Drive

drive2

” – Ele é o vilão?
– É.
– Como você sabe?
– Porque ele é um tubarão!
– Não existem tubarões bons?”

(Drive, Dir. Nicolas Winding Refn – 2011)

Há um detalhe sutil que faz toda a diferença na trama de Drive: o Motorista (o nome do personagem nunca é mencionado) interpretado por Ryan Gosling participa do mundo do crime em Los Angeles, onde também trabalha como dublê em cenas que envolvem manobras perigosas com carros em filmes. Não é a toa que a história é ambientada na mesma cidade de Hollywood: quando analisamos seu protagonista, claramente inspirado em grandes personagens do cinema com fortes marcas visuais, vide o figurino (a jaqueta com a estampa de escorpião) ou o palito no canto da boca, por exemplo.

Quando assisti a Bronson, também dirigido por Nicolas Winding Refn, fiquei particularmente impressionado ao observar como todos os elementos narrativos obedeciam a lógica de seu protagonista: impulsivo, violento e bizarramente divertido. Assim, Bronson possui uma montagem frenética, de cores fortes e vários rompantes curiosos de humor absurdo. Em Drive, acompanhamos um protagonista consciente de que é um protagonista: ele construiu um personagem (o Motorista) e vive como se estivesse dentro de um filme. Uma fábula moderna sobre a jornada do herói mitológico. Nicolas Winding Refn usa isso a seu favor para criar um filme de ação direto e violento como nos anos 70, com visual que remete aos anos 80. O encontro da época dos anti heróis fascinantes e amorais com a do egocentrismo e visual estilizado.

drive4

Apesar de ser um filme de ação, Drive funciona principalmente como um estudo de personagem. Frio, calculista e extremamente eficiente em sua linha de trabalho, a ponto de saber perfeitamente quando abusar da velocidade ou se esgueirar por becos à noite, desligando as luzes do carro e parando em lugares estratégicos, ele encontra em sua vizinha (Carey Mulligan) e seu filho uma agradável distração em sua rotina.

Numa época em que tantos roteiristas tentam desesperadamente ser Tarantino, é um alívio contemplar um trabalho exemplarmente minimalista como o de Hossein Amini. Aliás, o próprio filme parece consciente disso: reparem que no único momento em que o personagem de Albert Brooks começa um monólogo típico, ele o interrompe pela metade ao perceber a falta de interesse do Motorista. Mantendo todos os diálogos sucintos e diretos, o roteiro dá espaço aos atores e ao diretor criarem belas sequências, como a constante troca de olhares entre Gosling e Mulligan, e a já clássica sequência que se passa num elevador.

<3

Ryan Gosling tem mais uma grande atuação: minimalista, encontramos os traços de frieza que o tornam tão competente em sua linha de trabalho, mas também uma enorme ternura em suas cenas com Carey Mulligan – apenas para nos surpreendermos de novo com o lado ameaçador do sujeito. Mulligan aproveita a excelente química com Gosling e faz um belo trabalho, e o “romance proibido” entre os dois acaba se tornando um dos melhores elementos do filme.

Mas os elogios ao elenco estão só começando: ainda há Bryan Cranston atuando num tom sacana que funciona bem a seu personagem, Ron Perlman que é ótimo até em filme ruim, Oscar Isaac que consegue fugir de todo clichê possível e imaginável ao interpretar o marido recém saído da prisão e Albert Brooks, intenso e gigante em cena, criando um vilão divertido e ameaçador como a tempos não aparecia.

drive6

Com uma trilha sonora que reforça o tom oitentista, e uma belíssima fotografia, Drive conta com uma das melhores montagens que vi nos últimos anos, algo notável desde a cena antes pré-créditos, quando conhecemos o modus operandi do Motorista numa sequência fabulosa. Nicolas Winding Refn demonstra enorme competência e talento ao equilibrar um filme que mistura diversos gêneros, e aproveita bem a oportunidade de usar slow motions, visual retrô e outros elementos (normalmente utilizados apenas para parecer cool) em uma narrativa na qual eles encontram lógica impecável.

