tratando de uma cidade litorânea. Hitchcok nunca apela para as cores fortes – o fato do filme ter sido filmado em cores não é a troco de nada -, exceto em momentos chave, como a introdução de Madeleine. A segunda metade narra a entrega de Scottie à loucura, e o suspense é sustentado pela curiosidade do espectador em como Scottie descobrirá a verdade. Não apenas nas cores, o cuidado de Hitchcock está em detalhes do figurino. A cor cinza para o vestuário de Madeleine foi escolhida para o espectador estranhar a personagem, pois o diretor achava incomum uma loira usar cinza.

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A caracterização dos três personagens principais não é abrupta, suas nuances são reveladas aos poucos, e sem cenas sobrando. Enquanto Scottie tem medo de encarar a vida, preferindo fugir de confrontos, ou evitando encarar seus medos, Midge é realista, tem sua independência, e tenta resgatar o amigo, mas ele está buscando o irreal, representado por Madeleine, que de tão irreal, chega a ser uma farsa. É interessante o contraponto entre Midge e Madeleine: enquanto esta trata Scottie de forma quase maternal, aquela o draga para a morte. Por fim, Scottie é arrastado para onírico, parte devido ao seu escapismo, parte por não resistir ao mistério de Madeleine.

Outro ponto forte do filme é a forma como foi filmado. O famoso zoom da câmera para enfatizar a sensação de vertigem que Scottie sente foi copiado por diversos cineastas, e não é apenas uma forma diferente de filmar, a espiral faz parte da trama. Desde a abertura, a espiral está presente, a vertigem não é apenas um efeito colateral do trauma experimentado por Scottie, mas é o grande mote do filme.

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Midge tenta, mas o seu desaparecimento depois da segunda parte é uma forma de enfatizar que o protagonista já estava descendo para o fundo da espiral. Scottie pouco se importa com a pessoa que Judy é. Ele quer Madeleine de volta, e, por amor, Judy se entrega aos caprichos de Scottie. E ao se entregar, ao desistir de ser quem realmente é para se assumir como Madeleine, ela comete o erro que faz com que Scottie perceba a verdade. O ex-detetive, então, confronta seus medos, chegando ao fim da espiral, e superando sua vertigem ao alcançar lugares altos, mas não sem destruição, pois a espiral não se limita à loucura. Desde o primeiro encontro deles, a espiral que os levaria à perdição havia começado a rodar.

NOTA MARCELLE MACHADO: 10

Alexandre Alves: 10
Felipe Rocha: 10
Leandro Ferreira: 10
Rafael Moreira: 10
Ralzinho Carvalho: 9,0
Tiago Lipka: 10
Wallyson Soares: 10

Média Claire Danes do ShitChat: 10 claire_burca

Lollapalooza 2013 – Parte 3

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GARY CLARK JR

Era um lindo sol de sábado… digo: malígno sol de sábado e estávamos no show de Toro y Moi, arriados no chão, faltando apenas a trilha Vida de gado pra completar o sofrimento que foi a consequência de encontrar um lugar ao sol (af) para os shows daquele dia. Mas foi #maça.

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Entretanto, o fogo no furico era pra Alabama Shakes e Toro y Moi estava no início de sua apresentação e, logo mais, iríamos pegar o show de Two Doors Of Cinema Club. O nosso plano coletivo, exceto o do agregado Luciano e Wally que queriam ver as caras e bocas dos integrantes do QOTSA, era sair 15 minutos antes do encerramento do show da Two Door e ir correndo até o palco alternativo para alcançar a grade do Alabama (mas isso é uma história de amor que o Chá de beterraba irá contar, #serálindo). Mas eis que, de última hora, uma mudança de planos foi arquitetada pelo agregado Iradilson: “Vamos sair dessa bagaça, não conheço muito Two Door e vamos logo pro palco alternativo aguardar Alabama”. E foi.

Dito e feito: chegando lá, Gary Clark apresentava em sua segunda música. SORTE!! A miseria de tudo foi que havia esquecido da apresentação de Gary Clark e iria perder aquela maravilha de show daquela tarde. Chegamos com ele cantando Please Come Here, e o público foi à loucura (alucicrazy) com os arranjos do blues.

