O Homem das Sombras

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(The Tall Man, Dir. Pascal Laugier – 2012)

Está sendo vendido como filme de terror, tem cara de filme de terror genérico, e não é nem uma coisa nem outra. Começa como suspense, mas termina como um drama indefinido, esquisito. Tem um início muito bom. Depois, tem uma sequência de reviravoltas interessantes, com os furos de sempre, e apesar de acabar se revelando um filme muito mais ambicioso do que parecia (em temática e narrativa), também perde completamente a mão no ritmo – e a sensação de que o clímax estava na metade da história não ajuda em nada.

Quatro anos depois de ter dirigido o ótimo Mártires (um baita terror que merece ser mais visto), Pascal Laugier conta em O Homem das Sombras a história de uma pequena e pobre cidade no interior dos Estados Unidos em que o desaparecimento de crianças é tão frequente, que surge até a lenda do “Homem Alto”, que seria o responsável pelos sequestros. Então surge um detetive do FBI pra investigar o caso, enquanto acompanhamos a enfermeira interpretada por Jessica Biel, que acaba sendo mais uma vítima do tal sequestrador. Uma pequena pausa: Jessica Biel enfermeira.

Continuando.

O filme começa bem – aliás muito bem, a sequência do parto no início é ótima – e todo o primeiro ato é eficiente, tenso e bem conduzido. Então começa a sequência de reviravoltas, e aí que o bicho pega.

calma, foi só maneira de dizer, não tem bicho

calma, foi só maneira de dizer, não tem bicho

Quando descobrimos qual a verdadeira história que estamos acompanhando, o filme se torna admirável pela idéia, quando acaba se assemelhando tematicamente a um determinado filme muito amado pelo Blog (mesmo forçando a barra nos dilemas que apresenta). Mas a execução é falha demais e O Homem das Sombras se torna arrastado, e o roteiro, escrito pelo próprio diretor, se perde completamente no seu trecho final. Na última cena, quando o filme confronta o espectador com uma pergunta, o impacto é diminuído consideravelmente pela sensação de que algo ali no meio deu errado.

Outro problema deve ser a premissa: eu consigo acreditar em uma cidade com tantos desaparecimentos de criança que é ignorada pelo governo por ser um local de extrema pobreza – desde que não sejam feitos 341314384 matérias de TV e documentários sobre os casos, como acaba aparecendo logo no início. Além disso, esse é um daqueles filmes que pedem pra ser odiados e esquecidos, já que como disse no início, ele é tudo menos um filme de terror. Não incomodaria tanto se conseguisse ao menos manter algum suspense na segunda metade da história.

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Visualmente é um filme bonitinho, correto, as atuações são decentes – só Jessica Biel e a jovem Jodelle Ferland conseguem se destacar em alguns momentos. Aliás, bom rever Jodelle Ferland, depois de conhecê-la no maravilhoso (e completamente deixado de lado) Contraponto, de Terry Gilliam.

Então, para concluir essa crítica com algo construtivo: bora assistir Contraponto, galera.

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Maneiro <333

NOTA TIAGO LIPKA: 6

Ralzinho Carvalho: 8,5

MÉDIA CLAIRE DANES DO SHITCHAT: 7,25

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Hitchcock

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(Hitchcock, Dir. Sacha Gervasi – 2012)

Imagina que você é o Hitchcock. Você tá lá, quietinho, deitadinho no teu túmulo feliz e contente sendo comido pela natureza após uma vida inteira sendo do caralho, não enchendo o saco de absolutamente ninguém e aí de repente descobre que em pleno 2012 vão fazer um filme sobre um período da sua vida que será dirigido pelo roteirista de O Terminal. Não tá fácil nem pros mortos.

Dai-me paciência, Senhor

Dai-me paciência, Senhor

Pois bem, vamos dar um desconto. Ao menos na teoria, a galerinha que teve esta ideia ridícula foi feliz na hora de escalar o elenco. Porque, né, se teu filme vai ser tosco, que seja tosco tendo Anthony Hopkins e Helen Mirren. O problema é que isso é só teoria mesmo, pois até os dois são engolidos pela ruindade dessa aberração chamada “Hitchcock” e – pior – são contaminados por ela.

af

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Mas, calma aí, bora do início. “Hitchcock” basicamente se propõe a mostrar o período no qual Alfred Hitchcock concebeu e filmou um dos maiores sucessos da história do cinema: Psicose. Até aí, tudo bem. Acho interessante. Mas, de certa maneira, ele sofre do mesmo problema que Lincoln, do Spilbinho: foca em um evento específico da vida de uma personalidade, mas ao mesmo tempo a abordagem é genérica demais.

