Barton Fink – Delírios de Hollywood

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(Barton Fink, Dir. Joel Coen – 1991)

E a #MaratonaCannes chega ao fim. E não bastava ser responsável por encerrar a maratona, me voluntariei a escrever sobre o filme de Ethan e Joel Coen. E não qualquer filme, mas Barton Fink. A obra foi vencedora da Palma de Ouro de Cannes em 1991,além de ter vencido os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Ator. Agora, os irmãos Coen retornam em 2013 com Inside Llewyn Davis, com participação de John Goodman, presente também em Barton Fink.

Minhas colegas de trabalho tiveram pena de mim por causa desta tarefa: Felipe Rocha demonstrou sua compaixão através desta canção, e Tiago Lipka se solidarizou com esta. Mas só assistindo ao filme para entender a dificuldade em escrever sobre. Pra começo de conversa, é difícil classificar o filme em um gênero. Pra complicar, o filme é cheio de simbolismos, lida com diversas temáticas e há vários significados escondidos. Minha reação após ver Barton Fink e percebendo o desafio que me aguardava pode ser resumida numa gif:

e eu me voluntariei pra escrever sobre esse filme. sei de nada msm

e eu me voluntariei pra escrever sobre esse filme. sei de nada msm

Para evitar estragar surpresas, aviso com antecipação que o texto está cheio de spoilers. Recomendo sair da internet e só voltar quando tiver visto Barton Fink, sério, é um favor que os caros leitores fazem a si. Voltem depois e me agradeçam.

Barton Fink se passa em 1941 e narra a história de um jovem escritor nova iorquino de peças teatrais que conseguiu relativo sucesso de crítica, chamando atenção dos estúdios de Hollywood. À princípio, Barton não aceita a proposta levada por seu agente e os primeiros minutos mostram os motivos: o protagonista escreve sobre e para o trabalhador e não quer ter sua arte submetida aos interesses das grandes produtoras. Porém, o escritor é convencido pelo dinheiro que iria receber e pelas palavras de seu agente de que o cidadão comum não fugiria de Nova Iorque.

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O escritor segue para Los Angeles, se hospedando no Hotel Earle, onde é recepcionado por Chet (Steve Buscemi), e na cidade, lida com seu vizinho de quarto, Charlie Meadows (John Goodman); o dono do estúdio que o contratou, Jack Lipnick (Michael Lerner); o produtor Ben Geisler (Tony Shalhoub); o escritor e inspiração para o protagonista, Bill Mayhew (John Mahoney); e a secretária deste, Audrey Taylor (Judy Davis).

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É desse ponto de partida e conjunto de personagens que os Coen discorrem sobre dois temas básicos: o processo de escrita e a cultura de entretenimento. Em Los Angeles, contratado para escrever sobre um tema que lhe é distante, Barton tem que enfrentar a pressão dos estúdios com prazos e tentar produzir algo que conquiste o grande público, enquanto se cobra para ter uma idéia. Os Coen abordam essas duas temáticas com fortes inspirações do próprio processo de criação. Barton Fink foi escrito enquanto trabalhavam em Ajuste Final e se depararam com um bloqueio de escrita, mas também houve inspiração de figuras famosas do cinema, como F. Scott Fitzgerald, que também foi contratado para ser roteirista em Hollywood. O personagem de Jack Lipnick foi inspirado em chefes de estúdio da vida real e, inclusive, a sua cena final, usando uniforme militar, é inspirada em uma história verdadeira envolvendo Jack Warner (mas os Coen são espertos e disseram que não lidaram com pessoas como Lipnick).