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Foto: Fernando Galassi / Monkeybuzz (Obrigada).

O público: ótimo. Devido ao show da Two Door e ao fato do público mais jovem do festival desconhecer ou, quem sabe, não curtir, digamos que Gary Clark ficou no esquecimento por um tempo. Os que se concentraram no palco alternativo passaram pela experiência dos melhores solos de guitarra que foram emitidos em três dias do evento.

Lama? Muita!!!! E fedor de esterco?!!! DEMÁS!! Mas todos abstrairam isso ao ouvir, gritar e acompanhar os clássicos desse Jr, como por exemplo, Third Stone From The Sun, Numb, Ain’t Messin Round, entre outras. Rolou cover de Rolling Stones com Satisfaction e seu show encerra com a linda Bright Lights, do trabalho recente do cantor.

Reza a lenda que Gary Clark Jr tem um feriado em sua cidade natal em sua homenagem. Reza a lenda também que ele é apelidado de Salvador do blues. Por “coincidência”, tanto ele quanto a Black Keys possuem uma veia voltada ao blues e compuseram a programação de sábado. A única coisa que posso dizer é: Gary, seu show foi massa e volte mais vezes. Obrigada.

(Alexandre Cocoon Alves)

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ALABAMA SHAKES

Primeiramente, preciso avisar que este texto poderá ser o mais pau no cu da história do ShitChat, pois foram muitas emoções e delícias que, sinceramente, será impossível eu passar num texto, porém vambora.

Antes, preciso explicar uma coisinha. Eu não iria no Lollapalooza por motivos financeiros mas faço parte de uma comunidade satânica que resolveu fazer uma vaquinha pra pagar minha passagem+ingresso+estadia, ou seja.

amo vocs glr, de verdade

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Cheguei ao Lolla depois de quase me cagar com o avião, assisti ao show de uma zumbi que tem músicas bacanas, o show xereca do Toro y Moi, e ia começar Two Door Cinema Club quando resolvi andar porque estava esperando Alabama Shakes. Me perdi de todos, e tava lá tocando um tal de Gary Clark Jr, (que é muito bacana por sinal), quando vi @marcellemml, @IradilsonCosta e @AlexandrreAlves perto da grade [Nota do Blog: as gatas inclusive podem ser vistas aqui], apenas esperando Alabamas e eu fiquei tipo:

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Aí que fiquei na grade, e preciso dizer, Alabama Shakes é uma banda maravilhosa, só que é sempre ótimo lembrar que it´s all about Brittany Howard, uma mulher singular. Uma mulher não, meio que uma entidade de tão poderosa que é.

Brittany entrou no palco e o mundo gritou. Quase passei mal de tão enlouquecida que fiquei, o show começando com Hang Loose e logo em seguida, Hold On, e fiquei meio que pensando “calmaí Brittinha porque você cantou o hit da banda logo de 2° vez?”. Na verdade, não era uma pergunta justa porque eu realmente não sabia o que me esperava. Com I Found You, quase derreti, mas ainda não era o auge do Alabama Shakes. Aí que Brittany me vem com Heartbreaker e pensei “meu amor, se acalma porque não aguento”.

Foi então que Brittany começou a cantar Be Mine.

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Aí o nível aumentou. Brittany elevou os vocais, pesou na mão e começou a me arrepiar fortemente, e com a letra forte Be Mine, fez de vez o público se entregar completamente ao Alabama Shakes. Aí eu pensei “pode acabar porque eu to satisfeito”, mas ela não deixa os ponto sem nó. Logo em seguida, veio I Ain´t the Same e estava devastado, mas estava lá de pé e maravilhado, tinha vezes que eu simplesmente parava e olhava aquilo que tava acontecendo em minha frente, Brittany Howard, Zac Cockrell, Heath Frogg e Steve Johnson estavam a menos de 10 metros a minha frente, porém move on, aquilo tinha que acabar e não tinha como ser melhor que Be Mine.

