Sobre Marcelle Machado

well, what's wrong with a little destruction?

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

vlcsnap-2013-06-30-21h10m15s85(Annie Hall, Dir. Woody Allen – 1977)

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa parece ser uma desculpa de Woody Allen para ter uma DR com Diane Keaton e amaciar um pouco seu ego. Considerando que o filme é baseado no relacionamento do diretor com a atriz protagonista do filme, cujo nome é a junção do apelido e do sobrenome verdadeiro de Keaton, aparentemente Allen fez um filme para evitar alguns anos de terapia. Não sei se o diretor superou sua fixação por Diane Keaton, mas pelo menos um bom filme ele fez, a ponto de ser lembrado como ShitClássico da vez.

O filme é sobre o começo, desenvolvimento e fim do relacionamento entre Annie Hall e Alvy Singer. As cenas são apenas diálogos entre, principalmente, os personagens de Woddy Allen e Diane Keaton e nada mais, resultando num retrato eficiente não apenas da relação, mas dos personagens. De cara, o espectador é apresentado a Alvy e seus grandes medos. Fica evidente suas neuroses e, se não há identificação por ele não ter as mesmas preocupações que um ~cara comum~, pelo menos há empatia, pois as motivações do personagem estão claras. Além do mais, como não se identificar com um cara que acabou de levar um fora? Sim, o filme começa deixando claro que os protagonistas não ficam juntos no final, algo que certamente foi inspiração para uns 500 filmes aí.

perdão pela falta de sutileza

perdão pela falta de sutileza

Após apresentar Alvy, a trama volta para quando o personagem de Allen encontra-se com Annie. Apenas pelas roupas fica evidente que Annie não é uma ~mulher comum~, mas em momento algum o filme apresenta a personagem de Keaton como um floco de inverno único e original, nem como uma personagem rasa. Annie é tratada de forma honesta pelo roteiro, sem idealizações. O sucesso da personagem foi enorme a ponto de mais filmes focados em personagens femininas fossem lançados nos anos seguintes, bem como ter influenciado no guarda-roupa e vocabulário de várias mulheres.

Além da ótima caracterização dos personagens, a forma não-linear em retratar a trama se mostrou um grande acerto, pois não é utilizada de forma gratuita e nem tenta ser o grande marco do filme. A influência de diretores clássicos do cinema europeu é evidente, mas a utilização em Annie Hall certamente inspirou as mentes com lembranças de diversos roteiristas

cade a minha sutileza??

cade a minha sutileza??

Annie Hall mereceria todos os elogios apenas pelos fatores já mencionados, mas Woody Allen ainda tira da manga truques como a inserção de animação no meio do filme, e em certa cena, ele apresenta o pensamento dos personagens, mostrando suas inseguranças ao se conhecerem. Porém, uma das idéias mais interessantes é a quebra da quarta parede, com Alvy interagindo com o espectador, com figurantes em cena, e o roteiro se aproveita disso não só para evidenciar traços da personalidade de Alvy como para criticar a sociedade americana, como na famosa cena da fila para assistir um filme.

spotted: bergnamzim

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Além de ser um filme de personagens, Annie Hall é um filme sobre filmes e cultura em geral. Os personagens leem, vão para o cinema, assistem televisão e conversam entre si sobre suas experiências culturais, um reflexo de como esses elementos culturais influenciam as vidas de todos – não é à toa que a animação inserida é Branca de Neve e os Sete Anões. E sem assumir ares pedantes, saber da opinião dos personagens sobre livros e filmes cria camadas a eles. Fica claro a obsessão de Alvy com a morte e a inclinação feminista de Annie.

Allen também acerta em como retrata Nova York e Los Angeles, utilizando tons azulados e cinzas para retratar NY, enquanto usa cores vibrantes quando os personagens estão em LA. É dessa forma que Allen convence o espectador que o lugar de Alvy é em Nova Iorque, talvez por retratar a cidade de forma tão caótica quanto o protagonista; e que o lugar de Annie é em Los Angeles, deixando claro que o que separou os dois foram diferenças tão grandes quanto a distância entre as cidades.