Não é à toa que o filme se passa em 1941, época clássica de Hollywood. Muito se comenta do cinema atual, de como ele é feito para as massas, sem se preocupar com qualidade, como se antigamente não fosse assim. As cobranças, os produtores e donos de estúdios controlando tudo, sempre foi assim. A decepção com Hollywood também está presente na figura de Bill Mayhew. A euforia de Fink em conhecer um dos escritores que o inspirou torna-se decepção ao conhecer a pessoa por trás das obras que ele leu e a descoberta que Audrey era quem escrevia, na verdade. Os Coen também alfinetam os intelectuais, que querem escrever sobre o trabalhador, mas se acham superiores e se mantêm distantes do que acontece no mundo. Barton escreve sobre o cidadão comum, mas quando o tal cidadão começa a fazer barulho, ele reclama para a recepção do hotel. Sem inspiração, prefere ficar falando de si a ouvir alguém que poderia inspirá-lo.

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Em meio a todos esses temas, Ethan e Joel Coen trabalham diversos simbolismos e um dos mais interessantes é o Hotel Earle. Em Los Angeles, cercado de luxo e pessoas influentes, Barton se hospeda num hotel decadente como uma forma de se manter fiel aos seus princípios. Ele não se mistura com os ricos e influentes. Inclusive, uma das interpretações possíveis é a de que o hotel é uma representação física da mente de Barton, ou seja, é tudo imaginação. Contratado para escrever sobre lutadores, recebendo muito bem por isso, Barton está traindo seus princípios e Charlie é a voz interior relembrando a ele sobre o que ele deveria realmente falar, insistentemente calada pelo escritor. À medida que Barton se envolve com as figuras de Hollywood, o clima vai literalmente esquentando. O ápice é quando Fink termina o roteiro, selando seu compromisso com o estúdio, quando o hotel literalmente pega fogo. Claro, esta é apenas uma forma de compreender a história, e é aí que está o motivo para os Coen merecerem todo aplauso: o espectador pode entender tudo como uma metáfora, ou interpretar o literal, ainda haverá sentido.

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Além do simbolismo geral do hotel, os Coen tem cuidado impressionante com elementos inseridos no filme. O som repetitivo do oceano, representando a mente sem idéias de Fink, o zumbido constante do mosquito sempre que Barton começa a escrever, uma forma de impedir que ele crie, enfim, a trilha sonora, de forma geral, não é gratuita. Além disso, são inseridos símbolos, como o mosquito que só Barton Fink enxerga, e pode ser analisado como seus ideiais e seu trabalho sendo sugados. No quarto do escritor há um quadro de uma mulher na praia e esta imagem é representada no final, menção direta ao fato que a vida imita a arte e que seja em 1941, 1991, ou em 2013, o cinema tem poder de atingir e afetar as pessoas. Mas para qual intuito os cineastas utilizam esse poder: para ampliar o conhecimento de mundo do espectador ou para mantê-lo preso às fórmulas? Qual é a responsabilidade de um cineasta?

NOTA MARCELLE MACHADO: 10

Felipe Rocha: 10
Tiago Lipka: 10

Média Claire Danes do ShitChat: 10claire de burca

Parc

Filme Title: Parc

(Parc, Dir. Arnaud des Pallières, 2008)

Vocês conhecem o diretor Arnaud des Pallières? Eu também não. Mas ele foi indicado à Palma de Ouro esse ano em Cannes, então nós fomos atrás de algum filme dele antigo para que ele pudesse fazer parte da #MaratonaCannes. Como a gente dá prioridade a filmes que tenham tido algum reconhecimento em festivais, uma indicação ao CAVALO DE BRONZE no Festival de Estocolmo foi o suficiente para o escolhido aqui ser: Parc.

You wish, mas não

You wish, mas não

O Parc aqui é um filme francês de 2008 sobre um cara chamado George Nail e outro chamado Paul Hammer que começam uma amizade. Aí a sinopse do IMDb tem a seguinte frase: “a nail is the perfect victim for a hammer”. Tão tosco que eu fiquei ansioso assim pra ver o filme:

Só que encontramos um problema: onde achar o filme? Como o filme não foi lançado no Brasil, nos sentimos no direito de baixar por torrent. E, de primeira, tava indo tudo bem, até que alcançamos o número que entrará para a história do Shitchat como o número do demônio: 70.7%.

