De Olhos Bem Fechados

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(Eyes Wide Shut, Dir. Stanley Kubrick – 1999)

Existe uma certa expectativa em torno de De Olhos Bem Fechados. Primeiro, porque é um filme do Kubrick, e se você for um ser humano no melhor estado das suas faculdades mentais, você espera pelo menos uma obra-prima vinda desse cara. Segundo, porque é o ÚLTIMO filme dirigido por ele, então você certamente espera que isso seja tão excitante quanto um sextape do pessoal do shitchat. E terceiro, porque tem a Nicolão Kidman num dos últimos filmes em que ela realmente parece ter algumas expressões, embora a bunda dela apareça mais do que sua cara propriamente dita. Além disso, posso pontuar o fato do filme ter demorado quase três longos anos para ser produzido, o que gera certa curiosidade.

De certa forma, o filme não supera as expectativas, mas não é nem de longe decepcionante. Ok, esse gênio em questão já dirigiu 2001 e Laranja Mecânica, então eu permito que ele faça um último filme que de certa forma seja considerado “menor”. Mas ao mesmo tempo em que considero De Olhos Bem Fechados um filme “menor” do Kubrick, também o considero um tanto subestimado.

Temos um Tom Cruise marido-médico-pai-dedicado casado com Nicolão, que já de início mostra o que tem de melhor (principalmente se pensarmos que hoje em dia a gostosa tem mais botox no rosto do que sangue circulando). Até aí tudo bem, os dois parecem ser felizes em seu relacionamento, embora logo no começo do filme, em uma festa, ambos flertem com outras pessoas – o que de parece acordar no Kubrick um certo moralismo, pois quando o casal se encontra mais tarde, em frente ao espelho de sua casa, a música ao fundo imprime uma certa retaliação com “Baby did a bad bad thing”. Editor, põe a foto da cena aqui pros amiguinhos se situarem:

não pera

não pera

agora sim

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Até aí, nada de inovador ou interessante. Mas mesmo quando o filme ainda está se encontrando, o roteiro e os diálogos nos deixa alerta com as longas cenas que compõe cada momento, em especial a cena em que o affair da Alice fala “Não acha que um dos encantos do casamento é tornar o fingimento uma necessidade para ambas as partes?”. E é exatamente em cima disso que o enredo do filme se desenvolve, uma vez que é por causa de uma confissão da Alice – numa das minhas cenas preferidas do filme, embora seja intercalada por momentos brilhantes e ao mesmo tempo constrangedores da Nicole Kidman – que assume que já sentiu vontade de largar o mundo e trair Bill, que o filme entra numa verdadeira, digamos, jornada psicossexual (e eu juro a vocês que eu não li esse termo na contracapa do meu DVD!!!!).

E então, o filme realmente começa. Se aventurando pela noite, todos os momentos que envolvem Bill e sua neura por ser corneado envolvem sexo, luxúria e coisas do tipo, culminando numa seita (se é que aquilo pode ser chamado de seita) estranhíssima que não é bem explicado o porquê e nem o que é, mas que causa uma sensação estranha DAQUELAS. Você pode até pensar “Nossa, acho que só o pessoal do shitchat é estranho suficiente pra sentir tesão nesse bando de gente mascarada numa mansão”, mas se alguém conseguiu ficar excitado com Tom Cruise e seu cabelo oleoso nesse filme, eu não duvido de mais nada.

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Até aí, acho o filme perfeito e imaculado na maneira que Kubrick conseguiu desestruturar a imagem de um casamento perfeito e até mesmo causar certa discussão em torno de fidelidade (palavra que é de importância na trama) e se os seres humanos são realmente capazes de manter um relacionamento monogâmico. O problema é que dentro desse enredo todo, o filme acaba fugindo para o suspense em sua hora final, mas nada que consiga arruinar todo o trabalho que o mestre conseguiu fazer.

Seja pela atuação consistente do Tom Cruise, sejam pelos breves bons momentos da Nicole Kidman, seja por toda a discussão que incita ou até mesmo se você entrar de cabeça no suspense do final, De Olhos Bem Fechados é sim um ótimo filme, e fecha muitíssimo bem uma filmografia extremamente brilhante de um dos melhores diretores de todos os tempos (nesse momento as lágrimas escorrem no meu rosto e obrigado ao blog por fazer essa maratona maravilhosa, pois Kubrick é melhor que todos nós juntos, amém).

