Spartacus

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I am Spartacus!
(Spartacus, 1960. Dir. Stanley Kubrick)

Além de ser o mais macho desta equipe, também sou a que mais se sacrifica. Já vi um dos piores filmes da vida por conta do Blog, e dessa vez, deixei de escrever sobre O Iluminado, pois o eletrodoméstico responsável por Spartacus não conseguiu ver o filme a tempo. Problemas técnicos à parte, não habemus papam, mas habemus Spartacus. E juro que o texto será mais curto que o filme.

Os bastidores de Spartacus dariam um filme bem interessante. Rejeitado como protagonista de Ben-Hur, Kirk Douglas decide comprar seu épico: Spartacus, baseado no livro de Howard Fast, que romantiza uma história real de um grupo de escravos que lutaram contra Roma. Comprou também um diretor, mas Anthony Mann foi demitido, e, faltando dias para as filmagens começarem, Kubrick, que havia trabalhado com o ator em Glória Feita de Sangue, foi contratado para assumir a direção do filme. Os problemas internos, no entanto, não acabaram. Como diretor contratado, Kubrick estava lá para obedecer ordens, e isso o desagradou. Houve também discussões entre Kubrick e o diretor de fotografia, Russell Metty, atores foram demitidos, a amizade entre Kubrick e Kirk Douglas acabou desgastada, tudo por conta do perfeccionismo do diretor. O roteiro ficou imune, mas mais por causa de razões contratuais que por vontade do diretor, que achava que o protagonista era um herói idealizado. Inclusive, Spartacus é um marco na filmografia de Kubrick, pois depois desse filme, nunca mais aceitou ser diretor contratado.

De qualquer forma, aos trinta e um anos, Kubrick dirigia seu primeiro grande filme – e põe grande nisso. Spartacus leva três horas para contar a história do ex-escravo que lidera uma revolução contra Roma, e apesar de durar um pouco mais do que deveria, tecnicamente é impecável.

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A trama começa com Spartacus, escravo condenado à morte por ter mordido um guarda, sendo salvo por um agenciador de gladiadores, que o resgata para ser treinado. Sem ter controle de seu destino em momento algum, ele é levado para uma espécie de “escola de gladiadores”. Ele não é o único a ser treinado, mas a rotina dos aprendizes a gladiador é rigorosa. Não é comum os alunos criarem laços entre si, pois eventualmente eles acabariam se enfrentando, ou se envolver com as escravas, mas Spartacus acaba quebrando essas duas regras. Ao enfrentar um amigo e ser poupado da morte pelo mesmo, que acaba morrendo pela atitude, somado à venda de Varinia, escrava por quem se apaixona, Spartacus inicia sua rebelião contra Roma. O romance é criticado por alguns como ponto fraco do filme, mas é esse o estopim da revolta. Diga-se de passagem, nenhum dos temas desenvolvidos é gratuito, seja as intrigas políticas em Roma, ou Spartacus desenvolvendo seu exército, tudo isso tem função para a trama geral.

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As diversas tramas e seus temas influencia na montagem. A sequência em que os fatos são exibidos é coerente e bem organizada, e se o filme é arrastado, deve-se ao roteiro, que poderia ser mais ágil ao concluir certas tramas, como Varinia prisioneira de Crassius, por exemplo. Apesar dessa reticência, o roteiro tem idéias ousadas para a época em que foi filmado, como a insinuação de um relacionamento homossexual, o teor anti-escravidão do filme – vale a pena lembrar que o preconceito contra negros era enorme nos EUA durante os anos 60, e o paralelo entre os escravos de Roma e os negros é válido -, e toda a temática de lutar por liberdade e pelo controle de seu destino, sem subjugar-se às normas de outros.

A escolha do elenco é certeira. Kirk Douglas carrega Spartacus ciente da responsabilidade, e não decepciona. Jean Simmons possui uma química com Douglas que aproxima o espectador do romance, e ajuda a torcer pelo casal. Laurence Olivier transita bem pelas diversas nuances de Crassus, o personagem mais complexo do filme – sim, Kubrick tem razão, Spartacus é idealizado e não tem nenhum defeito, af. Os coadjuvantes têm seu momento também, como a cena em que Antoninus declama um poema.

q cena maravilhousa!!!!11

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Spartacus, no entanto, é lembrado, com razão, pela direção competente e a sua fotografia – merecidamente premiada com um Oscar. O trabalho de Russel Metty pode ter muito de Kubrick, mas o resultado influencia diretamente ao ditar o clima de algumas cenas: tons áridos para Spartacus ainda escravo, verde e água quando o ex-escravo está com sua amada, tons de vermelho e amarelo para representar o poder de Roma. E o perfeccionismo de Kubrick proporcionou uma das mais belas e grandiosas cenas de batalha ao exigir que o duelo final entre o exército de Spartacus e a Legião de Roma fosse filmado com mais de oito mil coadjuvantes, realizando em conjunto uma batalha em forma de coreografia. Inegável a influência da fotografia e direção em épicos que foram filmados depois. Mas Spartacus não é referência apenas em filmes épicos…

Tornando a maior bilheteria da Universal por dez anos, Spartacus pode ter sido renegado por Kubrick por ter sido um trabalho em que ele não pôde expor tudo o que gostaria de ter feito devido a ser uma grande produção, mas é um dos grandes clássicos do cinema devido ao esforço dos envolvidos em fazer um bom trabalho – e terem ido muito além.