Mas eles começam a tocar On Your Way. Pra quem não sabe, esta canção é minha música favorita da banda. Ouvi de longe @faelmoreira dizer “é agora que Chá morre” (no caso eu), e sim, quase morri, mas ainda não era o grande auge do show.

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Depois de On Your Way, Alabama anuncia uma nova canção que se chama Heavy Chevy, maravilhosíssima, mas isso não quer dizer nada. Brittany finalmente chegou em You Ain´t Alone, aí Alabama Shakes virou uma das minhas bandas favoritas de todos os tempos (sério). Primeira banda que curto que assisti ao vivo e um grande festival, Brittany Howard se firmou como um dos seres mais poderosos em um palco que eu já presenciei (e eu já vi show da Valesca da Gaiola), absolutamente intocável e ouvi o Fuck That! mais estremecedor da história da humanidade. Enfim, Brittany Howard é uma voz e tanto.

Alabama Shakes foi o melhor show que eu já assisti em toda minha vida, com a melhor companhia que eu jamais poderei ter, galerinha bonita que sou tão grato que sinceramente não sei como agradecer por me permitirem assistir algo tão absoluto quando o show do Alabama Shakes e, novamente, acima de tudo,obrigado ShitChat
(Leandro Ferreira)

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TWO DOOR CINEMA CLUB

Enquanto certas quengas foram pra grade do Alabama Shakes (que perdi, af), garanti um lugar especial e pertinho pra conferir o que os moços da bacana Two Door Cinema Club fariam (só o título dessa banda já merece um abraço, né?). Com a bagagem de dois álbuns sólidos – inclusive o primeiro já garante uma hora de hits ao vivo –, a banda indie não fez feio. Animados e vestidos à caráter pro Lollapalooza (ou seja, à moda hipster), sorriam com a empolgação do público e entregavam empolgantes números cheios de energia. Impossível não cantar as letras deliciosas, seja a repetição crocante de “do you want it, do you want it, do you want it, all?!” ou a melancólica “and I can tell just what you want, you don’t want to be alone”.

Mesclando músicas novas (dispensáveis como “Handshake” e outras maravilhosas como “Pyramid”) com velhos hits, foi um bom set de 15 canções, todas apropriadamente animadas. Vamos desculpar a ausência da antalógica “Come Back Home” do set. Two Door Cinema Club é do clube das canções agitadas nas batidas mas incrivelmente melancólicas. É o ideal para movimentar uma tarde ensolarada do Jockey Club. O desafio era não pular, principalmente nos últimos números. “Someday” foi o ápice do show, com riffs de guitarra deliciosos. Mas foi “What You Know” que levantou todo mundo, fechando a apresentação com aquele gostinho de quero mais – o mesmo deixado pelos discos da banda.
(Wallyson Soares)

Killer Joe – Matador de Aluguel

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Now suck this.
(Killer Joe, 2011. Dir William Friedkin)

William Friedkin, pros desavisados, é responsável por um dos filmes que mais me mataram de rir, enquanto a maior parte da população mundial tem arrepios só de ouvir a música tema:

cara, ela vomita, desce a escada que nem uma aranha, dou risada sempre.

cara, ela vomita, desce a escada que nem uma aranha, dou risada sempre.

Mas, depois de filmes bacanas nos anos 80, nos anos 90, sua carreira deu uma virada desastrosa, chegando ao cúmulo de fazer uma refilmagem de 12 Angry Men – seriously?. E quando as inimigas achavam que Friedkin estava com a carreira morta e enterrada, eis que o diretor volta a chamar a atenção em Bug, e em Killer Joe – filme de 2011, que depois de trocentos atrasos, finalmente estreou aqui -, é confirmado que o diretor ainda é capaz de fazer bons filmes, sim (inclusive, se eu fosse ele, ficava quietinho no meu canto depois de fazer essa maravilha, vai que).