Allen tem a habilidade de usar toda essa mistura de elementos e fazer de Annie Hall um filme coerente, sem que nenhum dos artifícios utilizados desvirtue o foco do filme: o retrato da sociedade americana culturalizada, tomando como base o relacionamento entre os protagonistas. Annie Hall foi um filme inovador, para o público geral da época, provando que é possível desenvolver temáticas com profundidade em uma trama tão simples quanto o dia a dia de um casal do começo até antes do amanhecer do término.

não, sutileza não é meu forte.

não, sutileza não é meu forte

NOTA MARCELLE MACHADO: 10

Alexandre Alves: 10
Dierli Santos: 10
Felipe Rocha: 9
Leandro Ferreira: 9
Fael Moreira: 10
Tiago Lipka: 10
Wallyson Soares: 9

Média Claire Danes do ShitCat: 9,625 claire de burca

A Vila

004TVL_Bryce_Dallas_Howard_001(The Village, 2004, Dir. M. Night Shyamalan)

A Vila é, na opinião desta humilde crítica, o último filme bacana de Shyamalan. Minhas colegas de trabalho discordam, mas apesar de algumas falhas, o filme não chega a matar a gente de vergonha como o que vem por aí.

Em 1897, numa vila longe das cidades, mora um grupo de famílias praticamente isoladas do mundo exterior. Embora vivam em paz, eles são ameaçados por uma criatura

opa, personagem errada

opa, personagem errada

Conhecidos como “aqueles-que-não-mencionamos”, é essa ameaça que impede que os moradores saiam da vila. Mas após a morte de um garoto de 7 anos, Lucius (Joaquin Phoenix) solicita permissão aos anciões a sair para buscar remédios e impedir que algo assim se repita. O pedido é negado, mas após o rapaz ser esfaqueado por Noah (Adrien Brody), cabe à sua noiva, Ivy (Bryce Dallas Howard) enfrentar o perigo que a floresta guarda e buscar remédios para salvar seu amado.

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O diretor conduz bem o clima de tensão. Apesar do filme começar com um enterro, o dia-a-dia dos moradores é apresentado, bem como os personagens principais, para aí então ser revelado os segredos que a vila esconde. O suspense sobre o que seriam as criaturas cresce gradualmente, paralelo ao romance de Ivy e Lucius, prendendo o espectador.

O grande prejudicial do roteiro, no entanto, é Shyamalan tentar usar pela enésima vez o truque de um final revelador. Foi manero com O Sexto Sentido, bem utilizado em Corpo Fechado, meio forçado em Sinais, mas aqui é um desperdício, pois é fácil perceber o que está sendo escondido, e isso não afeta a trama principal, ou seja, é desnecessário tratar como a grande revelação do filme. Apesar disso, o roteiro discorre sobre a violência nas cidades de forma original, e não deixa de ser uma crítica ao isolamento norte-americano pós 11 de setembro, pois nem se distanciando de todos os fundadores da vila conseguiram fugir da violência.

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A temática da violência se repete na forma como o diretor lida com as cores. Cor do sangue, o vermelho é cor proibida entre os moradores da vila, chegando ao ponto de duas garotas enterrarem uma flor rubra. Em oposição à cor amarela, Shyamalan utiliza esse contraste com competência, gerando belas imagens, como por exemplo, quando Ivy está na floresta. Aliás, o diretor cria uma das florestas mais assustadoras do cinema. O espectador, mesmo sabendo da verdade, fica na expectativa de que algo vá acontecer por conta dos barulhos, e de como a câmera capta as árvores secas.

