Além da Escuridão – Star Trek

startrek4

(Star Trek Into Darkness, 2013 – Dir. J.J. Abrams)

Ele começou como roteirista e produtor nos anos 90, se destacando inicialmente ao criar a série Felicity. Depois de um tempo, revolucionou a TV com a série Lost, além de ter ressucitado as franquias Missão: Impossível, Star Trek e, em breve, Star Wars, além de participar de filmes elogiados e de grande sucesso de público, como Cloverfield – Monstro e Super 8, tendo sido indicado a 22 prêmios e vencido sete.

Senhoras e senhores, um homem que dispensa apresentações…

Doh’

J.J. Abrams fazendo... EITA

J.J. Abrams fazendo… EITA

Lançado em 2009, o Star Trek de Abrams foi uma volta perfeita da franquia, obedecendo ao humor, visual e tom político da série ao mesmo tempo em que renovava com enorme sucesso a sua tripulação, arrancando performances sensacionais principalmente de Zachary Quinto, Chris Pine e Karl Urban.

Mas se naquele filme sobrava cores, flares e otimismo (apesar de ser um grande filme), Além da Escuridão: Star Trek é mais sombrio, complexo e tenso – e quase consegue ser superior ao antecessor não fosse por bobagens que só podem ser explicadas pois Abrams resolveu chamar um velho amigo pra roteirizar.

Damon Lindelof e... NOSSA, MAS SÓ DÁ SAFADA?

Damon Lindelof e… NOSSA, MAS SÓ DÁ SAFADA?

Sim, Damon Lindelof, autor do final genial (cof, cof) de Lost, Prometheus (coooooooooooof cof cof) e Cowboys vs. Alienígenas (cataploft). Inserindo personagens sem a menor função na trama, como a de Alice Eve, que rendeu até um pedido de desculpas, afinal só serviu pra mostrar o (baita) corpo de Alice Eve, que atravessa a trama sendo um ~mistério~, que quando finalmente parece ter algo a fazer na trama……… enfim.

kkkk cena mais gratuita <3

kkkk cena mais gratuita ❤

Sorte que Roberto Orci e Alex Kurtzman (que escreveram o anterior) estavam juntos aqui.

Dito isso: relaxem porque o filme é sensacional. Abrams tem um senso espetacular de como conduzir um filme de ação sem deixá-lo insípido, e boa parte da graça está em como a diversão e a adrenalina estão sempre atreladas a discussões políticas interessantes – e considerando como as conversas envolvendo ataques “preventivos” e o uso de drones pela atual administração americana estão em voga, o filme não poderia ter estreado em momento melhor.

estamos mais sérias

estamos mais sérias

Um tal John Harrison, agente da ~Federação~, resolve se voltar contra a instituição através de vários atentados terroristas. Depois de um violento ataque contra os principais capitães da frota, Kirk recebe a missão de ir atrás dele, que se escondeu no único lugar que eles não tem autorização de visitar: o território klingon. Dividido entre o desejo de vingança e a racionalidade de Spock, que enxerga a perseguição com pessimismo (algo reforçado pelas estranhas exigências da Federação de enviarem um tipo específico de míssies), a Enterprise vai (de novo) até onde nenhum homem jamais esteve.

startrek5

Não há muito mais do que falar sobre o trio principal: se Chris Pine faz um Kirk divertido e surpreende em momentos mais dramáticos, Zachary Quinto e Karl Urban seguem parecendo sósias assustadores dos personagens originais – e a química entre os três é fundamental para boa parte do sucesso do filme. E se Bruce Greenwood e Peter Weller conferem seriedade a seus papéis, Simon Pegg se equilibra melhor aqui, sendo mais do que apenas um alívio cômico.

Mas, o que todos já devem saber, o filme é de Benedict Cumberbatch. Dono de uma presença em cena impressionante, além de uma voz extremamente marcante, o ator já surge em cena de forma icônica, e rouba para si o filme toda vez que aparece. Aliás, como a maioria das pessoas lembram dele apenas por Sherlock, será interessante ver a reação ao seu trabalho, já que ao mesmo tempo em que sua figura é fortíssima, como na série, sua interpretação é completamente diferente (e recomendo que todos assistam a Terceira Estrela, um minúsculo filme britânico com outra grande atuação do ator).

Obrigada

Obrigada

Contando com um clímax impressionante não só em ritmo, mas principalmente em escala, Além da Escuridão – Star Trek é mais um capítulo excelente de uma franquia que ao contrário da grande rival, ficou melhor ainda ao ser ressuscitada.

E não é nada a toa que a tal grande rival já foi atrás de J.J. Abrams.