última vez que pudemos ver isso :(

última vez que pudemos ver isso 😦

NOTA RALZINHO CARVALHO: 9,0

Alexandre Alves: 8,5
Felipe Rocha: 8,5
Leandro Ferreira: 8,0
Marcelle Machado: 8,5
Tiago Lipka: 8,5
Wallysson Soares: 9,0

Média Claire Danes do Shitchat: 8,5 (clayr feliz porém dentro do âmago do seu ser triste por esse ser a última obra do kubrick) claire danes sorrisinho

Nascido Para Matar

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Kiss me goodbye and write me while I’m gone
Goodbye my sweetheart, Hello Vietnam.

(Full Metal Jacket, 1987. Dir. Stanley Kubrick)

A guerra é tema recorrente da filmografia de Kubrick, mas depois de Glória Feita de Sangue e Dr Fantástico, era difícil acreditar que o diretor pudesse abordar o tema anti-guerra sem soar repetitivo. Mas aí vem Nascido Para Matar, e nada como mostrar seu desprezo pela guerra que narrando a rotina de um soldado e o que ele enfrenta desde o recrutamento até a hora de encarar a guerra.

Em 1980, Kubrick planejava escrever sobre o Holocausto, porém, logo descartou essa abordagem. Em busca de um novo plano de fundo, em 1982, Kubrick se depara com The Short-Timers, livro de Gustav Hasford, e finalmente havia encontrado uma trama para seu novo filme, a guerra do Vietnam. O perfeccionismo do diretor fica evidente: entre definir um tema e o lançamento do filme, passam-se 5 anos.

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Nascido Para Matar – no original Full Metal Jacket, uma referência à bala usada pelos soldados americanos no Vietnã – é dividido em duas partes que até podem parecer desconexas, apesar dos mesmos personagens, mas Kubrick não dá ponto sem nó, e no final, tudo faz sentido. A trama começa mostrando a desindividualização e perda da identidade dos soldados logo na primeira cena, com todos raspando o cabelo. O controle do governo sobre o indivíduo já havia sido tratado por Kubrick em Laranja Mecânica, mas Kubrick é direto. Os soldados não possuem mais nome, mas apelidos, seus gestos são milimetricamente calculados, e o que fazem é rigorosamente observado pelo Sargento Hartmann – uma interpretação sem ressalvas de R. Lee Ermey, militar que a princípio ajudaria Kubrick nos bastidores, mas acabou conseguindo o papel -, pois no exército, os soldados não são pessoas, mas máquinas de matar.

Porém, em meio ao treinamento, é impossível ignorar que soldados são humanos. O maior exemplo dito é Leonard “Gomer Pyle” Lawrence. Fica evidente desde seus primeiros minutos em cena que Lawrence não está preparado para a guerra (mas, por que deveria estar, né). Não contém o riso diante do Sargento, não consegue seguir os colegas no treinamento, e está sempre cometendo algum erro por não se enquadrar nos dogmas do exército. Kubrick, na figura de Pyle, deixa explícito a estupidez da guerra no campo individual, e as consequências em transformar seres humanos em assassinos.

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A segunda parte do filme muda o foco do grupo de soldados para centrar em Joker e sua experiência no Vietnã. O apelido não poderia ser mais correto, pois o personagem, interpretado por Matthew Modine é sarcástico e faz piadas o tempo todo, mas também é uma dualidade ambulante, como o coringa do baralho. Na primeira parte, fica claro que empatiza com Lawrence, mas não deixa de castigá-lo, na segunda parte, está trabalhando como correspondente de guerra, mas não hesita em ir para o combate quando surje a oportunidade. E é aí que Kubrick aborda a guerra de forma mais geral.

Utilizando locações reais, Kubrick mostra como os soldados estão à própria mercê, abandonados por aqueles que os colocaram lá, sem nem conhecerem os motivos que os levaram à guerra. De máquinas para matar, os soldados viram produtos descartáveis largados à própria sorte, sem apoio do governo, da tecnologia – e prestes a perder o fiapo de humanidade que resta aos soldados quando devem decidir se são clementes ou não com o inimigo, que é tão vítima quanto eles.