É um tanto quanto frustrante ver tanta coisa boa junta sendo desperdiçada por um final que não é honesto com o espectador. Não que esteja criticando a situação que é revelada ao fim. O problema é a forma como é feita. Tendo sido revelado anteriormente, poderia ter gerado uma discussão mais aprofundada da grande temática do filme. A Vila pode não ser o melhor de Shyamalan, mas também está longe de ser dos piores.

NOTA MARCELLE MACHADO: 8,0

Alexandre Alves: 8,0
Dierli Santos: 4,0
Felipe Rocha: 1,0
Leandro Ferreira: 7,0
Ralz Carvalho: 10
Tiago Lipka: 7,0
Wallyson Soares: 8,5

Média Claire Danes do ShitChat: 6,6 Claire aprova, mas com ressalvas CLAIRE TA

O Que Se Move

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(O Que Se Move, 2012, Dir. Caetano Gotardo)

Me recomendaram assistir O Que Se Move, o primeiro longa dirigido por Caetano Gotardo, sem saber de nada da trama, e foi o que fiz. Inclusive meu cérebro me enganou e meti na cabeça que era um documentário (EU SEI!!!), mas agradeço, e deixo aqui o aviso. Se você não viu O Que Se Move, clica no xiszinho lá em cima e lamente caso o filme não esteja em cartaz na sua cidade.

Aos que continuam comigo, primeiramente, olá. Segundamente, para os que não entenderam minha confusão sobre achar que O Que Se Move era um documentário, isso foi ocasionado, creio, pelo fato do filme ser baseado em três histórias reais que apareceram nos jornais durante a década passada. E o que geralmente lemos são os fatos, frios, preparados para que o leitor julgue, procure culpados, torça por alguém… O Que Se Move foca em quem faz tudo acontecer, nos personagens por trás dessas histórias, enfim, em quem se move e acaba causando os acontecimentos.

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As três histórias são por si só fortes, e consciente disso, o diretor as aborda de forma casual, mostrando o dia-a-dia, preenchendo as lacunas que a notícia no jornal não conseguiria transmitir. O filme foge da frieza dos fatos ao apresentar uma versão fictícia dos personagens envolvidos. Ao expor, entre outros, o último dia de férias de um garoto, as cenas banais de jantares, cafés da manhã e almoço, o diretor trabalha com a idéia de que é o nosso próprio dia-a-dia que move tudo. A escolha de focar no comum aproxima o espectador, que se identifica com as três histórias, ao invés do distanciamento de ler a notícia no jornal.

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Mas não é apenas ao focar no casual que Gotardo acerta. Quando há a grande virada de cada história, quando tudo poderia tender ao melodrama e soar caricato ou exagerado, toda a dor é desabafada em forma de canções. A escolha de mostrar a angústia que as personagens sentem via música é surpreendente e arriscada, pois poderia destoar de tom do que foi mostrado, mas é uma saída certeira para o diretor não cair na dicotomia de culpados e inocentes.

Longe de procurar vítimas e algozes, a câmera de Gotardo busca pessoas, procurando entendê-las e desvendá-las através de takes longos, também observa objetos, elementos que levam às ações, fotos que revelam o passado. A intencionalidade do diretor em focar no pessoal é enfatizada desde o começo, e o filme é eficaz nesse jogo de mostrar e permitir que o espectador faça suas próprias escolhas.

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O Que Se Move pode soar estranho ao público por alguns traços teatrais, como alguns diálogos e algumas interpretações, mas, pessoalmente, esses traços me encantaram. Gotardo também merece créditos pela forma como aborda as histórias, e por não fixar-se no fácil, pelo contrário, vide a inserção dos musicais. Pode ser o primeiro filme do diretor, mas fica evidente a maturidade de Gotardo, e a sensibilidade e criatividade ao perceber formas diferentes de abordar três histórias que poderia ser a história de qualquer um de nós.