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Até tentamos comprar o DVD no Amazon UK, mas as bruxarias da concorrência estavam fortes demais para nós, infelizmente.

o que eu sei de italiano eu aprendi com Terra Nostra OU SEJE

o que eu sei de italiano eu aprendi com Terra Nostra OU SEJE

Mas o Shitchat não vai deixar o fiel leitor sem uma crítica do filme. Afinal, nós temos 70.7% do filme. Então, não sei bem como ele começa, mas com cinco minutos tem um menino sentando na frente de uma casa. Intrigante. Depois um gordo que é o Vidal do Labirinto do Fauno come um treco meio nojento junto com uma mulher que é a Hope Davis depois de três garrafas de Velho Barreiro, repare:

Hope Davis acabada <3

Hope Davis acabada ❤

Aí pulou pra um outro cara dirigindo um carro, mas caguei pra ele, gostei mais da Hope com o gordo. E o gordo aparece, fazendo algum esquema numa garagem e depois pula pra ele cortando uma árvore. Tá emocionante essa merda.

Aí tem uma cena enooooorme de um cara vendo uma casa, acho que ele queria comprar, mas sei lá. Depois voltou pro garoto do início e ele parece uma daquelas lésbicas que faz basquete na educação física da escola. O filme pula aí uns 20 minutos e tá de novo o garoto lá, acho que tá deprimido porque só aparece deitado e tá todo fudido. Tá, cansei.

Vamos ver críticas de profissionais. O user “telket”, de Paris, Europa, comentou no IMDb (site no qual o filme tem média 4,4) que “há cortes para diferentes lugares ou personagens” no filme. Eu achava que era assim que cortes funcionavam, mas “telket” não pode estar errado. Ele diz que “alguns espectadores podem achar o filme insatisfatório por este motivo” mas que “se você gosta de filmes sobre o RICO E SINISTRO, você deveria ver Parc”. Ta.

No Mubi, Parc acumula uma média de 2 estrelas e mais um cadinho. Ninguém deu opinião nenhuma, mas o filme tem três fãs: Lemmycaution, do Marrocos, Marcel Pla, de Buenos Aires, e เอกวิน. Inclusive, Parc é o único filme favorito do เอกวิน, o que me leva a pensar que ele talvez seja a mãe do Arnaud Des Pallières.

EUZINHA SIM, QUE QUE TEM???

EUZINHA SIM, QUE QUE TEM???

No Filmow eu nem achei o filme, mas no Letterboxd o user “apancal” deu uma estrelinha e meia pro filme. Acho que a galera não curtiu muito o Parc. Não sei o motivo. Eu adorei.

NOTA FELIPE ROCHA: 10

Média Claire Danes do Shitchat: Claire meio encabulada com a vergonha alheia que foi este texto.

Flores Partidas

broken-flowers-murray(Broken Flowers, Dir. Jim Jarmusch – 2005)

Dando continuidade a pedantísOPS periclitantíssima #MaratonaCannes, meu segundo filme selecionado foi Flores Partidas, de Jim Jarmusch, que nesse ano concorre com um filme de vampiros com a Tilda Swinton.

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bolada

Mas estou aqui para falar sobre esse Road Movie cômico-dramático (no momento, voltando casas no jogo da vida por tamanha pedância) que é Flores Partidas. O filme trata de Don Johnston (que inicia o filme assistindo um filme sobre Don Juan e diversas mulheres brigando pelo amor do cara), muito galã, rapaz de muitas mulheres. Ele recebe uma carta rosa, datilografada e anônima avisando que tem um filho de 19 anos. Com o incentivo de seu melhor amigo meio pancado e o oposto do que é Don, o protagonista vai à procura de seu filho.