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Tecnicamente, Kubrick está sobrando em tela. O sufoco do treinamento militar é comparado ao sol extremamente laranja. A transformação de Lawrence em máquina para matar é marcada com uma fotografia friamente cinza-azulada, tanto na cena em que apanha, quanto na cena em que acontece o ajuste. A segunda parte tem momentos de documentário, com depoimento dos soldados, e esse realismo reflete em cenas como quando os soldados deparam com um atirador. A trilha sonora, composta de músicas marcantes da década de 70, tem seus momentos de sarcasmo, e momentos de soco na cara, como o encerramento com Paint It Black, dos Rolling Stones. Mas o ponto alto do filme é unir as duas partes no final.

Enquanto nos primeiros 45 minutos vemos a transformação de Pyle, na segunda parte, acompanhamos Joker na guerra. Ambos sofrem uma transformação: Pyle vai de um rapaz tolo e sem jeito até se tornar uma máquina de matar – é incrível o trabalho de Vincent D’Onofrio, que começa sem conseguir parar de sorrir, e acaba com assustando com seu olhar sem nada além de raiva -, enquanto que Joker começa sua vida como soldado escolhendo trabalhar como hjornalista, mas no fim das contas, a guerra o encontra. Da mesma forma como Pyle teve que encarar o resultado de sua transformação na morte, reconhecendo seu fim ao dizer “I am… in a world… of shit”, Joker abraça a guerra, ao mesmo tempo que a vontade de sobreviver o domina: “I’m in a world of shit… yes. But I am alive”, diz o personagem. Mas não há uma motivação em manter-se vivo além de seguir em frente, agora Joker terá que encarar batalha após batalha, por qual motivo, não há como saber, pois não há um propósito para a guerra, além de revelar o pior lado da humanidade.

NOTA MARCELLE MACHADO: 10

Alexandre Alves: 10
Felipe Rocha: 10
Leandro Ferreira: 10
Tiago ridiculo Lipka: 9,0
Wallyson af Soares: 9,0

Média Claire Danes do Shitchat: 9,666 Claire com o diabo no corpo por causa desses 9,0claire_burca

O Iluminado

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“I said, I’m not gonna hurt ya. I’m just going to bash your brains in.”

(The Shinning – Dir. Stanley Kubrick – 1980)

Inquietante, assombroso, hipnotizante, apavorador, arrepiante. Palavras justas para descrever a abertura de O Iluminado, um dos planos mais marcantes do Cinema e que sempre me afeta em níveis inimagináveis. Você começa o filme com cu na mão antes mesmo de dar os cinco minutos de metragem. A partir daí esperamos pelo pior e é exatamente o que Kubrick entrega – só que da melhor forma possível. Não dá pra ler a obra complexa e aterrorizante de Stephen King e imaginar que seria filmada de tal forma. Kubrick surpreende completamente. E não só a nós – King, por exemplo, ficou surpreso e puto da vida.

Esse filminho leve e descomprometido – para os leigos que não sabem – retrata o isolamento de Jack “heeeeeeeeeeeeeeeres Johnny!” Torrance, sua tapadíssima mulher Wendy e seu filho deficiente mental especial Danny no gracioso Overlook Hotel. Jack vai fazer um trabalho de acompanhamento e manutenção do hotel e aproveita para trabalhar em seu livro. Só que, né, como a musiquinha horrorosamente horripilante da abertura sugere, as coisas ficam meio tenebrosas. E seja pelas gêmeas esquisitas escondidas nos corredores, uma onda de sangue jorrando do elevador ou a insistente trilha sonora apavorante, O Iluminado vai se tornando um terror como poucos. Daqueles que não só afeta seus nervos, mas entra na sua cabeça.

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O grande triunfo do texto de King é mantido em essência no filme de Kubrick: o personagem de Jack Torrance e seu gradativo colapso à insanidade ensandecida. O restante do livro de King é completamente mutilado, mas isso é outro assunto (vale dizer apenas que o senhor Stefano Rei não curtiu a brincadeira). Mas vamos concordar que o labirinto enevoado foi uma adição deliciousa do Kubrick. Por outro lado, o desfecho em si é anticlimático. Não só isso, mas deixa uma sensação errada ao fim que não sei bem explicar. Talvez se deva à exclusão de uma cena da versão final. Ou talvez Kubrick honestamente não soubesse onde levar seu filme.