NOTA TIAGO LIPKA: 9

Média Claire Danes do Shitchat:

tumblr_mfnz0cslwX1qf7m6no1_500

Elas Trek ou Wars, Claire. Às vezes Craft e raramente Dust. 😦

O Lugar Onde Tudo Termina

theplacebeyondthepines2

“If you ride like lightning, you’re gonna crash like thunder.”

(The Place Beyond The Pines, 2012 – Dir. Derek Cianfrance)

AVISO: Apesar do texto estar livre de spoilers, deixo avisado aqui que há detalhes na narrativa de O Lugar Onde Tudo Termina que, talvez, façam algumas pessoas preferirem não ter lido nada antes de assistir o filme. Então #fica a #dica , embora, novamente, o texto está livre de spoilers.

Olá, esse aqui é o Derek.

OLAR

OLAR

Ele ficou conhecido pelos cinéfilos com o belíssimo Blue Valentine, onde, com câmera na mão, orçamento baixíssimo e grandes atores, acabou fazendo uma versão ~dark~ de Apenas Uma Vez ou Antes do Amanhecer, deixando todo mundo #chatiado.

Olha... veja bem...

Olha… veja bem…

…mas #chatiado no bom sentido, calma cara. Enfim, depois da estréia modesta, o diretor parte para um filme muito mais ambicioso, em que acompanhamos ações desesperadas de homens recém tornados pais, e 15 anos depois, as consequências de suas ações em seus filhos.

Começa acompanhando Luke (Ryan Gosling), um motoqueiro que trabalha num circo, que ao chegar em uma cidade, reencontra Romina (Eva Mendes) e descobre que tem um filho. Disposto a cuidar dela e da criança (apesar de ela já estar em um relacionamento), ele acaba fazendo amizade com Robin (Ben Mendelsohn), que o convence a roubar bancos. Depois, acompanhamos Avery (Bradley Cooper), policial que depois de se tornar “herói” ao matar um bandido (de forma questionável, diga-se de passagem, mas BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO, né? af), tem seus projetos ambiciosos de subir na hierarquia policial, e acaba envolvido num esquema de corrupção.  E anos depois, o destino reúne os filhos de cada um dos dois, que formam uma amizade temperada por drogas pesadas.

theplacebeyondthepines1

Voltando a apostar num estilo de filmagem que beira o documental (o que faz sentido, já que tem vários filmes do gênero no currículo), Derek Cianfrance volta a acertar no grau de intimidade nas atuações que arranca do elenco: se Ryan Gosling comove quando vemos seu instinto paterno surgindo, ao mesmo tempo em que começa a se transformar em algo ameaçador, Bradley Cooper tem o grande momento de sua carreira até aqui, transformando Avery numa figura extremamente ambígua, que consegue fazer o público sentir pena (afinal, sua ligação com o filho de sua vítima o afeta profundamente), ao mesmo tempo em que seu dom manipulativo surpreende constantemente.

manipuladoura

manipuladoura

E se Ben Mendelsohn mostra que 2012 realmente foi seu ano (com excelentes participações em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge e O Homem da Máfia), Eva Mendes dá um salto enorme em sua carreira em uma interpretação de extrema sensibilidade – e apenas as suas reações ao ser obrigada a aceitar dinheiro de Luke e Avery de forma praticamente idêntica em circunstâncias diferentes demonstra o cuidado de sua composição.

theplacebeyondthepines4

Aliás, essas constantes rimas visuais enriquecem O Lugar Onde Tudo Termina, compensando de forma significativa os poucos momentos em que a narrativa se perde: percebam como a piscina serve para mostrar o contraste entre a ligação de Avery com seu pai e em seguida com seu filho, ou ainda o belo significado que o fato de Luke esquecer o óculos antes de um assalto acaba ganhando mais pra frente na narrativa. A temática do filme, que envolve principalmente “causa e consequência” ganha representações visuais inteligentes, como os planos envolvendo a roda gigante ou o globo da morte no início. Utilizando longos planos sem cortes de forma eficiente, especialmente na impressionante perseguição de Avery a Luke, Cianfrance ainda demonstra domínio absoluto na narrativa: a história, que se passa em um período de um ano e meio e depois tem um pulo de 15 anos, jamais se torna confusa e a passagem de tempo é feita de forma excepcional.

theplacebeyondthepines5

Crime movie mais interessante produzido em Hollywood desde Senhores do Crime de Cronenberg, O Lugar Onde Tudo Termina é o atestado que Derek Cianfrance veio para ficar, e isso certamente o deixa

satisfeita

satisfeita

PS: e ainda me faz uma referência maravilhosíssima ao Metallica, na frase lá do início… eita filme crocante!

