Atrizes

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(Actrices, 2007, Dir. Valeria Bruni Tedeschi)

Atrizes é o segundo filme da atriz Valeria Bruni Tedeschi na direção (além disso, ela atua e é responsável pelo roteiro) e, sendo uma atriz, inclusive bastante conhecida do cinema europeu, Tedeschi transfere a dica do “escreva sobre o que conhece” para o cinema e faz um longa cujo pano de fundo é uma peça de teatro.

Mas não apenas o teatro, o foco do filme é a protagonista Marcelline. Perto dos quarenta, ela tem a mãe (Marisa Borini, mãe de Tedeschi na vida real) opinando em sua vida e a lembrando que ainda é solteira; tem que lidar com as pressões do diretor (Mathieu Amalric), que não está satisfeito com seu trabalho na adaptação de A Month in the Country; e trava uma espécie de guerra fria – misturada com inveja – do teatro com sua ex-colega de palco e agora assistente do diretor, Nathalie (Noémie Lvovsky). No meio de tudo isso, o que Marcelline quer é um filho, mas na verdade ela está no meio de uma crise pessoal.

if27jwfh0a1lfi7aMarcelline está perdida, à mercê dos outros ao seu redor. Há um vazio dentro dela que não foi preenchido pela fama – tanto que ela implora à ícones religiosos que lhe dêem um filho em troca de seu sucesso -, e ela tenta preencher este vazio justamente com uma criança. Mas, na verdade, a protagonista não se conhece o bastante, nem conhece o mundo o bastante, e é isso que a impede de se entregar à personagem que tem que interpretar. O que Marcelline busca é um retrocesso: desde os devaneios com o ex-amante que morreu, com o pai, a estar na piscina juntamente com as crianças, ela não busca o controle de sua vida, mas que os outros a controlem. E sempre que surge oportunidade para ela segurar as rédeas, ela foge.

i5p5mrvmie7dvripParalelo à trama da protagonista, o elenco de apoio tem seu momento para roubar os holofotes. Todos os coadjuvantes tem espaço, como o jovem ator e galã Eric, interpretado por Louis Garrel, que tem uma paixonite pela protagonista, e o já citado Denis, diretor da peça. Porém, quem mais se aproveita disso é Noémie Lvovsky como Nathalie, a rival de Marcelline. A protagonista a inveja por ter o marido, o filho, e uma carreira, enquanto que a assistente inveja a atriz pelo seu trabalho e fama. No entanto, a personagem de Lvovsky ganha espaço à medida que seu relacionamento com Denis é desenvolvido.

a cara de felipe orrorocha vendo este filme

a cara de felipe orrorocha vendo este filme

O roteiro se divide entre mostrar a realidade e os delírios de Marcelline, e aí que está o grande problema. Fica claro que a protagonista é instável, mas a insistência na ênfase disso atrapalha o ritmo, e a conclusão de algumas tramas é apressada. No entanto, como diretora, Valeria Bruni Tedeschi capta boas imagens, como a cena dos atores confraternizando ao som de I Will Survive (que poderia ser a melhor cena do filme, mas por quê tão longa?), ou as cenas de Marcelline dialogando com Natalia Petrovna (Valeria Golino) nos bastidores do teatro. Mas, de forma geral, o resultado é satisfatório. Tedeschi soube transportar de forma competente uma história que até poderia ser mais interessante, mas não deixa de merecer a atenção.

NOTA MARCELLE MACHADO: 8,0

Felipe Rocha: 3,0
Tago Lipka: 7,5

Média Claire Danes do ShitChat: 6,16, Clér tem umas ideiazinhas pra Marcelline preencher o vazio dela, não é, Claire?

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Deixe a Luz Acesa

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(Keep the lights on – Dir. Ira Sachs)

O Shitchat vem falar para seus súditos leitores sobre um filme que, certamente, iria deixar uma certa pessoa com A-QUI-LO piscando:

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Olhaqui!

Desculpe Malafofys, é que hoje é carnaval e tudo está permitido, inclusive abordar temas como os que o filme vem a trazer.

Trata-se do filme Deixe a luz acesa, cuja abordagem são as alegrias e crises de uma relação homoafetiva. Vivenciado, escrito e dirigido por Ira Sachs, o filme narra a vida de Erik, um documentarista que passa parte do seu tempo ao telefone em busca de sexo, ou apenas punhetas no sexphone. Dentre esses encontros, ele conhece Paul, advogado, que se interessa pelo rapaz. O que era pra ser um encontro se torna um relacionamento duradouro.