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Se Jack Torrance é a crocância da história, o outro Jack (Nicholson, seu lerdo) é raio, luiz, estrela e luar. King tinha um pouco de razão quando discordou da escolha de Nicholson para o papel, alegando que a cara de perturbado do sujeito amenizaria o drama de seu colapso à loucura. Mas foda-se porque é apenas uma das atuações mais deliciosas e diabólicas. “All work and no play makes Jack a dull boy” virou hino e a bola de tênis, relíquia. Mais importante que ela só o bastão da Shelley Duvall (essa gostosa #sóquenão). Duvall, aliás, foi indicada ao Framboesa mas está maravilhosamente bulinada por King #chupalarsvontrier. Um deleite o desespero da gata. E o jovem Danny Lloyd não deixa a desejar, evocando inquietação em sequências de parar o coração.

O que dizer da técnica do Kubrick que já não foi dita pelos outros shitters sobre os outros filmes do cara? O Iluminado não é sobre trama e não adianta procurar por plot points e twists que estes não existirão. Só não digo é uma descida ao inferno porque Kubrick não acredita em inferno, mas é o mais próximo disso que podemos imaginar. Uma viagem sensorial que só Kubrick com sua câmera maravilhosa poderia retratar. Os enquadramentos são espetaculares e os planos divinos. Somam à trilha sonora para causar o maior desconforto possível e transformar O Iluminado nessa pérola do gênero. Se você não acredita em fantasmas, não se preocupe que tem o desequilíbrio psicológico do Jack Torrance para tirar seu sono. De uma forma ou de outra, Stanley Kubrick vai conseguir o que quer. Não é um filme perfeito e nenhuma obra-prima, mas uma preciosidade na mesmice do gênero e uma adaptação inusitada. “We all shine on”, como diria outro Johnny. O Iluminado não será esquecido.

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NOTA WALLYSSON SOARES: 8,5

Alexandre Alves: 10
Felipe Rocha: 9,0
Leandro Ferreira: 10
Marcelle Machado: 10
Evanilson Carvalho: 10
Tiago Lipka: 10

MÉDIA CLAIRE DANES DO SHITCHAT: 9,666 Clayre diabólica de burca claire_burca

Barry Lyndon

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(Barry Lyndon – Stanley Kubrick – 1975)

Dando continuidade a periclitante maratona Kubrick, pois Claire Danes ameaçou de chamar o Exterminador do Futuro pra nos dar uma fuzilada caso não sigamos a agenda à risca, a minha tarefa dada por Claire maravilhosa foi assistir a Barry Lyndon e eu estou severamente agradecido por ela ter me apresentado um dos melhores do Kubrick (porque nada vai bater Glória Feita de Sangue) e um dos (e porque não ‘o’) filmes mais bonitos de todos os tempos.

Redmond Barryé um jovem irlandês, pobre e órfão que mora na casa dos tios e é expulso do lugar pois a vadia de sua prima queria que ele colocasse as mãos dele em seus peitos mas não queria casar com ele, se alista no exército, mas se torna um desertor e acaba capturado pelo exército adversário (acho que alemão) pra trabalhar como espião em seu lugar de origem, porém, o gato conhece Lady H.Lyndon pela qual se apaixona.

Antes de mais nada, falar de Barry Lyndon sem falar da minuciosidade dos atributos técnicos que o filme possui, a riqueza nos detalhes, o cuidado perceptível de cada enquadramento que faz pedras brotarem dos rins do Tom Hooper de tanta inveja que o homem deve ficar. A beleza é tão extraordinariamente outro nível que qualquer momento do filme que você pausar pode ser feito um print e colocar na parede da sua sala e ainda assim, parecer um puta de um quadro (é sério,tentem).

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Nunca havia visto um filme da criação, ascensão e derrocada de uma personalidade com um roteiro tão caprichado, tipo de filme pelo qual o roteirista preferiria explorar histórias paralelas desinteressantes, Barry Lyndon, não, um filme genial justo por ser tão egoísta. Um ponto absolutamente curioso no filme é a duração de 3h15 onde que se passa como se fosse 30 minutos, não te permite ficar entediado por momento algum, o filme é um avanço contínuo.

Barry Lyndon é o tipo de personagem que é necessário um ator um tanto camaleônico, N atores considerados melhores poderiam ter feito o filme (tipo Marlon Brando, Paul Newman,etc) mas a escolha foi Ryan O´Neal e após ver o filme, é simplesmente impossível pensar em outra pessoa ao ver o filme. O ator vai do nascimento com o medo necessário à ascenção com um tom arrogante impressionante, indo da caída de forma quase autodestrutiva ao fracasso como se fosse a coisa mais fácil do universo atuar. E sobre a direção do Stanley Kubrick, única coisa que posso dizer é : ASSISTAM A BARRY LYNDON.