NOTA MARCELLE MACHADO: 8,5

Média Claire Danes do ShitChat: Claire também tem seus momentos casuais
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Terapia de Risco

sideeffects1-470x260(Side Effects, 2013, Dir. Steven Soderbergh)

Depois de dar as caras na #MaratonaCannes, Steven Soderbergh volta a dar as caras no Blog, dessa vez com Terapia de Risco, um filme que pode não trazer nada de inovador, mas que nas mãos do diretor, o resultado não é apenas um thriller sem graça.

A trama começa mostrando sangue no chão até focar num presente, e daí voltando para três meses antes do incidente, quando Martin (Channing Tatum), marido de Emily (Rooney Mara) sai da prisão depois de quatro anos. É o bastante para criar suspense e prender a curiosidade. O que aconteceria para resultar na cena de abertura? E tudo isso sem trilha, só apresentando os personagens. O que Martin não sabia é que enquanto estava na prisão, Emily entrou em depressão, e sua saída causa um surto na esposa, chegando ao extremo tentando se matar. É aí que o caminho do casal cruza com o do psiquiatra interpretado por Jude Law, Jonathan Banks. Ele passa a atender Emily, e acaba receitando alguns remédios em paralelo ao tratamento, mas os efeitos colaterais do remédio acabam interferindo na relação do casal.

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Falar mais estragaria um pouco as surpresas do filme, que podem não ser as viradas mais elaboradas, mas pelo menos são bem conduzidas, e jamais cansam. Soderbergh sabe criar suspense psicológico como ninguém, e, principalmente, lida muito bem com os personagens que tem. Num filme cuja força é o desenvolvimento dos personagens à medida que a situação vai se complicando, isso se mostra essencial para que o filme não caia na armadilha de virar uma rasa saga de vingança. Soderbergh mostra a motivação dos personagens, e todos têm um propósito em cena, sem contar que eles têm camadas. Não há ninguém inteiramente inocente.

O roteiro, responsabilidade de Scott Z. Burns, é um bom apoio para o diretor. Sem excessos, há equilíbrio entre diversos temas, como o drama de uma mulher em crise com sua depressão, o suspense após o acontecimento da abertura ser revelado, e o jogo de perseguição e obsessão do final. A tensão é construída de forma crescente, inclusive o aspecto que mais me agradou no filme, como tudo começa bem, e daí segue ladeira abaixo para o caos. Outro ponto interessante é a transformação do personagen de Jude Law, que acontece aos poucos, lado a lado com a intensificação da tensão.

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Somando à direção e ao roteiro, há o quarteto de atores. Mesmo com boa direção e bons roteiros, os personagens ainda corriam risco de se tornarem caricatos, mas o elenco foi bem escalado, apesar de Zeta-Jones e uma escorregadas no final. Rooney Mara mostra que é camaleoa, entrega uma das personagens femininas mais fortes que já vi em Os Homens Que Não Amavam as Mulheres para vir agora com a frágil e misteriosa Emily. Rumores dizem que Soderbergh pensa em se aposentar do cinema, para alegria de uns deste Blog, mas torcendo para que seja algo passageiro. O diretor ainda é capaz de entregar um trabalho eficiente ao que se propõe, sem cair em armadilhas e saídas fáceis, salvando Terapia de Risco de ser um filme esquecível.

NOTA MARCELLE MACHADO: 8,5

Ralz Carvalho: 7,5
Tiago Lipka: 8,5

Média Claire Danes do ShitChat: 8,1 tumblr_mcll13C71o1rjfsoao1_500

Barton Fink – Delírios de Hollywood

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(Barton Fink, Dir. Joel Coen – 1991)

E a #MaratonaCannes chega ao fim. E não bastava ser responsável por encerrar a maratona, me voluntariei a escrever sobre o filme de Ethan e Joel Coen. E não qualquer filme, mas Barton Fink. A obra foi vencedora da Palma de Ouro de Cannes em 1991,além de ter vencido os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Ator. Agora, os irmãos Coen retornam em 2013 com Inside Llewyn Davis, com participação de John Goodman, presente também em Barton Fink.