Afinal, acompanhamos um personagem que tem consciência de ser um personagem: estamos vendo sua vida da mesma maneira que ele a enxerga, um filme. Isso é trabalhado de forma fascinante em uma sequência específica, que descreverei nos próximos parágrafos (mas só leiam os felizardos que já assistiram ao filme).

Seguindo a lógica de que o Motorista enxerga sua vida como um filme: lembrem da cena em que o ele filma a capotagem, usando a máscara de borracha com o rosto do protagonista. Ok, mais adiante, há o único momento em que o ele “sai do personagem”: quando encontra o responsável pela morte do personagem de Oscar Isaac durante o assalto, e liga para o dono da maleta com dinheiro, Nino: o Motorista sua, treme e parece desnorteado ao falar (e aqui, o diretor faz referência a um dos melhores movimentos de câmera de Orson Welles em Cidadão Kane, ao criar um contra plongée em movimento, que vai “achatando” a imagem do personagem com a do teto).
drive5
drive3

O Motorista marca o encontro com Nino, mas o que acontece? Ele usa a máscara do protagonista para matá-lo – o que pode significar muitas coisas: talvez uma auto punição – ele não terá o prazer de matar Nino, pois fraquejou ao confrontá-lo, portanto assume outro alter ego; ou talvez a necessidade de se firmar, de mostrar a si mesmo de que ele é o protagonista, para ter a certeza do que pode fazer… enfim, um curioso elemento que fica aberto para possibilidades fascinantes.

Um pequeno toque genial, dentro de um grande filme.

NOTA TIAGO LIPKA: 10

Alexandre Alves: 10
Felipe Rocha: 7,5
Leandro Ferreira: 8,5
Marcelle Machado: 9,5
Rafael Moreira: 10
Ralzinho Carvalho: 8,5
Wallysson Soares: 9,5

Média Claire Danes do Shitchat: 9,1 – Rebolando de burca ao som de Nightcall

claire de burca

Os 10 melhores filmes de 2012

Chegamos à última lista de fim de ano do Shitchat. Sim, podem comemorar, acabou a palhaçada. Dessa vez, os funcionários da empresa se juntaram e votaram em seus 10 filmes favoritos de 2012. Obviamente que muita merda apareceu na lista inicial (Frankenweenie? WTF gente, tenhamos critérios por favor), mas no fim o bem venceu o mal e a lista final ficou um pão.

Antes, porém, tu não tá fazendo porra nenhuma e não te custa nada ir lá ver a lista de séries e a de álbuns de 2012. A gente espera. Vamos ouvir um Audioslave manero enquanto isso. […] Pronto? OK, agora os filmes. Os comentários foram feitos por Tiago Lipka e Felipe Rocha, mas você pode ignorar eles se quiser.

teste02

oshomensquenaoamavam

The Girl with the Dragon Tattoo, EUA
Dir. David Fincher

Os birutas que gostam mais do horrorouso original sueco pira, mas a versão de David Fincher entrou em nossos corações. Nada contra Noomi Rapace, única coisa boa da primeira versão, mas Rooney Mara estava linda em um filme melhor. (Tiago Lipka)

O filme é sensacional, mas podia ter sido uma bosta que estaria perdoado caso tivesse a deliciosa cena da vingança da piranha tatuada sobre o gordo escroto. De ridículo mesmo só o filme aparecendo apenas em décimo, mas democracia é essa merda aí que vocês tão vendo. (Also, “birutas”? af) (Felipe Rocha)

habemuspapam (2)

Habemus Papam, Itália
Dir. Nanni Moretti

Um filme que tira sarro do Papa e do Vaticano em si já merece destaque, mas Nanni Moretti conseguiu fazer um filme simpático, respeitoso e repleto de momentos brilhantes com o grande Michel Piccoli. Um grande e inesquecível Piccoli. That’s what she said.  (Tiago Lipka)