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Resumindo, Stanley Kubrick filma a desgraça que a ganância pode causar na vida de nós, cidadãos brasileiros que jogam a moça grávida escada abaixo apenas pra ter a promoção tão sonhada em seu emprego de costureira, onde Kubrick filma com perfeição o “Quanto mais alto o vôo,maior a queda”

NOTA LEANDRO FERREIRA : 10

Alexandre Alves : 10
Felipe Rocha: 10
Marcelle Machado: 10
Tiago Lipka: 10

Média Claire Danes do Shitchat: 10

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Laranja Mecânica

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(A Clockwork Orange – Dir. Stanley Kubrick – 1971)

Nesse momento estou aqui no meu quartinho chorando muito enquanto escrevo esse texto. Vou explicar a vocês o porquê: quando a cúpula do shitchat resolveu fazer essa #maratona #marota da filmografia do Kubrick, meu coraçãozinho bateu mais forte, porque enquanto as bichas do shitchat se rasgavam por 2001, Glória Feita de Sangue, Spartacus e blábláblá, eu logo gritei LARANJA MECÂNICA que nem o Steve Holt chama o próprio nome.

E o porquê disso? Porque Laranja Mecânica é apenas um dos meus filmes favoritos de tipo TODOS OS TEMPOS e sem dúvidas foi um dos divisores de águas na minha vida de cinéfilo. Se hoje eu sou fã ávido de cinema, é porque há uns bons anos mudei de vida ao assistir essa obra-prima. E eu estou escrevendo isso na certeza que você não é pau no cu o bastante para AINDA NÃO TER VISTO ISSO. Sério, eu até quero que nesse momento, vocêzinho que ainda não viu esse filme, feche o blog e vá comprar o DVD dessa porra A-G-O-R-A.

Pois bem, quanto a essa maravilha de filme, Kubrick imprime uma das maiores críticas à nossa sociedade. Violento, ácido, cru, de certa forma indigesto em alguns momentos, Laranja Mecânica não é um filme que glamouriza a violência como muita gente alega (devem ser as mesmas pessoas que acham que A Hora Mais Escura defende a tortura e blábláblá meu cu), mas Kubrickzão enfia o dedo no olho da nossa sociedade hipócrita. Para isso, ele nos expõe a história de Alex (interpretado por um soberbo Malcolm McDowell), um líder de uma gangue de delinqüentes juvenis que se divertem na base de ultraviolência, seja espancando mendigos, estuprando mulheres, saindo na porrada, curtindo o próprio status no facebook ou dando RT no Omelete. Quando em uma de suas desventuras Alex acaba assassinando uma vítima e é traído pelos membros da sua gangue, é preso, e na instituição em que é colocado, serve de cobaia para um experimento patrocinado pelo governo em que eles alegam que o indivíduo tem seus impulsos violentos controlados.

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E é aí a maior crítica do Kubrick, que nos faz questionar quem seria mais violento. Em um passo inicial, o gênio nos mostra todo o circo de horrores da ultraviolência e nos deixa enojado pelas atitudes de Alex e sua gangue – uma violência individual e intrínseca a esses seres humanos – para depois nos mostrar um estado tão violento quanto, mas que de certa forma é uma violência dita “justificável”, com a desculpa que seria para um bem maior. Logo, fica a pergunta: um Estado violento não seria tão perigoso quanto um indivíduo violento? E se essa violência for amparada por lei e institucionalizada? Alex e a sociedade mostrada não parecem diferir tanto assim.

Quanto à técnica, o filme é impecável em todos os sentidos. A trilha sonora é um misto de música eletrônica, pontuada em alguns momentos pela 9ª sinfonia de Beethoven (que o próprio Alex é fã) e em uma das cenas mais antológicas do filme, Alex interpreta Singin’ in the Rain – e ouso dizer que essa música é mais conhecida por essa cena em questão do que pelo próprio filme que leva o nome. A direção de arte, figurino e fotografia nos remetem à uma Inglaterra futurista ao mesmo tempo em que alguns aspectos do próprio período em que o filme foi filmado são uma boa sacada. Temos aqui um filme atemporal.

E eis que com isso, Kubrick dirigiu o que pra mim é sua obra prima máxima. Sei que muitos discordam por motivos de certos 2001 – Uma Odisséia no Espaço, mas pra mim não existe filme mais representativo em sua filmografia. E junto com Matilda, o documentário da Gretchen e o sextape da Marcela, esse é um dos filmes obrigatórios pra vocês que respiram o O2 que as plantinhas se fodem pra liberarem, suas quengas.