Minhas colegas de trabalho tiveram pena de mim por causa desta tarefa: Felipe Rocha demonstrou sua compaixão através desta canção, e Tiago Lipka se solidarizou com esta. Mas só assistindo ao filme para entender a dificuldade em escrever sobre. Pra começo de conversa, é difícil classificar o filme em um gênero. Pra complicar, o filme é cheio de simbolismos, lida com diversas temáticas e há vários significados escondidos. Minha reação após ver Barton Fink e percebendo o desafio que me aguardava pode ser resumida numa gif:

e eu me voluntariei pra escrever sobre esse filme. sei de nada msm

e eu me voluntariei pra escrever sobre esse filme. sei de nada msm

Para evitar estragar surpresas, aviso com antecipação que o texto está cheio de spoilers. Recomendo sair da internet e só voltar quando tiver visto Barton Fink, sério, é um favor que os caros leitores fazem a si. Voltem depois e me agradeçam.

Barton Fink se passa em 1941 e narra a história de um jovem escritor nova iorquino de peças teatrais que conseguiu relativo sucesso de crítica, chamando atenção dos estúdios de Hollywood. À princípio, Barton não aceita a proposta levada por seu agente e os primeiros minutos mostram os motivos: o protagonista escreve sobre e para o trabalhador e não quer ter sua arte submetida aos interesses das grandes produtoras. Porém, o escritor é convencido pelo dinheiro que iria receber e pelas palavras de seu agente de que o cidadão comum não fugiria de Nova Iorque.

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O escritor segue para Los Angeles, se hospedando no Hotel Earle, onde é recepcionado por Chet (Steve Buscemi), e na cidade, lida com seu vizinho de quarto, Charlie Meadows (John Goodman); o dono do estúdio que o contratou, Jack Lipnick (Michael Lerner); o produtor Ben Geisler (Tony Shalhoub); o escritor e inspiração para o protagonista, Bill Mayhew (John Mahoney); e a secretária deste, Audrey Taylor (Judy Davis).

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É desse ponto de partida e conjunto de personagens que os Coen discorrem sobre dois temas básicos: o processo de escrita e a cultura de entretenimento. Em Los Angeles, contratado para escrever sobre um tema que lhe é distante, Barton tem que enfrentar a pressão dos estúdios com prazos e tentar produzir algo que conquiste o grande público, enquanto se cobra para ter uma idéia. Os Coen abordam essas duas temáticas com fortes inspirações do próprio processo de criação. Barton Fink foi escrito enquanto trabalhavam em Ajuste Final e se depararam com um bloqueio de escrita, mas também houve inspiração de figuras famosas do cinema, como F. Scott Fitzgerald, que também foi contratado para ser roteirista em Hollywood. O personagem de Jack Lipnick foi inspirado em chefes de estúdio da vida real e, inclusive, a sua cena final, usando uniforme militar, é inspirada em uma história verdadeira envolvendo Jack Warner (mas os Coen são espertos e disseram que não lidaram com pessoas como Lipnick).

Não é à toa que o filme se passa em 1941, época clássica de Hollywood. Muito se comenta do cinema atual, de como ele é feito para as massas, sem se preocupar com qualidade, como se antigamente não fosse assim. As cobranças, os produtores e donos de estúdios controlando tudo, sempre foi assim. A decepção com Hollywood também está presente na figura de Bill Mayhew. A euforia de Fink em conhecer um dos escritores que o inspirou torna-se decepção ao conhecer a pessoa por trás das obras que ele leu e a descoberta que Audrey era quem escrevia, na verdade. Os Coen também alfinetam os intelectuais, que querem escrever sobre o trabalhador, mas se acham superiores e se mantêm distantes do que acontece no mundo. Barton escreve sobre o cidadão comum, mas quando o tal cidadão começa a fazer barulho, ele reclama para a recepção do hotel. Sem inspiração, prefere ficar falando de si a ouvir alguém que poderia inspirá-lo.