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Flores Partidas é típico todo road movie, no qual, na viagem, o protagonista acaba encontrando auto-conhecimento. O diferencial deste é que Don não se interessa por isso, é bastante satisfeito com sua infelicidade. Jarmusch escala um elenco bastante massa para seu filme, porém não o aproveitou tão bem assim, começando com Julie Delpy e Tilda Swinton fazendo figuração (ONDE JÁ SE VIU ISSO GENTE???????????); Sharon Stone e Alexis Dziena sendo piranhas e Jeffrey Wright sendo a Janeane Garofalo do século XXI. Porém, nem todos são desperdícios: Jessica Lange é ótima no que sua personagem propõe. Bill Murray mata a pau, o cara é a infelicidade, o desinteresse e o cansaço em tela, está escrito em sua testa essas definições.

devastada

devastada

O filme é frustrante, porém o intuito do filme é esse, ou seja, o filme funcionou? Sim, mas funcionou tão bem que a frustração foi muito grande e se transformou num af.

NOTA LEANDRO FERREIRA: 7

Alexandre Alves: 8,5
Felipe Rocha: 9,5
Tiago Lipka: 8
Wallysson Soares: 8

Média Claire Danes do Shitchat: 8,2claire 7

Drive

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” – Ele é o vilão?
– É.
– Como você sabe?
– Porque ele é um tubarão!
– Não existem tubarões bons?”

(Drive, Dir. Nicolas Winding Refn – 2011)

Há um detalhe sutil que faz toda a diferença na trama de Drive: o Motorista (o nome do personagem nunca é mencionado) interpretado por Ryan Gosling participa do mundo do crime em Los Angeles, onde também trabalha como dublê em cenas que envolvem manobras perigosas com carros em filmes. Não é a toa que a história é ambientada na mesma cidade de Hollywood: quando analisamos seu protagonista, claramente inspirado em grandes personagens do cinema com fortes marcas visuais, vide o figurino (a jaqueta com a estampa de escorpião) ou o palito no canto da boca, por exemplo.

Quando assisti a Bronson, também dirigido por Nicolas Winding Refn, fiquei particularmente impressionado ao observar como todos os elementos narrativos obedeciam a lógica de seu protagonista: impulsivo, violento e bizarramente divertido. Assim, Bronson possui uma montagem frenética, de cores fortes e vários rompantes curiosos de humor absurdo. Em Drive, acompanhamos um protagonista consciente de que é um protagonista: ele construiu um personagem (o Motorista) e vive como se estivesse dentro de um filme. Uma fábula moderna sobre a jornada do herói mitológico. Nicolas Winding Refn usa isso a seu favor para criar um filme de ação direto e violento como nos anos 70, com visual que remete aos anos 80. O encontro da época dos anti heróis fascinantes e amorais com a do egocentrismo e visual estilizado.

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Apesar de ser um filme de ação, Drive funciona principalmente como um estudo de personagem. Frio, calculista e extremamente eficiente em sua linha de trabalho, a ponto de saber perfeitamente quando abusar da velocidade ou se esgueirar por becos à noite, desligando as luzes do carro e parando em lugares estratégicos, ele encontra em sua vizinha (Carey Mulligan) e seu filho uma agradável distração em sua rotina.

Numa época em que tantos roteiristas tentam desesperadamente ser Tarantino, é um alívio contemplar um trabalho exemplarmente minimalista como o de Hossein Amini. Aliás, o próprio filme parece consciente disso: reparem que no único momento em que o personagem de Albert Brooks começa um monólogo típico, ele o interrompe pela metade ao perceber a falta de interesse do Motorista. Mantendo todos os diálogos sucintos e diretos, o roteiro dá espaço aos atores e ao diretor criarem belas sequências, como a constante troca de olhares entre Gosling e Mulligan, e a já clássica sequência que se passa num elevador.

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Ryan Gosling tem mais uma grande atuação: minimalista, encontramos os traços de frieza que o tornam tão competente em sua linha de trabalho, mas também uma enorme ternura em suas cenas com Carey Mulligan – apenas para nos surpreendermos de novo com o lado ameaçador do sujeito. Mulligan aproveita a excelente química com Gosling e faz um belo trabalho, e o “romance proibido” entre os dois acaba se tornando um dos melhores elementos do filme.