spartacus

NOTA MARCELLE MACHADO: 9,0

Alexandre Alves 8,0
Felipe Rocha: 8,0
Tiago Lipka: 7,0

MÉDIA CLAIRE DANES DO SHITCHAT: 8,0 claire danes sorrisinho

Glória Feita de Sangue

julgamento

(Paths of Glory, Dir. Stanley Kubrick – 1957)

O dia em que o Blog anunciou que teríamos a Maratona Kubrick foi uma loucura na redação. Os funcionários deste Blog saíram no tapa e xingaram pelo menos oito gerações das famílias Lipka, Machado, Ferreira, Alves e Carvalho na disputa pelos textos de 2001, Laranja Mecânica e O Iluminado. Eu apenas me sentei confortavelmente em minha cadeira reclinável para assistir a tudo, pois o que me interessava mesmo era ser o responsável por Glória Feita de Sangue, a primeira das grandes obras-primas do diretor, e o filme que tornou realidade um dos mais antigos menes internos do Shitcheth.

O MENE DO CHÁ DE BETERRABA QUE VIU TODOS OS FILMES DO KUBRICK!!!!!!!

O MENE DO CHÁ DE BETERRABA QUE VIU TODOS OS FILMES DO KUBRICK!!!!!!!

Vou ser bem direto: Glória Feita de Sangue é um dos meus filmes favoritos da vida. Top 5. Talvez seja o segundo, sei lá. Cada vez que revejo eu acabo gostando mais. Kubrick faria outros filmes anti-guerra em sua carreira, muito mais cínicos e sarcásticos. Mas nenhum deles seria tão poderoso quando este aqui. E, tipo assim: não tenho o menor respeito por qualquer pessoa que considere esta delícia alguma coisa abaixo de obra-prima. A essas pessoas, Ana Maria Braga dá um recado:

Obrigado, Namaria. Agora vamos falar do filme. Em Glória Feita de Sangue, um velho escrotíssimo que está de olho em uma promoção do exército dá uma ordem impossível de ser cumprida a soldados franceses da Primeira Guerra Mundial. Logicamente que eles se fodem e o velho fica putíssimo e exige que três deles, escolhidos por diferentes motivos, sejam levados a julgamento. Só que o Kirk Douglas roda a bahiana por causa dessa injustiça.

irritada

Do primeiro ao último minuto, Kubrick deixa claro seu ponto: a guerra é uma coisa sem sentido, estúpida e comandada por pessoas escrotas que pensam somente no ganho pessoal e estão cagando para os seres humanos que participam realmente dela. O desdém para com a vida humana (“Os homens morreram maravilhosamente”) e o fato de os oficiais do alto escalão verem as baixas de seu próprio exército como necessárias e fundamentais (“Se eles não enfrentam as balas alemãs, enfrentarão as francesas”) são não somente uma retratação precisa da realidade, como também, IMO, a crítica mais importante da carreira de Kubrick.

Sou apaixonado pela sequência do ataque frustrado à Ant Hill. Kubrick utiliza um travelling e o espectador sente como se fosse um dos soldados. À medida que o exército francês avança, bombas são jogadas em todos os cantos, e a maioria deles explode. Há alguns cortes na cena, mas o diretor se recusa a desviar a lente. Ele quer que você acompanhe aquele momento cruel do início ao fim. Diferentemente, por exemplo, daquela que uns e outros por aí consideram a melhor sequência de guerra do cinema: a abertura de O Resgate do Soldado Ryan. Que, não me entendam mal, eu gosto. Mas toda aquela tremedeira do Spielberg tem o propósito de passar a adrenalina e o perigo da situação. Aqui, Kubrick não precisa disso.

ant hill

O momento em que Kirk Douglas passeia pelas trincheiras marchando se sentindo a poderosa, como se fosse os funcionários do Shitchat fazendo aquela walk of shame maneira da manhã de domingo ou Carrie Bradshaw no final de cada episódio de Sex and the City já é uma das cenas mais comentadas da carreira do Stanly.

luz na passarela que lá vem ela

luz na passarela que lá vem ela

No entanto, mais forte do que isso, mais forte do que o ataque à Ant Hill e mais forte até do que a força de vontade do funcionário Tiago Lipka em esconder que na verdade ele é o Tenente Roget

desmascaradaaaaaa

desmascaradaaaaaa

é o encerramento de Glória Feita de Sangue. Após 1h20min de uma visão pessimista sobre o ser humano, esperamos pelo pior. Lembro que na primeira vez em que assisti ao filme estava aos prantos só com a possibilidade de aquela mulher ser estuprada por 114 soldados bêbados e sujos.

No entanto, mais uma vez, Kubrick subverte as expectativas e, em vez de uma cena cruel e um soco no estômago, ele te dá um soco na cara e te manda acordar e prestar atenção, pois nem tudo é tão ruim assim. Alguns interpretam a atitude dos soldados como uma despedida (sabem que vão morrer, enxergam suas famílias na mulher etc). É válido, mas eu vejo mais como um lembrete de que as pessoas, mesmo inimigas, são pessoas, e o que mais me destrói é o fato de que a mulher canta em alemão e os soldados acompanham apenas a melodia, ou seja, não importa a língua, a mensagem é universal.

:'(

😥

NOTA FELIPE ROCHA: 10, né

Alexandre Alves: 10
Leandro Ferreira: 10
Marcelle Machado: 9,5 (af)
Tiago Lipka: 10

MÉDIA CLAIRE DANES DO SHITCHAT: 9,9