NOTA RALZINHO CARVALHO: 10

Alexandre Alves: 10
Felipe Rocha: 10
Leandro Ferreira: 9,5
Marcelle Machado: 10
Tiago Lipka: 10
Wallysson Soares: 10

Média Claire Danes do Shitchat: 9,9

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2001: Uma Odisséia no Espaço

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(2001: A Space Odissey – Dir. Stanley Kubrick – 1968)

Segundo Umberto Eco, as pessoas se dividem em dois tipos de acordo com sua relação com as novas tecnologias: os integrados e os apocalípticos. É justo aplicar essa lógica também no cinema, e se o fazemos, percebemos que boa parte dos filmes que lidam com esse tema – especialmente na ficção científica – se encaixam no apocalíptico. A tecnologia supera o homem e o ameaça, e/ou o homem precisa reaprender sua humanidade, etc.

Talvez esse seja o jeito ideal de apresentar 2001: Uma Odisséia no Espaço: um filme tão extraordinariamente único que se encaixa tanto nos integrados quanto nos apocalípticos – sem pender para nenhum dos lados. Ao mesmo tempo em que celebra a tecnologia e os grandes avanços, mostrando verdadeiros balés espaciais, conta uma história exemplar sobre os perigos da dependência da tecnologia. Seus efeitos visuais até hoje impressionam, ainda mais sabendo que o homem ainda não tinha ido ao espaço, então todas as referências que vemos do espaço, como a Terra vista de longe, ou o terreno da Lua, ou o visual de Júpiter, foram criados do nada pela equipe do filme (que incluía diversas pessoas da NASA).

Escrito por Stanley Kubrick em parceria com Arthur C. Clarke, o filme começa na pré história, quando um grupo de macacos é surpreendido por um monólito de dimensões perfeitas e que parece ter sido enterrado ali a noite, quando ninguém o viu. Depois de um dos cortes mais famosos da história do cinema, o raccord do osso para uma nave (na verdade, uma ogiva nuclear, esclareceu Arthur C. Clarke numa entrevista), já no ano de 2001 (eu acho?), um grupo de astronautas descobre um monólito igual ao primeiro enterrado na superfície da lua, que começa a emitir um sinal. Dois anos depois, uma nave tripulada por alguns astronautas e o supercomputador HAL 9000 parte em direção ao sinal emitido, que vai em direção a Júpiter.

A trama não parece grande coisa, e de fato, interessa muito pouco. Tanto é, que várias vezes tanto Kubrick quanto Arthur C. Clarke já declararam que se você entendeu o filme, então você realmente não o entendeu. 2001 é uma obra visual, de idéias. É quase um filme mudo – considerem que os diálogos surgem apenas depois de 30 minutos de filme, e quando surgem, são falados num tom baixo, e não parecem fazer muito sentido. São conversas banais fora de contexto – mas que funcionam dentro da temática.

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Para começar a analisar a temática, vale lembrar do primeiro plano do filme, quando vemos a Terra, a Lua e o Sol alinhados. Essa será uma imagem constante – o equilíbrio do universo. Fora os planetas, satélites naturais e o astro, o único objeto que aparece no mesmo alinhamento é justamente o monólito.

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Mas então… o que diabos seria o monólito?

Bem, vale lembrar de quais as consequências de cada aparição do monólito no filme. Para os macacos, a confusão causada pelo objeto acaba dando origem a um importante passo para a evolução da espécie: o uso do osso como arma acaba mudando desde a alimentação (começando a comer outros animais) até a maneira como eles convivem em sociedade (a disputa pelo riacho).

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Na lua, a chegada dos astronautas até o monólito tem uma consequência curiosa: um som agudo e estridente os assola – num impulso irracional, cobrem os ouvidos, esquecendo dos capacetes. Vale lembrar que há uma interessante rima visual entre essas aparições, a maneira como os macacos e os astronautas se aproximam e tocam, cautelosamente, o objeto. Dali, descobrimos que o monólito enviou um sinal para Júpiter, e para onde o sinal foi enviado. Há uma cena reveladora que mostra o objeto voando perto do planeta, mas o astronauta só o enxerga em um momento: curiosamente, o único momento em que o ser humano é visto em equilíbrio com o monólito – justamente, o momento da sua morte.