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Em meio a todos esses temas, Ethan e Joel Coen trabalham diversos simbolismos e um dos mais interessantes é o Hotel Earle. Em Los Angeles, cercado de luxo e pessoas influentes, Barton se hospeda num hotel decadente como uma forma de se manter fiel aos seus princípios. Ele não se mistura com os ricos e influentes. Inclusive, uma das interpretações possíveis é a de que o hotel é uma representação física da mente de Barton, ou seja, é tudo imaginação. Contratado para escrever sobre lutadores, recebendo muito bem por isso, Barton está traindo seus princípios e Charlie é a voz interior relembrando a ele sobre o que ele deveria realmente falar, insistentemente calada pelo escritor. À medida que Barton se envolve com as figuras de Hollywood, o clima vai literalmente esquentando. O ápice é quando Fink termina o roteiro, selando seu compromisso com o estúdio, quando o hotel literalmente pega fogo. Claro, esta é apenas uma forma de compreender a história, e é aí que está o motivo para os Coen merecerem todo aplauso: o espectador pode entender tudo como uma metáfora, ou interpretar o literal, ainda haverá sentido.

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Além do simbolismo geral do hotel, os Coen tem cuidado impressionante com elementos inseridos no filme. O som repetitivo do oceano, representando a mente sem idéias de Fink, o zumbido constante do mosquito sempre que Barton começa a escrever, uma forma de impedir que ele crie, enfim, a trilha sonora, de forma geral, não é gratuita. Além disso, são inseridos símbolos, como o mosquito que só Barton Fink enxerga, e pode ser analisado como seus ideiais e seu trabalho sendo sugados. No quarto do escritor há um quadro de uma mulher na praia e esta imagem é representada no final, menção direta ao fato que a vida imita a arte e que seja em 1941, 1991, ou em 2013, o cinema tem poder de atingir e afetar as pessoas. Mas para qual intuito os cineastas utilizam esse poder: para ampliar o conhecimento de mundo do espectador ou para mantê-lo preso às fórmulas? Qual é a responsabilidade de um cineasta?

NOTA MARCELLE MACHADO: 10

Felipe Rocha: 10
Tiago Lipka: 10

Média Claire Danes do ShitChat: 10claire de burca

Ninguém Pode Saber

dare mo shiranai(Dare mo shiranai, 2004, Dir. Hirokazu Koreeda)

Ninguém Pode Saber começa com um aviso de que a história é baseada em fatos, mas esse aviso é esquecido logo nos primeiros minutos. É difícil acreditar que algo como o que é contado no filme realmente tenha acontecido. O filme, do diretor Hirokazu Koreeda, também responsável pelo roteiro, estreou em Cannes em 2004. Nesse ano, o diretor retorna na competição com Like Father, Like Son. Mas, por hora, focando em Ninguém Pode Saber.

A trama começa com a chegada de Keiko Fukushima (interpretada por You – sim, esse é o nome da atriz, e é maneiro ver nos créditos “A mãe: YOU”) e seu filho Akira (Yūya Yagira) ao novo apartamento. Eles se apresentam ao locatário, e continuam com a mudança, tomando cuidado especial ao levarem duas malas para o apartamento. Dentro de casa, longe dos olhares, é revelado o conteúdo dessas malas: os dois irmãos de Akira, o garoto Shigeru e a caçula Yuki. A mãe, então, pede que Akira vá buscar a segunda irmã, Kyoko, e finalmente todos estão juntos, um dos raros momentos em que isso acontece.

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Logo fica claro que os filhos são resultado de casos da mãe com diversos homens. E ninguém deve saber que eles estão na casa, inclusive são orientados a não gritar, nem fazer barulhos que atraiam os vizinhos, ou aparecer na janela. E que eles não estudam, nem tem a mãe sempre do lado. Ela passa o dia fora, trabalhando. As crianças estão por si, mas tem a mãe para dar comida e pagar as contas. Até que a mãe avisa que vai viajar, deixa um pouco de dinheiro, e Akira assume a responsabilidade em manter a ordem na casa. Compra comida, cuida dos irmãos mais novos, mas com o passar dos dias, o dinheiro vai acabando. No entanto, quando a situação estava prestes a ficar crítica, a mãe volta. Apenas para, dias depois, ir embora novamente. O filme segue contando a luta dos quatro irmãos para sobreviverem sem a mãe.