NOTA TIAGO LIPKA: 10

Felipe Rocha: 10
Leandro Ferreira: 10
Marcelle Machado: 10

Média Claire Danes do Shitchat: DEEEEEEEEEEEEEEEZ ❤

claire_burca

A Doce Vida

adocevida5“Somos tão poucos os descontentes com nós mesmos”

(La Dolce Vita, 1960 – Dir. Federico Fellini)

A Doce Vida é o filme que definiu Fellini como um diretor genial e uma de suas obras primas, junto com Oito e Meio, Amarcord e Noites da Cabíria. Por muito tempo, foi a maior bilheteria de um filme estrangeiro nos Estados Unidos e influenciou muita gente boa por aí, que nem Roman Polanski, David Lynch, Woody Allen e Terry Gilliam (esse último, provavelmente o que chegou mais perto do estilo do italiano).

É um filme que se mantém forte e atual, contendo várias críticas ao povo do ~classe média sofre~ ou à falsa moral religiosa e, minha filha: se você não viu, corre lá agora e vai assistir, porque pra discutir aprofundadamente sobre o filme, eu vou citar muitas coisas específicas dele e você já teve 53 anos (em 2013) pra assistir a isso, né? (Mas quando surgirem spoilers de verdade, eu aviso).

O longa começa com a imagem de Cristo sobre Roma, com a estátua sendo levada de helicóptero para uma catedral e termina com uma raia morrendo em uma praia. O contraste entre as duas imagens resume o que é A Doce Vida: o conflito entre o idealizado e o real; a imagem de Cristo ressuscitado é louvada pelo povo, mas não é uma imagem real. Já a raia morta é vista com asco, cheira mal – mas é bem real.

adocevida2

EVERYBODY CHILL THE FUCK OUT! I GOT THIS!

Se complementarmos o contraste entre o idealizado e o real para o documental e a ficção, temos o conflito principal de Marcello (Marcello Mastroianni), o protagonista do filme. Ele sempre sonhou em ser escritor, mas acabou sendo jornalista. E, por jornalista, entenda-se redator de coluna de fofocas. Sendo assim, está sempre cercado por celebridades, belas mulheres e pessoas da alta sociedade, ficando cada vez mais distante das pessoas de seu passado, como amigos e família. A Doce Vida mostra alguns dias decisivos na vida de Marcello, como um sujeito bonitão que veio do interior, se estabeleceu na cidade grande e tenta suprir sua infelicidade ao se relacionar com várias mulheres.

RECEBIDA

RECEBIDA

E ao mesmo tempo é um filme sobre Roma, louvando a beleza da cidade, mas também crítico. Logo no início, Marcello leva Maddalena (Anouk Aimée) para casa quando ela resolve dar carona a uma prostituta. Maddalena acaba realizando parcialmente sua fantasia de se tornar uma prostituta ao transar na casa de uma com ele – e, novamente, a fantasia (o idealizado) esconde a realidade de Maddalena e Marcello e vemos que a prostituta sofre nas mãos de um cafetão violento.

Fellini também demonstra um asco divertidíssimo dos fotógrafos de jornais – e não é à toa que o termo Papparazzi foi criado nesse filme. A chegada de Sylvia (Anita Ekberg), a belíssima atriz americana, é hilária quando o diretor foca a ação na movimentação absurda dos fotógrafos e pessoal de mídia. E, voltando ao tema central, reparem que os fotógrafos fazem Sylvia sair mais de uma vez da porta do avião: a busca pelo ideal, mesmo em sua forma mais mundana está presente ali e, enquanto todos sofrem para chegar perto de Sylvia, Marcello espertíssimo sai paquerando duas aeromoças.

Marcello é cônjuge de Emma (Yvonne Furneaux), uma mulher levemente desequilibrada e obsessiva para com ele, mas que realmente está abandonada. Aliás, é curioso lembrarmos que é sempre citada a obra nunca terminada de Marcello. Se ligarmos isso a seu relacionamento com Emma, temos mais uma camada complexa ao filme: para ele, Emma foi a musa pela metade. Não é a toa que suas discussões são extremamente superficiais e violentas. Marcello não está reclamando de ações; quer sua inspiração de volta quando grita com ela (reparem que mesmo no calor da discussão ele nunca a interrompe e sempre leva um bom tempo para buscar um argumento contra ela: ele precisa brigar, mas nem deve saber direito porque).