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O que pode ser interpretado da seguinte forma: o monólito representa o mistério definitivo. O “Quem sou eu?” “Qual o meu propósito?” – seria o que o 42 significa para Douglas Adams. Não seria à toa que ele causa tanto pânico entre os macacos e entre os astronautas no momento em que surge em cena – mas também é o responsável indireto pelos enormes avanços tecnológicos nas duas épocas. Aliás, sua própria forma diz muito sobre si mesma: posicionada de forma a ficar alinhada com o resto do Universo, ela é alta – o homem está abaixo dela. E sua forma perfeita, somada a sua superfície lisa, obviamente indica que ela foi construída – não é algo natural (além de ter sido deliberadamente enterrada na superfície da Lua, como indica um personagem).

Aqui fica uma das questões: alienígenas? Deus? Certamente, fica a cargo do espectador. Outro fato que contribui para essa teoria é uma das escolhas do diretor para a trilha: Assim Falou Zaratustra de Richard Strauss, baseado no livro de Nietzsche, justamente sobre a evolução do macaco para o homem, e do homem para o super-homem.

E vale lembrar que a figura do monólito também aparece de forma sutil no personagem mais complexo da trama – aquele que criado para ser o computador perfeito, sem margem para erros, acaba cometendo um, para desespero da tripulação e para si próprio: HAL 9000.

Observem que a forma de HAL tem a mesma do monólito - incluindo até mesmo a pequena que serve para equilibra-la embaixo da terra.

Observem que a forma de HAL tem a mesma do monólito – incluindo até mesmo a pequena parte que serve para equilibra-la embaixo da terra. Se considerarmos que o objeto representa a ~grande questão humana~, é absolutamente perfeito que HAL 9000 possua a sua forma, já que 1) ele começa a ter essas mesmas questões, ao passo que, desenvolveu uma consciência e 2) ele é um produto construído pelo homem graças ao avanço causado pelo encontro com o monólito. Além disso, o “erro” de HAL é cometido justamente quando ele questiona a missão, num momento de extrema humanidade (o que torna ainda mais irônico o fato de ele acusar o erro de ter sido causado por falha humana). Sobre o visual de HAL, lembremos que o título do filme faz referência à Odisséia, e o “olho” vermelho pode representar o Cíclope, adversário de Ulisses na obra de Homero.

Ainda mais fascinante é perceber que a “morte” de HAL é um dos momentos mais emocionantes da obra de Kubrick, visualmente o diretor preenche o enquadramento com vermelho (sangue, morte), e deixando a voz do computador cada vez mais fraca, dá ainda um melancólico monólogo no qual lembra de sua “infância” – seus testes quando tinha sido recém construído. E você que não se arrepia ao ouvir HAL cantando Daisy, tá aqui um recadinho.

Há no filme também uma interessante discussão sobre a interação do homem com a tecnologia. Pensem no contraste das cenas da criança que pede um telefone de presente para o pai, e o filho que recebe uma mensagem de parabéns de seus pais com frieza. Quanto ao final, vale lembrar novamente do tema Assim Falou Zaratustra: o “Starchild” (como é conhecido pelos malas ranhentos cinéfilos do mundo todo) pode ser justamente a representação do super-homem imaginado por Nietzsche. Ao mesmo tempo, pode ser uma representação visual da insignificância do homem perante o Universo. E ainda pode ser uma completa viagem na maionese sci-fi envolvendo algo alienígena.

De fato, saber com exatidão o que vimos em 2001: Uma Odisséia no Espaço não é tão importante. Poucos filmes na história conseguiram ser tão sugestivos sem serem preguiçosos. Complexo, sem ser pedante. O maior obstáculo do público é certamente sua longa duração e seu clima lento. O crítico Almir Feijó já chamou 2001 de “o mais chato dos filmes-arte; e o mais artístico dos filmes chatos”. Não concordo com a parte do “chato”, mas é uma obra para ser vista com paciência.

A viagem vale demais a pena.