Mas os elogios ao elenco estão só começando: ainda há Bryan Cranston atuando num tom sacana que funciona bem a seu personagem, Ron Perlman que é ótimo até em filme ruim, Oscar Isaac que consegue fugir de todo clichê possível e imaginável ao interpretar o marido recém saído da prisão e Albert Brooks, intenso e gigante em cena, criando um vilão divertido e ameaçador como a tempos não aparecia.

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Com uma trilha sonora que reforça o tom oitentista, e uma belíssima fotografia, Drive conta com uma das melhores montagens que vi nos últimos anos, algo notável desde a cena antes pré-créditos, quando conhecemos o modus operandi do Motorista numa sequência fabulosa. Nicolas Winding Refn demonstra enorme competência e talento ao equilibrar um filme que mistura diversos gêneros, e aproveita bem a oportunidade de usar slow motions, visual retrô e outros elementos (normalmente utilizados apenas para parecer cool) em uma narrativa na qual eles encontram lógica impecável.

Afinal, acompanhamos um personagem que tem consciência de ser um personagem: estamos vendo sua vida da mesma maneira que ele a enxerga, um filme. Isso é trabalhado de forma fascinante em uma sequência específica, que descreverei nos próximos parágrafos (mas só leiam os felizardos que já assistiram ao filme).

Seguindo a lógica de que o Motorista enxerga sua vida como um filme: lembrem da cena em que o ele filma a capotagem, usando a máscara de borracha com o rosto do protagonista. Ok, mais adiante, há o único momento em que o ele “sai do personagem”: quando encontra o responsável pela morte do personagem de Oscar Isaac durante o assalto, e liga para o dono da maleta com dinheiro, Nino: o Motorista sua, treme e parece desnorteado ao falar (e aqui, o diretor faz referência a um dos melhores movimentos de câmera de Orson Welles em Cidadão Kane, ao criar um contra plongée em movimento, que vai “achatando” a imagem do personagem com a do teto).
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O Motorista marca o encontro com Nino, mas o que acontece? Ele usa a máscara do protagonista para matá-lo – o que pode significar muitas coisas: talvez uma auto punição – ele não terá o prazer de matar Nino, pois fraquejou ao confrontá-lo, portanto assume outro alter ego; ou talvez a necessidade de se firmar, de mostrar a si mesmo de que ele é o protagonista, para ter a certeza do que pode fazer… enfim, um curioso elemento que fica aberto para possibilidades fascinantes.

Um pequeno toque genial, dentro de um grande filme.

NOTA TIAGO LIPKA: 10

Alexandre Alves: 10
Felipe Rocha: 7,5
Leandro Ferreira: 8,5
Marcelle Machado: 9,5
Rafael Moreira: 10
Ralzinho Carvalho: 8,5
Wallysson Soares: 9,5

Média Claire Danes do Shitchat: 9,1 – Rebolando de burca ao som de Nightcall

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Ninguém Pode Saber

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Ninguém Pode Saber começa com um aviso de que a história é baseada em fatos, mas esse aviso é esquecido logo nos primeiros minutos. É difícil acreditar que algo como o que é contado no filme realmente tenha acontecido. O filme, do diretor Hirokazu Koreeda, também responsável pelo roteiro, estreou em Cannes em 2004. Nesse ano, o diretor retorna na competição com Like Father, Like Son. Mas, por hora, focando em Ninguém Pode Saber.

A trama começa com a chegada de Keiko Fukushima (interpretada por You – sim, esse é o nome da atriz, e é maneiro ver nos créditos “A mãe: YOU”) e seu filho Akira (Yūya Yagira) ao novo apartamento. Eles se apresentam ao locatário, e continuam com a mudança, tomando cuidado especial ao levarem duas malas para o apartamento. Dentro de casa, longe dos olhares, é revelado o conteúdo dessas malas: os dois irmãos de Akira, o garoto Shigeru e a caçula Yuki. A mãe, então, pede que Akira vá buscar a segunda irmã, Kyoko, e finalmente todos estão juntos, um dos raros momentos em que isso acontece.