E quando a primeira entrevista de coletiva com Sylvia acontece em seu quarto de hotel, Marcello acaba preso no telefone com Emma. Dividido entre o amor excessivamente maternal e obsessivo de Emma e a beleza encantadora de Sylvia, Marcello acaba se tornando levemente obsessivo com a atriz, algo que culminará numa das cenas mais famosas da história do cinema, quando Sylvia, numa amostra igualmente extraordinária de egocentrismo e inocência vai se banhar na Fontana di Trevi. E, como a realidade nunca falha, descobrimos que Sylvia sofre de abusos domésticos com o ator com quem tem um desses casos secretos que todos sabem que existe.

adocevida6Há ainda o encontro entre Marcello e seu pai. Cheio de longas pausas, seu pai parece estar sempre tentando evitá-lo e só fica a vontade quando há mais pessoas na mesa. Os dois acabam indo para uma boate, onde encontram uma dançarina que, provavelmente, já foi amante de Marcello. O pai dele acaba achando que a está seduzindo, quando ela, na verdade, está apenas provocando Marcello. A noite acaba na casa dessa mulher de forma extremamente melancólica. O pai passa mal com a bebida, e Fellini num dos vários toques de gênio espalhados na obra, deixa ele de costas durante toda a cena, inicialmente num plano aberto, e depois no plano/contra-plano mais fechado. Em si, a cena parece resumir a infância e toda a carência do protagonista (e tenha em mente que o pai é vendedor).

adocevida4No entanto, dramaticamente, talvez seja Steiner (Alain Cuny) quem melhor resuma tudo o que Fellini tem a dizer sobre a “doce vida” do título. Grande amigo de Marcello, repleto de amigos intelectuais, casado e pai de duas adoráveis crianças, ele representa quase uma segunda figura paterna para Marcello, que quando convidado para sua casa pede quase infantilmente que deixe que ele frequente mais aquele local. Dono de enorme sensibilidade, reparem como Steiner desvenda toda a crise entre Marcello e Emma poucos segundos depois deles entrarem, matando a charada para ela na mesma hora: “Quando você compreender que ama Marcello mais do que ele ama a si mesmo, será feliz”.

E aqui é de verdade: se não viu ao filme, é melhor não prosseguir (mas tem o fim dos spoilers em negrito avisado ali embaixo, corre lá).

E é então que Marcello é chamado na casa de Steiner e o encontra depois de ter assassinado os filhos e se matado em seguida. Quando revisto, as pistas de que isso aconteceria estavam todas ali: até a música que ele toca na Igreja para Marcello parece um pedido por ajuda (e Marcello, egoísta, é incapaz de reconhecer a dor do outro, por mais próximo que ele seja). Mas ainda sobre essa sequência, talvez poucas vezes a atividade jornalística tenha sido retratada como algo tão nojento e mesquinho como no momento em que a polícia vai abordar a esposa de Steiner com Marcello e os fotógrafos cercam a situação. Se o suicídio de Steiner não fosse em si a representação mais forte do conflito entre realidade x ficção, lembrem que logo no início da trama Emma tenta usar do suicídio para chamar a atenção do marido – algo que torna sua situação ainda mais trágica, mas num sentido quase patético, em comparação.

O suicídio de Steiner é o estopim que desencadeará a Marcello abandonar de vez o seu sonho e trabalhar como assessor de imprensa, partindo à parte publicitária do assunto – se aproximando mais do que o que seu pai faz (vendedor, lembra?) do que sua figura paterna o estimulava a fazer. O striptease e a orgia fracassados no final fecham com perfeição o arco tragicômico de sua jornada e o reencontro com a menina “com feições de anjo” no final é absoluto: se conseguir ouvir ou compreender a mensagem dela, ele apenas

¯\_(ツ)_/¯

¯\_(ツ)_/¯

e vai embora. Além de fazer mais uma ligação entre a primeira e a última cena (Marcello estava no helicóptero tentando se comunicar com as garotas, seguindo aquele que levava Jesus), é o exato momento em que o protagonista se dá conta do que se tornou e que, agora sim, talvez seja tarde demais para tentar tudo outra vez.

FIM DOS SPOILERS

Embora a cena da Fontana di Trevi seja a mais lembrada do filme, para mim, as melhores cenas que Fellini criou nesse filme, fora o já citado momento de Marcello com o pai, é o número do palhaço com os balões (por todo o contexto: o número é lindo, o pai não presta atenção por causa da moça; Marcello presta atenção no pai e a moça quer que os dois vejam o palhaço) e a sequência no casarão de família. Nesta última, Marcello “encontra” Maddalena, e esta o leva à ~sala dos assuntos sérios~, onde ele fica sentado apenas ouvindo o que ela, em outro cômodo, diz, através de uma fonte. Ela o obriga a se declarar e enquanto ouve suas palavras “apaixonadas”, seduz outro homem. E não uso “encontra” e “apaixonadas” em aspas a toa: repare que, provavelmente, Maddalena não estava no local.