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Falando em decadência, esse é o ambiente explorado em Killer Joe. Ambientado no Texas, um dos estados mais ricos dos EUA, porém, com um dos maiores índices de desigualdade, Friedkin apresenta uma análise pessimista da população texana ao retratar a história da família Smith – que poderia ser a família Silva caso o filme se passasse no Brasil. Chris, o filho, é traficante de drogas e mora com a mãe, que é agredida por ele. Mas ela acaba roubando a fonte de renda do filho, deixando ele sem ter meios de pagar uma dívida. E, por mais que haja uma simpatia inicial pelo personagem, ela é destruída quando Chris explica ao pai que a solução para o problema de todos seria matar a mãe e ficar com o seguro de vida nominal à irmã mais nova, Dottie.

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Friedkin deixa claro que não há inocentes na história, nem mesmo Dottie. A garota, por mais que tenha atitudes inocentes, concorda com o plano do irmão. E é aí que entra em cena Joe, o Killer do título. Joe Cooper é um policial, mas nas horas livres faz uns frila de assassino. E os Smith podem não ter dinheiro para pagá-lo adiantado como ele costuma fazer, mas Joe é esperto e pede uma “caução”: ficar com Dottie até o trabalho acabar e ele receber.

A história se desenvolve numa mistura efetiva de comédia de erros – o resgate do seguro – , humor negro – duas palavras: coxa de galinha -, e violência. Uma espécie de conto de fadas do white trash, onde a princesa tem algumas limitações mentais, o príncipe na verdade é um matador de aluguel, o castelo é um trailer, e, moral da história, os personagens sofrem as consequências da decisão de decidir matar alguém como forma de escapar da situação em que vivem.

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A trama não é leve, e um elenco errado poderia pôr tudo a perder, mas Friedkin fez as escolhas certas, inclusive a que parece ser a mais errada de todas, Matthew McConaughey como Joe. Com uma atuação beirando ao caricato e o ameaçador, o ator é outro que dá a volta por cima mostrando que sabe atuar quando quer. Juno Temple também merece destaque pela atuação no clímax. A fotografia reflete com coerência o mundo cão em que os personagens vivem. E Friedkin merece um joinha do Shitchat por coordenar tudo sem deslizes e entregar um filme que prende do início ao fim.

NOTA MARCELLE MACHADO: 10

Dierli (af) Santos: 9,5
Felipe (Horro)Rocha: 9,0
Leandro Ferreira: 10
Ralzinho Carvalho: 10
Tiago Lipka: 10
Rafael Moreira: 9,0

MÉDIA CLAIRE DANES: 9,7, Claire diboua comendo KFC claire_burca

Nascido Para Matar

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Kiss me goodbye and write me while I’m gone
Goodbye my sweetheart, Hello Vietnam.

(Full Metal Jacket, 1987. Dir. Stanley Kubrick)

A guerra é tema recorrente da filmografia de Kubrick, mas depois de Glória Feita de Sangue e Dr Fantástico, era difícil acreditar que o diretor pudesse abordar o tema anti-guerra sem soar repetitivo. Mas aí vem Nascido Para Matar, e nada como mostrar seu desprezo pela guerra que narrando a rotina de um soldado e o que ele enfrenta desde o recrutamento até a hora de encarar a guerra.

Em 1980, Kubrick planejava escrever sobre o Holocausto, porém, logo descartou essa abordagem. Em busca de um novo plano de fundo, em 1982, Kubrick se depara com The Short-Timers, livro de Gustav Hasford, e finalmente havia encontrado uma trama para seu novo filme, a guerra do Vietnam. O perfeccionismo do diretor fica evidente: entre definir um tema e o lançamento do filme, passam-se 5 anos.

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Nascido Para Matar – no original Full Metal Jacket, uma referência à bala usada pelos soldados americanos no Vietnã – é dividido em duas partes que até podem parecer desconexas, apesar dos mesmos personagens, mas Kubrick não dá ponto sem nó, e no final, tudo faz sentido. A trama começa mostrando a desindividualização e perda da identidade dos soldados logo na primeira cena, com todos raspando o cabelo. O controle do governo sobre o indivíduo já havia sido tratado por Kubrick em Laranja Mecânica, mas Kubrick é direto. Os soldados não possuem mais nome, mas apelidos, seus gestos são milimetricamente calculados, e o que fazem é rigorosamente observado pelo Sargento Hartmann – uma interpretação sem ressalvas de R. Lee Ermey, militar que a princípio ajudaria Kubrick nos bastidores, mas acabou conseguindo o papel -, pois no exército, os soldados não são pessoas, mas máquinas de matar.