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O filme possui uma narrativa linear, apresentando o cotidiano do casal e o tempo que se responsabiliza pela mudança deste relacionamento. Como se fossem capítulos, o filme é cortado através dos anos em que as histórias nos são apresentadas. E, a cada ano, é como se a vida conjugal dos dois fosse se desgastando, assim como a intensidade das crises que os atingem: Paul é viciado em drogas, ao ponto do Erik tomar uma decisão de interna-lo numa clínica de reabilitação, ao passo que Erik, mesmo se relacionando com Paul, tem recaídas com o sexphone. Na medida em que o tempo revela um ao outro na convivência, eles passam a se desentender.

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Quem é essa lambisgoia que ligou pra você?

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O Mestre

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“I’d love to get you
On a slow boat to China
All to myself alone”

(The Master – Dir Paul Thomas Anderson)

Olá, Shitters. Hoje o assunto é pessoas perdidas que acabam encontrando-se graças ao acaso.

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Não, não vou falar sobre a queridíssima série do novo diretor de Star Wars. O assunto de hoje é O Mestre.

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Não, o Blog ainda não chegou ao nível de criticar A Praça É nossa, mas, quem sabe, pode ser, aguardem, #breve. O Mestre é o novo filme do aclamado diretor Paul Thomas Anderson.

O Mestre narra o encontro de Freddie Quell (Joaquin Phoenix), um ex-soldado que mesmo antes da guerra já era angustiado com o seu mundo, com Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), o fundador de uma religião que segue os moldes da Cientologia, mostrando que a modinha da auto-ajuda não é coisa dos anos 2000. Unidos pelo acaso, Dodd vê em Quell um desafio. O personagem de Phoenix é rude, teimoso e sem um rumo na vida. Convertê-lo e convertê-lo seria a forma perfeita de mostrar os benefícios da sua cura. No entanto, a religião de Dodd é a desculpa para narrar o encontro de duas pessoas tão diferentes, que acabam encontrando apoio uma na outra.

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Quell surpreendemente se mostra leal a Dodd, talvez por este ser o único que lhe dá abertura para ser quem é, e que ao invés de o considerar sem solução por não se encaixar, vê potencial nele. Enquanto isso, Dodd é atraído e influenciado pelo temperamento de Quell, talvez por este estar em busca de sua liberdade. O líder religioso tem seus rompantes de violência, e tem seus momentos raros de fazer o que gostaria, como na cena em que pilota uma moto – porém, com um carro ao lado, deixando evidente que é uma liberdade controlada.

O filme segue descrevendo a relação entre essas duas forças antagonistas, mas sem querer apontar vilão ou mocinho, pois tanto Quell quanto Dodd são pessoas perdidas que procuram algum sentido para a vida que levam. Dodd encontrou umas fuga na religião, mas Queel é o deslocado que muda de emprego na busca de se encontrar. É o dilema universal dentro de uma história particular, e PTA insere no filme sem esfregar na cara do espectador que está narrando uma inquietação que todos sofremos: como acalmar aquela insatisfação que sempre haverá? É a busca pelo fim dessa inquietação que leva ao confronto final entre os dois personagens principais, sem que nenhuma ponta fique solta ou deslocada.

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O roteiro não é o único mérito do filme. A direção e montagem do filme poderiam servir como aula para certos diretores que estão em cartaz. PTA insere flashbacks e devaneios dos personagens sem que o espectador fique com a sensação de quebra de ritmo, ou que as cenas são irrelevantes para a trama em geral. É mais uma forma de mostrar as mentes complicadas de seus personagens, mais especificamente, Freddie Quell. O elenco do filme também está ~crocante. Philip Seymour Hoffman conduz um Dodd extremamente controlado, mas que cresce ao expor suas idéias, e é sutil ao mostrar as inseguranças dele e seus desejos, como na última cena. Amy Adams deixa claro a necessidade de controle e a desconfiança da esposa de Dodd com Quell. Não posso deixar de mencionar a participação de Laura Dern (ou Felipe Rocha vem editar meu texto depois). Porém, a estrela do filme é Joaquin Phoenix. Phoenix trabalha com a caracterização de Quell através da voz e gestos sem nunca escorregar. Sua atuação merecia ser reconhecida nas premiações, mas Joaquin Phoenix tem um bocão, e infelizmente foi/será ignorado por todas as grandes premiações. Não fica chateado, o Blog tá aqui pra corrigir essa grande falha.

NOTA MARCELLE MACHADO: 10 (apenas porque não pode ser 11)

Felipe Rocha: 10 (DEZ!!!!!!!!!!!!!!!!)
Tiago Lipka: 10 (atrasado, af)

Média Claire Danes do Shitchat: 10tumblr_mb8594rs2W1qgwaixo1_500