Vale lembrar também da coragem do cineasta pelo nível da crítica apresentado na sequência das crianças que fingem enxergar Nossa Senhora. A cena em si é tão completa que é difícil escolher apenas um detalhe para representá-la, mas pessoalmente duas coisas me impressionam: a família da criança colocada pelos fotógrafos em determinada posição e se mantendo naquelas poses mesmo quando as fotos já foram tiradas e os fotógrafos já saíram; e o momento da chuva, quando a preocupação é salvar os equipamentos de luz e não os doentes.

adocevida3Mas apesar de toda a complexidade, de toda as ironias e da clara alegria do seu diretor em contar sua história (ninguém fazia filmes tão pedantes quanto alegres como Fellini) é a atuação de Marcello Mastroianni o fator determinante para o sucesso do filme. Ator único e extraordinário, cuja naturalidade em frente a câmera é extremamente rara, é graças a uma combinação única de sentimentos que a jornada do protagonista se torna tão significativa para o público: Marcello (o personagem) é machista, egoísta, impulsivo, mas é também sensível, divertido, apaixonado. Contraditório como todos somos e como a vida também é. Se ela é doce ou não, vai do gosto do freguês.

NOTA TIAGO LIPKA: 10

Alexandre Alves: 10
Felipe Rocha: 10
Leandro Ferreira: 10
Marcelle Machado: 10
Rafael Moreira: 10

Média Claire Danes do Shitchat: 10

claire de burca

Depois da Terra

depoisdaterra1

(After Earth, 2013 – Dir. M. Night Shyamalan)

Antes de tudo a boa notícia: Depois da Terra é o melhor filme de Shyamalan nos últimos oito anos.

tumblr_lkbahxSELN1qglrwm

Mas pare e pense com o seu coraçãozinho: mesmo que o Shitchat esteja levemente decepcionado por Shyamalan não ter continuado a fazer um filme pior que o outro… tinha como ficar pior que O Último Mestre do Ar?

tumblr_lru6u7fty01qhfuw9o1_500

Na verdade, tinha tudo pra ficar pior: Depois da Terra é uma ego trip de Will Smith e seu filho, disfarçado de um filme consciente pelo mal que os humanos fazem ao planeta. Mas a verdade inconveniente aqui é que Shyamalan há tempos desaprendeu a como contar uma história de forma coerente, e não precisa de nem 10 minutos aqui pra mostrar isso.

Sem brincadeira: o filme começa com um flash forward aleatório de uma situação de perigo (quando chegamos ao tal momento mais a frente na trama, percebemos que foi das situações menos tensas do filme), passa para um flashback que revela o que aconteceu com o planeta Terra (babaquice, ja que ficaria facilmente entendido no subtexto), apresenta o personagem do Will Smith de uma forma que… enfim, mais sobre isso depois, aí o de Jaden Smith que kkkkk… tá, calma.

respira fundo

respira fundo

A Terra ficou inabitável (zzz) os humanos acharam um novo lar (zzzzzz). Nesse novo lar, criaturas chamadas Ursas começaram a perseguir os humanos. As Ursas são cegas, mas detectam os humanos por feromônios, o ~cheiro do medo~ (kkkkkk, digo zzzzzzzz) e Will Smith é o cara que aprende a não ter mais medo e derrotar as Ursas.

vilões

vilões

Aí uns anos depois de derrotar as Ursas e estrelar uma sitcom, o Will Smith tem o filho Jaden tentando entrar para os rangers, mas o moleque é burro e fica reprovando direto. Ele acaba viajando com o pai pro espaço e, num acidente com meteoritos ou sei lá o que, eles acabam sendo os únicos sobreviventes na queda em um planeta misterioso (consultar nome do filme), junto com uma Ursa (kkkkk). Mas a Ursa foi parar na parte de trás da nave, junto com um troço que eles precisam, e o Will tá com a perna ferrada, aí o Jaden tem que ir sozinho, mas o Will fica vendo tudo, como se estivesse jogando Doom. Ah, e a Terra virou um lugar perigoso, em que todos os animais selvagens querem comer humanos.

Tudo isso, uma desculpa enorme para: Jaden Smith fazer umas cenas de ação e Will Smith passar 90% do filme sentado. Tá aí um cara que sabe ganhar dinheiro.

RECEBIDA

RECEBIDA

Há o discurso de ~aprender a superar o medo~, mas a mensagem vem embalada de forma meio torpe e o monólogo de Will Smith sobre o assunto no meio da história é claramente um discurso baseado na cientologia. Considerando que os roteiristas Shyamalan e Gary Whitta (de O Livro de Eli, outra maravilhaarrgh) trabalham com simbolismos cristãos, prepare-se para uma salada bizarra.

Shyamalan, aliás, tem o seu ~estilo~. mas como provou em seu filme anterior, ele definitivamente não serve para blockbusters. A cena do acidente da nave mostra de forma clara como o diretor simplesmente é incapaz de lidar de forma interessante com um visual mais complexo. Além disso, ele é sabotado por uma montagem desastrosa, que além de manter o ritmo do filme arrastado, cria pequenas elipses com efeitos cômicos: minha favorita é quando num plano Will Smith diz que vai dormir e, menos de um segundo depois, o diretor corta para outro plano em que ele já está dormindo.

fedelho do caralho

fedelho do caralho

Se o filme tem alguma qualidade, é a fotografia de Peter Suschitzky, parceiro habitual de David Cronenberg, mas ao mesmo tempo em que o visual do filme é interessante, especialmente também a direção de arte, os figurinos não convencem. São… ridículos e alguns efeitos especiais são extremamente infelizes (se você riu dos macacos do último Indiana Jones, espere pra ver os desse aqui).