Melhor parte o Papa dando chilique. Pior parte a interrupção do torneio de vôlei dos cardeais. A América do Sul tava na semifinal, porra. (Felipe Rocha)

hugocabret

Hugo, EUA
Dir. Martin Scorsese 

Martin Scorsese mora em todo coração, no sorriso de todo bebê. A Invenção de Hugo Cabret pode estar longe de ser seu melhor filme, mas até um Scorsese filmando um documentário sobre pão de queijo é melhor que muita coisa por aí. Sinceras desculpas, Helvécio Ratton. E como cereja do bolo, talvez tenha sido um dos raríssimos filmes que valeram a pena assistir em 3D (junto com Pina). Mas nunca iremos admitir isso. #Fora3D #GloboMente (Tiago Lipka)

Falando em Globo, acho que o cara que edita as vinhetas dos filmes de lá ficou muito feliz com Scorsese pois dá pra fazer uns cinco minutos só de cenas de trapalhadas, confusões e cenas engraçadíssimas do Borat e sua turminha de coadjuvantes. Mas fora isso é um filme lindo. (Felipe Rocha)

holymotors

Holy Motors, França
Dir. Leos Carax

Para mostrar como somos phynos, rycos e melhores que todos vocês, incluímos um filme francês que não é Intocáveis nem Amelie Polãn. Holy Motors surpreendeu a todos com sua narrativa surreal e envolvente, que lembra muito o também maravilhouso Cidade dos Sonhos de David Lynch. Uma visão pessimista, mas também apaixonada e inspirada, do cinema atual. Leos Carax, volte sempre, cara. (Tiago Lipka)

Homossexuais, sosseguem a periquita porque era prótese. (Felipe Rocha)

oartista

The Artist, França
Dir. Michel Hazanavicius

O “chupa meu cu” oficial dos cinéfilos para os James Camerons da vida, que querem fazer o povo engolir o 3D goela abaixo, foi a aclamação desse maravilhouso filme francês, mudo e preto e branco. Uggie, te amamos cara. (Tiago Lipka)

Já dizia Norma Desmond, pra que esses diálogos pedantes e expositivos se temos a cara da Berenice Bejo pra mostrar? O Artista ganhou o Oscar praticamente sem concorrência e seu astro, Uggie, ainda arrancou suspiros de amor de Zezinha, a yorkshire de estimação do Shitchat. (Felipe Rocha)

drive
Drive
, EUA
Dir. Nicolas Winding Refn

Não é difícil um filme com aura de “cool” chamar a atenção. O difícil é o filme não ser apenas isso – e no caso de Drive, fazer com que a sua estética faça sentido dentro da narrativa. Trazendo belíssimas atuações de Ryan Gosling, Carey Mulligan, Albert Brooks, Bryan Cranston, Oscar Isaac e Ron Perlman (além de uma pequena ponta de Christina Hendricks), Drive fechou o ano como um dos maiores consensos dentro do Shitchat. (Tiago Lipka)

Só pra contradizer o comentário acima, não sou desses que fica lambendo o saco de Drive e considerando o filme a maior obra-prima do cinema mundial desde Cinderela Baiana. Na verdade nem votei no filme. No entanto, vamos admitir que, visualmente, o longa é sensacional e vem apoiado em boas atuações, especialmente do Ryan Gosling, roubadíssimo em premiações. (Felipe Rocha)

moonrisekingdom

Moonrise Kingdom, EUA
Dir. Wes Anderson

As recalcadas vão chamar de “filme para hipsters pedófilos”. Embora nós concordemos com as recalcadas, o mais recente Wes Anderson é inspiradíssimo e está entre seus melhores trabalhos. (Tiago Lipka)