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Logo fica claro que os filhos são resultado de casos da mãe com diversos homens. E ninguém deve saber que eles estão na casa, inclusive são orientados a não gritar, nem fazer barulhos que atraiam os vizinhos, ou aparecer na janela. E que eles não estudam, nem tem a mãe sempre do lado. Ela passa o dia fora, trabalhando. As crianças estão por si, mas tem a mãe para dar comida e pagar as contas. Até que a mãe avisa que vai viajar, deixa um pouco de dinheiro, e Akira assume a responsabilidade em manter a ordem na casa. Compra comida, cuida dos irmãos mais novos, mas com o passar dos dias, o dinheiro vai acabando. No entanto, quando a situação estava prestes a ficar crítica, a mãe volta. Apenas para, dias depois, ir embora novamente. O filme segue contando a luta dos quatro irmãos para sobreviverem sem a mãe.

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Akira, mais uma vez, assume a responsabilidade. Ele é o primeiro que percebe que a mãe não retornará e o jovem ator Yūya Yagira demonstra a dureza do personagem em ter que carregar tamanho fardo com apenas 12 anos com atuação que nem atores experientes conseguiriam entregar. O garoto em momento nenhum chora ou se desespera, pois sabe que deve ser forte para os irmãos. Buscar socorro de outros adultos é correr o risco de se separar dos irmãos. Kyoko faz a mãe e é responsável por cuidar da casa, mas ela é a otimista dos irmãos mais velhos e demora a acreditar que a mãe não irá retornar.

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O filme toma um ar de documentário ao abordar a vida das quatro crianças à margem do mundo dos adultos. Sem a supervisão de alguém mais velho, elas passam o dia a brincar e desenhar, mas, ao mesmo tempo, fica explícito o que elas estão perdendo, como, por exemplo, Kyoko, que toca seu piano sabendo que jamais terá aulas de verdade. A situação piora quando até mesmo Akira se rende e passa a buscar se divertir com amigos. E aí começa a deterioração dessa estrutura, registrada friamente pela câmera do diretor japonês. É observado o cabelo de Akira crescendo, as roupas ficando sujas, o lixo se acumulando, as contas não sendo pagas e, por ter sido filmado cronologicamente, é possível notar os primeiros sinais da mudança para adolescência do mais velho.

Ao capturar esse universo particular, Koreeda trabalha cada detalhe para cutucar a ferida da sociedade de forma geral. Keiko deixa dinheiro para as crianças, como se fornecer dinheiro, casa e bens materiais fosse suficiente. Saki, a amiga de Akira, é rica, mas encontra conforto em meio ao caos dos irmãos. O locatário está mais interessado em receber o dinheiro que em realmente descobrir o que está acontecendo. Mas essa abordagem é feita sem tirar o foco nos irmãos.

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O distanciamento da câmera tira qualquer tom melodramático que a narrativa poderia ter e não há um julgamento explícito. Até a mãe tem seu momento de defesa ao ser confrontada pelo filho antes de sumir pela segunda vez: “Eu não posso me divertir?”, responde Keiko quando Akira acusa a mãe de ser egoísta. Fica claro o seu amor pelos filhos, mas também que é uma criança grande. Ninguém Pode Saber quase chega lá, mas não é perfeito. Algumas cenas longas demais, a insistência em retratar as crianças vivendo à margem do mundo real, a câmera sempre focada em Akira perdido no meio da multidão… Uns vinte minutos a menos, e o filme perderia um pouco o tom repetitivo.

A primeira participação de Koreeda em Cannes resulta num filme marcante, que torna uma história sensacionalista em algo humano e tocante sem apelar em momento nenhum. O final pode até ser frustrante para uns tiagos lipkas por aí, mas é coerente com a intenção do diretor de fugir de apelações e ecoa na cabeça do espectador por uns dias.