A primeira cagada do filme já acontece com UM MINUTO de projeção: Ed Gein, que mais tarde inspiraria a criação do nosso amado Norman Bates, comete o primeiro crime de sua vida ao matar o irmão e lá está Hitchcock conversando com a plateia. Recurso que seria normal caso ele fosse usado no resto do filme, o que não acontece (tirando a última cena, mas aí o filme já acabou, né).

Essa merda segue fazendo um contraponto entre a vida de Hitchcock no set de Psicose e sua vida com a esposa, Alma. No início até dá pra levar numa boa, se a gente ignorar o lado pessoal do Hitchcock e focar somente nas filmagens de Psicose como se esta fosse uma versão mais ou menos verdadeira (não é). Mas aos poucos os dois vão se misturando e toda a experiência se torna quase insuportável.

SÃO TRIGÊMEOS? QUE BENÇÃO!!!

SÃO TRIGÊMEOS? QUE BENÇÃO!!!

Foda é que a gente passa o filme inteiro tentando entender WTF é aquela maquiagem no Anthony Hopkins. Trabalho indicado ao Oscar na categoria, a intenção era remeter a um dos maiores diretores da história do cinema, mas só me fez lembrar de outro ser bastante importante para os filmes.

Jabba the Hutt

Jabba the Hutt

E eu ainda tive outro problema com o Anthony Hopkins, que foi um treco que ele fazia com a língua na hora de falar e me dava um nervoso tão grande que quase desisti de ver o resto do filme, mas aí é coisa minha. Mas o resto do elenco não estava muito melhor não: Helen Mirren até tenta, mas fica presa numa personagem tosca e mal escrita que está insatisfeitíssima, mas não sabe exatamente com o que; Scarlet Johansson, quase tão inexpressiva quanto uma porta, serve para pouca coisa; Jessica Biel, mais inexpressiva que a porta, não serve para nada mesmo; Toni Collette está avulsa e desperdiçada numa personagem que poderia ter sido de alguém mais tosco, tipo Jessica Biel. O único que consegue fazer alguma coisa com a merda que lhe é dada é James D’Arcy, que interpreta Anthony Perkins, que interpreta Norman Bates. Mesmo só com suas três ou quatro cenas, o cara meio que rouba o filme para si e é sozinho a única coisa que presta.

tentei rsrs ¯\_(ツ)_/¯

tentei rsrs ¯\_(ツ)_/¯

O estreante diretor Sacha Gervasi faz muita galinhagem, mas mesmo depois que acostumei com a ruindade dele, ainda me surpreendi com algumas coisas. De tudo que me deu vergonha alheia em “Hitchcock”, nada superou o bizarríssimo momento do Hitch REGENDO A PLATEIA durante a exibição da cena do chuveiro. Não sei se era pra ser artístico ou o que caralhos era aquilo, mas foram uns segundos intermináveis nos quais eu caçava um buraco para enfiar minha cabeça e não encontrava. E me recuso a mencionar o “call me Hitch, hold the cock”. Ou o corvo do final. Ou qualquer coisa relacionada a Whitfield Cook. Ou o executivo do estúdio putíssimo com as ~~~excentricidades do Hitchcock.

ou o Anthony Hopkins na banheira

ou o Anthony Hopkins na banheira

Coincidentemente (ou não), a HBO lançou um filme sobre a relação entre o diretor e Tippi Hedren nos dois filmes que sucederam Psicose: Os Pássaros e Marnie. A Garota, exibido nos Estados Unidos em outubro, é ridículo, mas menos ridículo que este Hitchcock. E a dupla principal está decente. Porém, o filme chega a ser meio ofensivo. Seja como for, ainda não foi dessa vez que Alfred Hitchcock ganhou uma representação digna na arte que ajudou a tornar popular.

NOTA FELIPE ROCHA: 1.0

Alexandre Alves: 1.0
Leandro Ferreira: 2.0
Tiago Lipka: 1.0
Wallyson Soares: 6.0

MÉDIA CLAIRE DANES DO SHITCHAT: 2,2 (dois vírgula dois). Calma, Cleir, tá tudo bem.