O Vôo

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(Flight – Dir. Robert Zemeckis)

“Me dá vontade de cheirar umas e pilotar um avião!”

Primeiro filme em live-action do Zemeckis desde Náufrago (com o qual guarda alguns pontos semelhantes, diga-se de passagem), esse O Vôo – que estreou sexta-feira no Brasil – é um drama de Hollywood feito à moda antiga. Daqueles redondinhos e bem realizados, com um conflito moral no cerne da história e um desfecho de redenção. Se estende por longos 130 minutos para contar uma história de 100 e pesa a mão em tentativas sórdidas de deixar o drama o mais ~poderoso~ e ~emocionante~ possível.

Na verdade, o filme não é assim tão ruim. Sua primeira hora, por exemplo, é excelente. Abre com o capitão Whip Whitaker completamente embriagado em quarto de hotel (percebam aqui os ótimos ângulos da câmera e a escassez de cortes) e segue para sequência de queda do avião mais do que memorável. Verdadeiramente angustiante, a cena é longa e aposta nos elementos certos para causar o impacto devido. Destaque para os bons efeitos visuais e sonoros, necessários para tornar a situação a mais crível possível. Pós-incidente, o filme oscila seu foco para o personagem de Whip, interpretado por Denzel Washington como há muito não o víamos (em merecida indicação ao Oscar).

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Quem não merece a nomeação é o roteirista John Gatins, que vem de filmes formuláicos e piegas como Sonhadora, Coach Carter e Hardball. O roteiro vai bem até certo ponto, em especial nos momentos em que deixa o sentimentalismo barato de lado para focar nas angústias reais de Whip e de Nicole (Kelly Reilly, maravilhosa), rendendo diálogos interessantes entre os dois. Mas não é sempre assim e o filme vai gradativamente apostando mais e mais em clichês do gênero, principalmente quando Nicole vai saindo de cena. E, por mais que a sequência do clímax seja tensa e bem construída (com pontinha da Melissa “for your consideration” Leo), o que se segue são momentos  banais e decepcionantes. O Vôo termina com sensação de conto moral, quando basicamente deveria ser um estudo de personagem.

todos considerando

todos considerando

Apesar das restrições impostas pelo texto, Zemeckis conduz a história relativamente bem (devemos relevar aqui a já citada mão pesada). A fotografia é boa e a edição idem. Além disso, possui uma trilha sonora arrasadora que vai de Rolling Stones a Marvin Gaye (com direito até a música de elevador dos Beatles). Em suma, é como já dito: trata-se de um filme redondinho. O lamento fica por conta das deficiências em se estabelecer além da fórmula e do drama tradicional. Perde boas oportunidades de ser mais sombrio e mordaz, como nas frequentes menções a Deus que sempre prometem desafiar algum senso de propriedade, mas não vão a lugar a algum.

Com certeza não é o filme que esperamos do cara que já fez Contato e Forrest Gump. O Vôo está mais para o Náufrago (atuação masculina forte em estudo de personagem que acaba se perdendo no dramalhão) do que para os outros filmes da carreira do Zemeckis. Temos aqui apenas lampejos de seu talento como ~contador de histórias~, ficando a promessa de um próximo filme mais consistente e memorável. O Vôo termina sem deixar heranças. O estudo de personagem não vai a lugar algum e o conto moral não é hábil o suficiente para assombrar. No final das contas, fica a lembrança de um John Goodman pirado apresentado por “Sympathy for the Devil” e fazendo entrega express de cocaína.

"Don't touch the fucking merch."

“Don’t touch the fucking merch.”

NOTA WALLYSSON SOARES: 7,5

Tiago Lipka: 8,5
Felipe Rocha: 6.5 (desclassificadaaaaaaaa)

MÉDIA CLAIRE DANES DO SHITCHAT: 8,0 – Loucona em álcool e cocaína.

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Sete Psicopatas e um Shih Tzu

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(Seven Psychopaths – Dir. Martin McDonagh)

Int. Apartamento de Tiago Lipka – Noite

Tiago está sentado de frente para o computador, tenso. Fuma um cigarro, e bebe doses de vodka, que descem facilmente pela garganta.

TIAGO (off)
Eu tinha um blog no qual escrevia sobre praticamente
todos os filmes que eu assistia.
Não era questão de disciplina ou esforço:
era uma combinação de passatempo
que eu cultivava em meu tempo livre,
e consequentemente ajudava a me
manter inspirado para escrever outras coisas.
Conforme a vida foi seguindo, tempo livre virou algo escasso,
e o blog ficou de lado. 

Tiago se levanta, e vai até sua coleção de DVD’s, na estante acima da TV. Pega dois deles nas mãos: Fellini 8 e meio e Adaptação.

TIAGO (off)
Pelo menos era o que eu pensava.
Depois de um tempo, eu voltava para o computador
e me forçava para escrever algo sobre qualquer filme,
e simplesmente não conseguia. A inspiração tinha partido. 