Só de o Wes Anderson ter feito um filme sem o Owen Wilson já merecia estar nesse Top 10. Aí vem neguinho e diz assim “ai, mas não é assim um Tenenbaum”. Queridos, diferente do Gene Hackman, Moonrise Kingdom não é e nunca quis ser um Tenenbaum. Aproveita o filme e cala a boca. (Felipe Rocha)

oabrigo

Take Shelter, EUA
Dir. Jeff Nichols

Passou batido por muitos, mas não pelos seletos integrantes do Shitchat. Uma história simples, mas profunda, bem conduzida e especialmente bem interpretada: Michael Shannon está em uma atuação hipnótica, e muitíssimo bem acompanhado pela onipresente Jessica Chastain. (Tiago Lipka)

Vou ser sincero que, como dizia o poeta Peter Henry, “me senti traído” com aquele final. Mas vamos dar um desconto pois estamos falando dos últimos segundos do filme e tudo que vem antes disso é simplesmente lindo. Michael Shannon tem uma cara de psicopata que me assusta às vezes, mas funciona que é uma beleza e Jessiquinha Chastain apenas a próxima Meryl Streep, pode anotar aí na sua cadernetinha Tilibra. (Felipe Rocha)

aseparacao

A Separation, Irã
Dir. Asghar Farhadi

Dizem as más línguas que Felipe Rocha Noventa e Oito chorou quando, na votação, A Separação caiu para o segundo lugar. Mas as boas línguas sabem que quem não chorou no final deste filme fabuloso NÃO É HUMANO, como diria o grande filósofo Maurício Saldanha. (Tiago Lipka)

As más línguas estão corretíssimas, pois todos sabem que A Separação é o melhor filme do ano e infelizmente foi prejudicado por um sistema de votação elitista que favorece os ricos e norte-americanos. Mas enfim, é lindo como o Asghar Farhadi não te deixa escolher um vilão ou um mocinho e reforça constantemente o fato de que ninguém é bonzinho ou malvado. Também, assim como Procurando Elly, outro filme dele, é uma boa visão da sociedade iraniana atual e do papel da mulher nela. Mais pontos positivos: uma adolescente de filme cujos pais estão se separando e que não é irritante, um velho com Alzheimer porém safadíssimo, uma cuidadora cachorra que tortura velhos e uma professora quenga que mente no tribunal, intimida crianças e muda depoimentos. Ponto negativo: o juiz não ter dado um soco na cara de cada um 😦 (Felipe Rocha)

shame

Shame, Reino Unido
Dir. Steve McQueen

Foi mais ou menos uma surpresa quando vimos Shame no topo, mas se pensarmos bem, não devia. Essa segunda parceria entre Steve McQueen e Michael Fassbender trouxe algumas das cenas mais memoráveis do ano (especialmente Carey Mulligan numa versão sublime de New York, New York) em um filme difícil e complexo, mas envolvente e surpreendente como poucos. (Tiago Lipka)

Quase todos os leitores do Shitchat não valem o Bubbaloo que colam no banco do ônibus e só viram Shame por um motivo específico (eles sabem do que eu to falando). São ridículos porque isso seria ignorar toda a complexidade da história contada por Steve McQueen. E, sim, Carey Mulligan melhor pessoa (o primeiro que chamar ela de “Audrey Hepburn do Século XXI” leva um soco). (Felipe Rocha)

***

Também tiveram boa votação: Essential Killing, Polônia, Dir.  Jerzy Skolimowski (18pts); Precisamos Falar Sobre o Kevin, Reino Unido, Dir. Lynne Ramsay (18pts); O Espião que Sabia Demais, Reino Unido, Dir. Tomas Alfredson (18pts); Jovens Adultos, EUA, Dir. Jason Reitman (14pts); Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, Brasil, Dir. Beto Brant (14pts); As Vantagens de Ser Invisível, EUA, Dir. Stephen Chbosky (14pts); Argo, EUA, Dir. Ben Affleck (12pts); Perfect Sense, Reino Unido, Dir. David Mackenzie (12pts)