NOTA MARCELLE MACHADO: 9

Felipe Rocha: 10
Leandro Ferreira: 10
Tiago Lipka: 8

Média Claire Danes do ShitChat: 9,2claire de burca

O Pianista

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(The Pianist, Dir. Roman Polanski – 2002)

O que não falta por aí é filme que tenta contar de alguma forma a tragédia sofrida pelos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Tem comediazinha babaca (A Vida É Bela), tem dramazinho babaca (A Lista de Schindler), tem açãozinha babaca (Um Ato de Liberdade), tem filminho bonitinho babaca (O Menino do Pijama Listrado), tem Tarantino babaca (Bastardos Inglórios), tem babaca babaca (O Leitor)… Enfim. No entanto, vez ou outra algum filme com este tema consegue fugir desses ridículos omg-que-horrivel-o-que-aconteceu-porém-há-finais-felizes-nessa-história-também-observe que são basicamente a Xuxa. O Pianista, do Polanskão, é um deles.

Porque, primeiramente, estamos falando do Holocausto. Seis milhões de seres humanos foram assassinados somente pelo fato de eles serem alguma coisa. Não existe final feliz. Polanski sabe disso e, ainda que Adrien Brody sobreviva no fim, nem o mais retardado imbecil poderia chamar aquilo de final feliz. Não há sentimentalismo em O Pianista, pois não há espaço para isso.

só pra cachorrada nazista :(

só pra cachorrada nazista 😦

E já aviso desde já que este texto está mais lotado de spoilers que o Facebook e o Twitter no domingo à noite depois de episódio inédito de Game of Thrones, então duas coisas: a) se você não viu o filme ainda, pare e vai ler algum outro texto do blog que você pode escolher aqui e b) se você tem mais de 18 anos e não viu este filme ainda, vai tomar no seu cu e sai da minha frente, vai ler o Omelete.

O filme é a história da tragédia pessoal de Wladyslaw Szpilman, que perdeu toda a família para os nazistas e passou seis anos utilizando sua habilidade Stunfisk de camuflagem para desaparecer na frente das inimigas. Ao mesmo tempo, porém, Polanski faz questão de lembrar que há mais coisa acontecendo do que simplesmente o protagonista fugindo – e é isso que faz de O Pianista o melhor filme sobre o tema.

Abusando do plano ponto de vista, Polanskey nos faz assumir o lugar de Szpilman para que possamos assistir a tudo passivamente, assim como o protagonista. Rapidamente, através dos olhos de Szpilman, vemos uma mulher que sufocou o filho bebê em seu esconderijo quando este chorava, um homem que ataca uma velha por comida e lambe o chão quando o alimento cai, uma  tentativa de resposta dos judeus que rapidamente termina no massacre de todos, uma família exterminada após um dos membros (um senhor de cadeira de rodas) ser jogado do quarto andar.

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Mas Polanski não te dá muito tempo para pensar na coisa horrível que você acabou de ver, pois logo vem mais uma. E outra. E outra. É basicamente a mesma coisa que o Shyamalan involuntariamente faz em todos os seus filmes desde Sinais, né?

que será que ele quis dizer com isso??

que será que ele quis dizer com isso??

Mas então, são essas constantes porradas que você leva o tempo inteiro que tornam o clímax do filme ainda mais impactante. Quando um nazistinha tosco encontra o Szpilman por acaso dentro de uma casa velha e o obriga a tocar piano (intacto no meio de uma casa destruída, reflita sobre o que você acha que isso significa) ao descobrir sua profissão, temos uma das melhores cenas do cinema no Século XXI até agora. O estado de miséria em que se encontra o pianista contrasta com o visual formal do inimigo e, no meio disso, a música (do Chopin, eu acho, sei nada de música), que os une.

emocionada

emocionada 😥

E tem muito mais coisa pra se falar sobre O Pianista: a sequência de abertura, a criança que morre esmagada em um buraquinho na parede, a cena na qual a família Szpilman divide um caramelo, o Szpilman usando um casaco nazista “porque está frio” etc. Só que aí este texto ficaria maior que a bondade dos nazistas que permitiam a 01 (um) dos judeus sair do gueto pra comprar batatinhas, então a gente deixa esses assuntos pra quando eu for escrever meu livro “Polanski: s2”.