Int. Estúdio Cineccita – Noite

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Federico Fellini de frente para a máquina de escrever. Parece tenso

TIAGO (off)
Fellini, sem inspiração e sem roteiro… resolve
fazer um filme sobre isso. Nasce Fellini 8 e meio.

Corta para:

Int. 7º e meio Andar – Noite

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Charlie Kaufman, gordo, careca e repulsivo, sentado de frente para o computador, com uma cópia do livro O Ladrão de Orquídeas .

TIAGO (off)
Charlie Kaufman, gordo, careca e repulsivo, sentado de
frente para o computador com uma cópia do livro
O Ladrão de Orquídeas. Um belo dia, resolveu se colocar
como personagem, logo depois de
se masturbar com a foto de Susan Orlean.
Nasce Adaptação.

Corta para:

Int. Algum lugar na Irlanda (provavelmente um bar, portanto) – Noite

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Martin McDonagh de frente para o seu notebook, com um barril de cerveja e várias garrafas de whisky ao seu redor. Sabe o título do seu filme: Sete Psicopatas. Só falta a história. E os psicopatas. E… bem. Tudo mais que um roteiro precisa. Depois de tomar todas as bebidas de sua mesa, começa a balbuciar de forma incompreensível. Aqui, uma breve transcrição do momento:

“E se eu fizesse que nem esses tios… o Kaufman… o Fellini…? Será que daria certo?”

Corta para:

Int. Apartamento de Tiago Lipka – Noite

Tiago Lipka, se assusta: lembra de que não é Martin McDonagh e que está escrevendo sobre Sete Psicopatas… e um Shih Tzu (complemento maravilhoso, só que não) Resolve listar os protagonistas (ou psicopatas) do texto.

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7º – Martin McDonagh – Vindo do fabuloso Na Mira do Chefe, McDonagh volta a apostar numa violenta trama de humor negro, mas aliando agora a sua fórmula uma curiosa metalinguagem. Não funciona tão bem quanto deveria em alguns momentos, mas no final tudo faz sentido e nada se mostra gratuito (de quantos filmes você pode dizer isso?).

6º – Colin Farrell – Voltando a brilhar em parceria com o diretor, Farrell acerta especialmente no tom cômico ao retratar o alcoolismo do protagonista, mas no diálogo final, engraçado mas também sombrio, melancólico, tem o seu melhor momento.

5º – Cristopher Walken – Estava com saudade de ver uma atuação em um filme merecedor desse tiozão maravilhoso. Discreto, mas com um timing cômico apurado, ainda ganha a chance de brilhar sozinho nas (poucas) cenas mais emocionantes da história.

4º – Sam Rockwell – Ator brilhante, inacreditavel que não seja um astro, apesar dos trabalhos soberbos de Lunar, O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, Confissões de uma Mente Perigosa, A Condenação e Choke – No Sufoco. Seu monólogo no deserto em que narra o seu desfecho ideal para a história é um dos pontos altos do filme.

3º – Woody Harrelson – O drogado mais legal de Hollywood, dono de uma presença única, diverte como o chefão violento e porra loca de um grupo criminoso. Sua entrada em cena torturando a eterna Preciosa baseada na novela Puxe de Safira, Gabourey Sibide é impagável.

2º – Tom Waits e a mulherada – a voz mais cool da história, Tom Waits brilha em seu pequeno, mas marcante, papel. Quanto a mulherada… elas tem pouco a fazer aqui, algo comum em filmes de ação – fato que, inclusive, é criticado dentro do filme de forma divertidíssima (“a maioria de mulheres que conheci conseguia articular uma frase”).

1º – VOCÊ – (na verdade, não consegui fechar sete coisas aqui, então fica assim mesmo)

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Int. Apartamento de Tiago Lipka – Noite

Tiago anda de um lado para o outro, preocupado. Sabe que não disse tudo o que gostaria sobre Sete Psicopatas e (af) um Shih Tzu. Como o texto tem prazo, e apesar da inspiração inicial, está com medo de não chegar a lugar algum, opta pela estratégia dos fracos: a narração em off (em terceira pessoa, pra ficar ainda mais brega).

TIAGO (off)
Ele sabia que Sete Psicopatas não estava
a altura de Adaptação, muito menos de 8 e meio.
Mas sabia também que seu próprio bloqueio criativo
havia se dissipado ao testemunhar um bloqueio criativo alheio
ser transformado num belíssimo filme.
E que, ainda por cima, consegue provar por A +B
que é possível fazer um filme sobre personagens
violentos que seja sobre amizade, amor e… paz.

Tiago então publicou o post no blog e olhou com carinho para todos os seus projetos que estavam pela metade.

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NOTA TIAGO LIPKA: 9

Rafael Moreira: 7,5
Ralzinho Carvalho: 8,5
Felipe Rocha: 10

MÉDIA CLAIRE DANES PARA O SHITCHAT: Decepcionadíssima pois apenas Tiago Lipka assistiu antes da crítica ser publicada.

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