Mas chegamos ao que é realmente crocante em Depois da Terra: Jaden Smith em uma das atuações mais patéticas da história do cinema. Acreditem, não estou exagerando. O guri, que está passando por uma fase… aquela em que algumas coisas crescem, e a voz começa a dar uma mudada… além de não conseguir disfarçar isso (ainda bem – toda vez que tem uma cena dramática fica hilário), ainda consegue superar – com folga – a desgraça que foi aquela participação em O Dia em que a Terra Parou. Já Will Smith que desde os elogios por A Procura da Felicidade não deu uma dentro (errando até no que seria teoricamente fácil, Homens de Preto 3) atinge um novo nível de escrotice ao retratar a ausência de medo no seu personagem através de uma cara amarrada e um beicinho que deixaria Reneé Zellwegger orgulhosa.

kkkkkkkkk

kkkkkkkkk

Além disso, Will Smith nunca exagerou tanto no seu complexo de Messias, já exibido em Eu Sou a Lenda, Eu, Robô (quando conseguiu estragar um filme de Alex Proyas) e Sete Vidas. Mas exagera tanto, mas tanto que seu personagem não tenta ser apenas um deus ex machina, e sim… Deus sem o ex machina. Referências visuais para isso, não faltam. Tanto que boa parte do filme parece um clipe do Creed (quem já viu um clipe deles, entendeu). E pra encerrar com chave de bosta, o roteiro ainda inclui aquelas piadinhas ixpértas e marotas que a família Smith tanto adora.

Mas o ego de Shyamalan também aparece com auto referências deliciosas: Will Smith no já mencionado monólogo diz que venceu o medo quando estava na água – elemento sempre citado em seus filmes, e que parece fazer referência a Corpo Fechado aqui; quando Jaden chega perto de um vulcão ele sai de… um milharal… Sinais; e, meu favorito, Jaden correndo enquanto seu pai grita que ninguém está perseguindo ele: Fim dos Tempos s2.

MAS É MUITO AUTORAL ESSA GATA

MAS É MUITO AUTORAL ESSA GATA

E pra encerrar, só posso dizer que sai do cinema só admirando essa família pelo seu dom nos negócios – e com “dom” quero dizer, como sabem explorar bem seus filhos. E vale dizer que fazer isso, na minha opinião, é ridículo.

NOTA TIAGO LIPKA: 1

Felipe Rocha: 0

Média Claire Danes do Shitchat: 0,5 – CALMA CLAIRE, ACABOU MARATONA

tumblr_lar15d70es1qa02dro1_500

Corpo Fechado

corpofechado03

“Do you know what the scariest thing is? To not know your place in this world, to not know why you’re here.”

(Unbreakable, 2000 – Dir. M. Night Shyamalan)

Antes de mais nada, esse texto é sobre o filme Corpo Fechado, então caso você tenha chegado aqui por motivos de Umbanda, dica:

fechamamento-de-corpoDepois do sucesso de público e crítica que foi O Sexto Sentido, Shyamalan lançou este Corpo Fechado, que mostrou que viajar na maionese brincando com temáticas religiosas era mesmo sua essência. Aqui, a viagem valeu a pena; em Sinais e A Vila deu uma guinada considerável. O resto prefiro não comentar.

Ele começa mostrando David Dunn (Bruce Willis) como único sobrevivente de um acidente de trem. Depois de voltar a rotina com sua família infeliz, ele recebe um bilhete que o intriga, perguntando se ele lembra de já ter ficado doente algum dia na sua vida. Pensando obsessivamente nisso, acaba se encontrando com o autor da carta, Elijah, um colecionador de HQ’s que tem uma defeito genético que faz seus ossos quebrarem com enorme facilidade. Elijah abre uma possibilidade absolutamente fantástica para o fato de David ter sobrevivido: ele é o seu completo oposto, um homem que não pode ser quebrado. Incrédulo, o protagonista vai embora dali, mas seu filho fica obcecado com o assunto – e não consegue pensar em outra coisa, e logo estará explorando os seus “poderes”.

corpofechado02Investindo num tom silencioso e repleto de longos planos sem cortes, além de um apropriado ritmo lento, Corpo Fechado é um filme sobre a nossa incapacidade em aceitar o inexplicável, o fantástico, tanto em nós mesmos quanto nos outros, algo bem salientado graças ao cuidado de Shyamalan em lidar com a sub trama envolvendo o casamento falido de David.