Porém, em meio ao treinamento, é impossível ignorar que soldados são humanos. O maior exemplo dito é Leonard “Gomer Pyle” Lawrence. Fica evidente desde seus primeiros minutos em cena que Lawrence não está preparado para a guerra (mas, por que deveria estar, né). Não contém o riso diante do Sargento, não consegue seguir os colegas no treinamento, e está sempre cometendo algum erro por não se enquadrar nos dogmas do exército. Kubrick, na figura de Pyle, deixa explícito a estupidez da guerra no campo individual, e as consequências em transformar seres humanos em assassinos.

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A segunda parte do filme muda o foco do grupo de soldados para centrar em Joker e sua experiência no Vietnã. O apelido não poderia ser mais correto, pois o personagem, interpretado por Matthew Modine é sarcástico e faz piadas o tempo todo, mas também é uma dualidade ambulante, como o coringa do baralho. Na primeira parte, fica claro que empatiza com Lawrence, mas não deixa de castigá-lo, na segunda parte, está trabalhando como correspondente de guerra, mas não hesita em ir para o combate quando surje a oportunidade. E é aí que Kubrick aborda a guerra de forma mais geral.

Utilizando locações reais, Kubrick mostra como os soldados estão à própria mercê, abandonados por aqueles que os colocaram lá, sem nem conhecerem os motivos que os levaram à guerra. De máquinas para matar, os soldados viram produtos descartáveis largados à própria sorte, sem apoio do governo, da tecnologia – e prestes a perder o fiapo de humanidade que resta aos soldados quando devem decidir se são clementes ou não com o inimigo, que é tão vítima quanto eles.

avaliem minha cara de susto quando vi John Casey no filme

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Tecnicamente, Kubrick está sobrando em tela. O sufoco do treinamento militar é comparado ao sol extremamente laranja. A transformação de Lawrence em máquina para matar é marcada com uma fotografia friamente cinza-azulada, tanto na cena em que apanha, quanto na cena em que acontece o ajuste. A segunda parte tem momentos de documentário, com depoimento dos soldados, e esse realismo reflete em cenas como quando os soldados deparam com um atirador. A trilha sonora, composta de músicas marcantes da década de 70, tem seus momentos de sarcasmo, e momentos de soco na cara, como o encerramento com Paint It Black, dos Rolling Stones. Mas o ponto alto do filme é unir as duas partes no final.

Enquanto nos primeiros 45 minutos vemos a transformação de Pyle, na segunda parte, acompanhamos Joker na guerra. Ambos sofrem uma transformação: Pyle vai de um rapaz tolo e sem jeito até se tornar uma máquina de matar – é incrível o trabalho de Vincent D’Onofrio, que começa sem conseguir parar de sorrir, e acaba com assustando com seu olhar sem nada além de raiva -, enquanto que Joker começa sua vida como soldado escolhendo trabalhar como hjornalista, mas no fim das contas, a guerra o encontra. Da mesma forma como Pyle teve que encarar o resultado de sua transformação na morte, reconhecendo seu fim ao dizer “I am… in a world… of shit”, Joker abraça a guerra, ao mesmo tempo que a vontade de sobreviver o domina: “I’m in a world of shit… yes. But I am alive”, diz o personagem. Mas não há uma motivação em manter-se vivo além de seguir em frente, agora Joker terá que encarar batalha após batalha, por qual motivo, não há como saber, pois não há um propósito para a guerra, além de revelar o pior lado da humanidade.

NOTA MARCELLE MACHADO: 10

Alexandre Alves: 10
Felipe Rocha: 10
Leandro Ferreira: 10
Tiago ridiculo Lipka: 9,0
Wallyson af Soares: 9,0

Média Claire Danes do Shitchat: 9,666 Claire com o diabo no corpo por causa desses 9,0claire_burca