NOTA FELIPE ROCHA: 10

Alexandre Alves: 10
Leandro Ferreira: 10
Marcelle Machado: 10
Rafael Morengo: 10
Ralzinho: 10
Tiago Lipka: 10

Média Claire Danes do Shitchat: que que cê acha?

Sexo, Mentiras e Videotape

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(Sex, Lies and Videotape, 1989 – Steven Soderbergh).

Já pensou que louco, um filme cujo título faz jus ao que tem a narrar? Pois então: longe de ser um filme pornô ou com um erotismo exacerbado, este vem jogar à mesa o sexo enquanto ausência, enquanto uma constante frequência ou, porque não, enquanto finalidade terapêutica. Logo, vão guardando as genitálias, pois não é um filme que estimule o cinco contra um.

A história se desenvolve em torno de quatro personagens: Ann, John, Grahan e Cynthia. Ann é uma mulher centrada, voltada aos afazeres domésticos e casada com John, um advogado que acaba de ser promovido em seu escritório. Aparentemente um casal perfeito, mas que se encontram em constante conflito, sobretudo no que diz respeito à vida sexual dos dois: Ann não sente atração pelo marido, não o toca, não sente tesão, não se masturba (em depoimento ao terapeuta, ela fez isso apenas duas vezes em toda a sua vida), ou seja: a mulher é frígida. Essas atitudes de Ann levam John a buscar a “osadia” em outra vizinhança, e vai em Cynthia, irmã da Ann e muito oposta a esta: desinibida, não dá importância ao que pensam sobre si, sobretudo ao que Ann pensa sobre ela, e muito boa de cama (perguntem ao John!). O comportamento de Cynthia intriga Ann, e ela mal sabe que a irmã e o marido guardam segredos embaixo do seu nariz, inclusive se divertem com isso, a ponto de Cynthia querer transar com John na cama do casal.

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O filme vai tomando corpo com a chegada do Grahan, um antigo amigo de John, que chega à cidade para passar uns tempos na casa do casal até encontrar um lugar para morar. O surgimento do Grahan afeta Ann, de acordo com o que ela diz ao terapeuta, e o seu comportamento – à princípio – lhe incomoda mesmo. Entretanto, a aproximação entre Grahan e Ann é gradual, ambos passam a se entender e os diálogos riquíssimos são ponte para compreender que os dois tem algo em comum em relação ao sexo e à ausência do mesmo.

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Falando neste assunto e no personagem Grahan, que possui um passatempo meio que peculiar: entrevistar mulheres e gravar os seus depoimentos no que diz respeito às suas experiências sexuais. Grahan convive com uma frustração devido a um problema voltado ao sexo e sua forma de obter prazer é por meio de seus vídeos. Sem entrar em detalhes (vulgo spoilers) basta dizer que Grahan é um personagem que, ao mesmo tempo se apresenta como um homem carismático, também possui sua personalidade construída em torno de uma fragilidade.

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O filme tem seus altos e baixos. Os diálogos são muito bem desenvolvidos, e cruciais para a aproximação entre os personagens, especialmente os que envolvem Ann e Grahan, inclusive sendo mais ricos em detalhes pois os personagens vão amadurecendo a mente fechada durante o filme. O que peca em Sexo, Mentiras e Videotape é a pouca exploração dos atores, que oscilam momentos bons e ruins em suas atuações. Steven Soderbergh consegue se sair muito bem no trabalho ao desenvolver e dirigir um roteiro profundo e envolvente. De fato, os diálogos são a maior qualidade presente no filme.

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Sexo, Mentiras e Videotape é um filme capaz de provocar e seduzir. Engana-se que é com cenas eróticas; as mentiras reveladas são mais interessantes. GOZAI-VOS (admito, isso foi horrível)!

NOTA ALEXANDRE ALVES: 7,0

Felipe Rocha: 3,0
Tiago Lipka: 9,0

MÉDIA CLAIRE DANES: 6,3 – E aí Clér… Uma filmadinha na performance é bom, neah?

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