Há ainda um uso eficiente de simbolismos que, apesar de nada sutis, contribuem de forma interessante para a trama, especialmente todas as cenas envolvendo vidro e Elijah (sua infância é quase toda contada por reflexos) e aquelas envolvendo David e água (água, aliás se tornaria uma metáfora extremamente infeliz nos filmes seguintes do diretor), e revendo o filme dá para pescar umas boas sacadas – no acidente de trem, ele está com a cabeça apoiada na janela… de vidro, sacou?

hein? HEIN?

hein? HEIN?

Mas o que realmente impressiona tecnicamente no filme são os longos planos sem cortes, mais especificamente: a abertura do filme, com o nascimento de Elijah; os momentos antes do acidente de trem e a conversa de David com o médico; e o momento em que o filho do protagonista aponta uma arma para o pai para confirmar a teoria de Elijah. Não são cenas complexas, mas demonstram um cuidado com a direção de atores.

Bruce Willis, um ótimo ator que não é muito valorizado, tem uma de suas melhores atuações aqui, junto com as de O Sexto Sentido, Os 12 Macacos e, mais recentemente, Moonrise Kingdom, se saindo particularmente bem ao retratar a fragilidade de Dunn perante os acontecimentos fantásticos ao seu redor. Samuel L. Jackson faz um contraponto extremamente eficiente, com a sua conhecida badassice, enquanto Robin Wright brilha mesmo com pouco tempo em cena.

corpofechado04Falhando apenas no clímax, que se arrasta além do necessário (e falhar no clímax é tudo que um filme não deve fazer, pelo amor de Deus), Corpo Fechado, infelizmente, seria o último respiro de criatividade genuína e interessante de Shyamalan que, a partir daqui, passaria a se achar melhor do que realmente era e desenvolver inicialmente conceitos interessantes, mas com pouco cuidado (Sinais e A Vila) até chegar ao desastre (todo o resto que veio depois).

NOTA TIAGO LIPKA: 9

Alexandre Alves – 10
Dierli Santos – 9
Felipe Rocha – 6
Marcelle Machado – 9,5
Wallysson Soares – 10

MÉDIA CLAIRE DANES DO SHITCHAT: 8,9 – Claire reviu Corpo Fechado e desabafa para Shyamalan

brody-carrie-2x04-homeland-32589315-245-143

O Último Desafio

laststand4

(The Last Stand, 2013 – Dir. Kim Jee-Woon)

He is back. af

Tá que ele já havia voltado em Mercenários 2, mas aqui Arnold Schwarzenegger é o protagonista. O Último Desafio é uma mistura do astral dos filmes do astro nos anos 80 com faroeste – o roteirista Andrew Knauer assistiu bastante Peckinpah, não entendeu nada, mas se esforçou, caprichou na bobagem e Kim Jee-Woon deve ter achado tanta graça que resolveu tirar sarro de tudo. Pelo menos 70% da graça do filme vem do humor bizarro, os outros 30 vem das cenas de ação caprichadíssimas do diretor coreano.

A trama mostra um traficante do cartel mexicano que escapa de uma operação secreta do FBI com um carro ultra veloz e para finalizar sua fuga até o México, é obrigado a passar pela pequena cidade em que Schwarzenegger é o xerife. Há histórias paralelas, todas dispensáveis (especialmente as que mostram os bastidores do FBI, seguindo Forest Whitaker), mas nada que estrague a diversão. Dá para usar essas cenas como pausa pra pegar cerveja.

<3

Kin Jee-Woon é um puta diretor que se sai bem em vários gêneros (veja Eu vi o Diabo, Os Invencíveis e Medo), e seu capricho visual é notável. As cenas de ação desse filme estão muito acima da média, e o tom cômico que aplica ao filme é charmoso. Zoa com os EUA, mas de um jeito carinhoso, ri COM eles, não SÓ deles. E leitores, acreditem: nessa altura do campeonato, ninguém dá um monólogo pra Schwarzenegger sem achar que terá uma cena cômica, não importa o quão dramática ela seja – ria sem culpa.

Falando em atuações… bom, ninguém se destaca, ninguém se compromete também.  Talvez Harry Dean Stanton, o coadjuvante mais legal do mundo (deprimente, não?). O negócio é dar risada imaginando Rodrigo Santoro como um veterano da guerra do Iraque (zoeira: ele também está #ok aqui).

calma

calma

<3

O filme foi um baita fracasso nos EUA, e há duas explicações possíveis para isso: marketing ruim, o que é provável, mas há também uma mudança de comportamento notável naquele país quanto a regularização na venda de armas – recentemente todas as mudanças nas leis quanto à venda de armas foram vetadas pelo Congresso, sendo que 90% da população apóia as medidas. Logo, o público pode ter rejeitado um filme que, nas aparências, faz apologia bélica.