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NOTA TIAGO LIPKA: 10.001

Alexandre pior pessoa do mundo Alves: 9,0
Felipe Rocha: 10
Marcelle Machado: 10
Ralzinho Carvalho: 10
Wallysson Soares: 10

MÉDIA CLAIRE DANES DO SHITCHAT: 9,8

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Dr. Fantástico

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(Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, Dir. Stanley Kubrick – 1964)

Pesquisando no Google sobre o menino Kubrick, li uma coisa sobre Dr. Fantástico. Stan dizia que só tocaria o projeto para frente caso o filme fosse uma sátira em vez de algo mais sério. A Guerra Fria estava em seu ápice e o medo de uma guerra nuclear tomava conta dos americanos – Kubrick, inclusive, acreditava que estava em perigo, pois, caso uma Terceira Guerra Mundial realmente começasse, sua cidade, Nova York, seria um dos principais alvos. E então ele conseguiu fazer Dr. Fantástico, um filme que pega o assunto mais importante e delicado daquele momento e sacaneia tudo. Era um zuão menino Kubrick.

tá aí só pela zuera

tá aí só pela zuera

Em Dr. Fantástico, Sterling Hayden, depois de se fuder em O Grande Golpe, resolve fuder com todo o planeta. Completamente demente, ele acredita que os comunistas estão se infiltrando na América através de FLUIDOS CORPORAIS e resolve atacar sozinho a União Soviética com bombas nucleares. Os americanos percebem que vai dar merda e se reúnem na War Room, a famosa e inesquecível Sala da Guerra, para discutir soluções. Junto com eles, o embaixador soviético e o presidente da USSR, por telefone.

Resumidamente, Dr. Fantástico trata de três temas específicos: a capacidade destruidora da guerra, a violência do Estado para com o cidadão e a dependência tecnológica. Cada um desses temas seria abordado por Kubrick novamente em Nascido Para Matar, Laranja Mecânica e 2001 – Uma Odisseia no Espaço. No entanto, nenhum dos três faz isso de forma tão leve e bizarra e surreal e hilária como esta pequena delícia aqui.

Não existe um único diálogo, uma única frase dita dentro da War Room que não seja digna de uns dez minutos de risadas. Desde a conversa entre os presidentes, à qual, aliás, só temos acesso pelas respostas do presidente americano ao colega (“Dimitri, não há motivo para pânico”) até um enlouquecido George C. Scott desconfiado das intenções do embaixador russo (“ele não pode entrar aqui, ele vai ver o Quadro”), tudo ali é ouro. E, claro, aquela que é considerada uma das maiores quotes de todos os tempos: “Senhores, vocês não podem brigar aqui. Esta é a Sala de Guerra”. Tem gente por aí que tenta a vida inteira e não consegue fazer uma piadinha sequer mais ou menos 50% no nível do que ocorre ali.

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Nada no filme é por acaso. Por todo lado, lê-se a frase que talvez seja a mais cínica de todo o filme: “a paz é nossa profissão”. Além disso, a construção dos cenários, com a War Room sendo maior que a cara de pau do pastor bundão indicado para presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara e os outros ambientes todos pequenos e claustrofóbicos, juntamente com a falta de pessoas vivendo no “mundo exterior”, contribuem com toda a loucura e chegam a passar a ideia de que a guerra, na verdade, já aconteceu.

O que se deve levar em consideração é que, apesar de ser uma comédia (talvez a melhor da história), em nenhum momento Kubrick trata o filme como uma comédia, com exceção do próprio Dr. Strangelove na parte final (improvisada), que parece se esforçar para arrancar risadas do público. E aquele momento ficaria completamente deslocado do restante do filme caso o cientista alemão nazista não fosse interpretado por Peter Sellers de uma forma tão natural que quase (quase!) me fez acreditar que ele seria uma pessoa de verdade.

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Sellers já havia roubado a cena no filme anterior do Kubrick, Lolita, e aparece aqui em três papeis diferentes, cada um deles com características completamente opostas uns dos outros – de cientista louco com um braço mecânico a um inteligente oficial do exército e um calmo e impotente presidente americano. Ele está tão à vontade em cada uma de suas atribuições que começou uma tendência maravilhosa.

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No fim, Kubrick mostra sua visão pessimista do mundo mesmo em uma comédia quando manda todo o planeta para a casa do caralho. Obviamente, ele não faz isso de maneira convencional e até mesmo no uso da música ele aplica sua ironia – “We’ll Meet Again”, tocada enquanto bombas explodem no encerramento do filme, ficou conhecida como uma espécie de hino dos soldados da Segunda Guerra Mundial.

♫ We’ll meet again, don’t know where, don’t know when but I know we’ll meet again some sunny day ♫

NOTA FELIPE ROCHA: 10

Alexandre Alves: 10
Marcelle Machado: 10
Tiago Lipka: 10

MÉDIA CLAIRE DANES DO SHITCHAT: 10

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