Uma pena: perderam uma bobagem divertidíssima.

NOTA TIAGO LIPKA: 8

Marcelle Machado: 7,5

Média Claire Danes do Shitchat: 7,75

tumblr_mcll13C71o1rjfsoao1_500

Jack Reacher – O Último Tiro

jackreacher2

(Jack Reacher, 2013 – Dir. Christopher McQuarrie)

Christopher McQuarrie ficou conhecido pelo roteiro do excelente Os Suspeitos, mas depois disso…

ue

Entre outras colaborações com Bryan Singer (Operação Valquíria, Jack, o Caçador de Gigantes), um desastre (O Turista – aquele mesmo com Johnny Depp e Angelina Jolie) e trabalhos para a TV, ele escreveu e dirigiu À Sangue Frio, um filme policial violento e surpreendente. Não era nada extraordinário, mas parecia que um diretor promissor estava surgindo.

Bom… 13 anos depois, ele volta à cadeira de diretor e… saiu esse Jack Reacher – O Último Tiro. É curioso pensar que ele estava mais preparado para a função 13 anos atrás. Não é um filme ruim, de maneira alguma. Tem uma trama suficientemente interessante para manter o espectador acordado, mesmo que para isso tenha que jogar fácil, apostando em clichês sempre que pode, e subvertendo uma coisa ou outra com gags visuais (mais sobre isso depois). Além disso, a cena inicial é daquelas que ganham nossa atenção na hora, e esporadicamente surgem momentos tão bons quanto aquele durante a trama – especialmente a apresentação do vilão, e o espectador fica com a esperança de que a coisa engrene…

Jack Reacher – O Último Tiro conta a história da consequência de um misterioso atentado, no qual um sniper mata cinco pessoas sem motivo aparente. Ao ser chamado para depoimento, pede apenas que chamem Jack Reacher, um misterioso investigador do exército que desapareceu do radar do FBI e caralhos a quatro, e retorna para investigar o ocorrido, formando uma dupla inusitada com a advogada de defesa do atirador, já que Reacher está convencido de que ele é culpado.

Mas os problemas são muitos, e boa parte deles vem da inexperiência de McQuarrie. Para começar, é curioso que os figurinos e a direção de arte não diferenciem os ambientes que a trama se passa, considerando que este é um dos temas do filme. Há unidade onde deveria haver contrastes – a vizinhança da garota forçada a se prostituir, visualmente, é igual à rua onde trabalham os advogados, e o mesmo se aplica às vestimentas. A fotografia até tenta criar esse efeito, mas a verdade é que esse é um problema menor do filme, então vamos relevar.

jackreacher1Os problemas mais sérios são dois: 1) o ritmo é lento demais, e apesar da trama ser interessante, ela tem problemas graves. Quando a advogada aceita o conselho de ~ver o outro lado~ e falar com as vítimas, nos questionamos quanto à sua sanidade (depois o filme justifica isso, mas não adianta, o protagonista teria conseguido aquilo de qualquer outra forma), e por falar em advogada, a personagem já surge como uma besta em cena,  e não precisava ganhar os tiques de uma besta por Rosamund Pike, que se limita a ficar linda no figurino com decotes/pernas de fora.

jackreacher3E além do ritmo lento, o humor surge esquisito: não dá pra começar um filme com uma matança, dar mais meia hora de seriedade em torno do caso, e depois quebrar o ritmo com piadinhas bestas. Quer dizer… dá, mas daí acaba saindo um filme desses aqui. Aliás, o momento em que dois capangas se atrapalham quando vão bater em Cruise merece chegar ao Framboesa de Ouro. Constrangedor.

Mas o segundo problema, e o maior de todos, é: Tom Cruise. Sua persona, sua aparência, tom de voz, absolutamente nada ajuda a acreditar que ele é Jack Reacher, frio, violento e desbocado. O ator se esforça, enche a boca nas frases de efeito,  sorri de canto nas piadinhas e faz as pausas corretas pra mostrar o raciocínio do personagem, mas… não funciona. Não chega a ser desastroso porque Cruise é um bom ator, e sempre se sai bem com cenas de ação, mas… é complicado.

jackreacher14

Melhor pessoa

Desperdiçando ainda Robert Duvall e uma das melhores escolhas de casting dos últimos tempos – Werner Herzog como vilão, com apenas duas cenas dignas de seu talento – Jack Reacher ainda incomoda pela sua mensagem meio torpe. Se bem que assistir um filme de ação hollywoodiano é praticamente pedir por algo torpe.

NOTA TIAGO LIPKA: 6,0

Média Claire Danes do Shitchat: Vestiu a burca pra Herzog, MAS TÁ DE OLHO NAS PALHAÇADA!!!!!!!!

tumblr_mkenf67YUf1rqawcuo1_500-2