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Akira, mais uma vez, assume a responsabilidade. Ele é o primeiro que percebe que a mãe não retornará e o jovem ator Yūya Yagira demonstra a dureza do personagem em ter que carregar tamanho fardo com apenas 12 anos com atuação que nem atores experientes conseguiriam entregar. O garoto em momento nenhum chora ou se desespera, pois sabe que deve ser forte para os irmãos. Buscar socorro de outros adultos é correr o risco de se separar dos irmãos. Kyoko faz a mãe e é responsável por cuidar da casa, mas ela é a otimista dos irmãos mais velhos e demora a acreditar que a mãe não irá retornar.

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O filme toma um ar de documentário ao abordar a vida das quatro crianças à margem do mundo dos adultos. Sem a supervisão de alguém mais velho, elas passam o dia a brincar e desenhar, mas, ao mesmo tempo, fica explícito o que elas estão perdendo, como, por exemplo, Kyoko, que toca seu piano sabendo que jamais terá aulas de verdade. A situação piora quando até mesmo Akira se rende e passa a buscar se divertir com amigos. E aí começa a deterioração dessa estrutura, registrada friamente pela câmera do diretor japonês. É observado o cabelo de Akira crescendo, as roupas ficando sujas, o lixo se acumulando, as contas não sendo pagas e, por ter sido filmado cronologicamente, é possível notar os primeiros sinais da mudança para adolescência do mais velho.

Ao capturar esse universo particular, Koreeda trabalha cada detalhe para cutucar a ferida da sociedade de forma geral. Keiko deixa dinheiro para as crianças, como se fornecer dinheiro, casa e bens materiais fosse suficiente. Saki, a amiga de Akira, é rica, mas encontra conforto em meio ao caos dos irmãos. O locatário está mais interessado em receber o dinheiro que em realmente descobrir o que está acontecendo. Mas essa abordagem é feita sem tirar o foco nos irmãos.

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O distanciamento da câmera tira qualquer tom melodramático que a narrativa poderia ter e não há um julgamento explícito. Até a mãe tem seu momento de defesa ao ser confrontada pelo filho antes de sumir pela segunda vez: “Eu não posso me divertir?”, responde Keiko quando Akira acusa a mãe de ser egoísta. Fica claro o seu amor pelos filhos, mas também que é uma criança grande. Ninguém Pode Saber quase chega lá, mas não é perfeito. Algumas cenas longas demais, a insistência em retratar as crianças vivendo à margem do mundo real, a câmera sempre focada em Akira perdido no meio da multidão… Uns vinte minutos a menos, e o filme perderia um pouco o tom repetitivo.

A primeira participação de Koreeda em Cannes resulta num filme marcante, que torna uma história sensacionalista em algo humano e tocante sem apelar em momento nenhum. O final pode até ser frustrante para uns tiagos lipkas por aí, mas é coerente com a intenção do diretor de fugir de apelações e ecoa na cabeça do espectador por uns dias.

NOTA MARCELLE MACHADO: 9

Felipe Rocha: 10
Leandro Ferreira: 10
Tiago Lipka: 8

Média Claire Danes do ShitChat: 9,2claire de burca

Amantes

vlcsnap-2013-05-17-00h55m24s226“You deserve to be loved”
(Two Lovers, 2008, Dir. James Gray)

A #MaratonaCannes do blog segue com James Gray, que está nesse ano em no festival com Imigrants, mas o diretor já esteve antes com três filmes, inclusive, Amantes, a bola da vez. O filme é inspirado no conto White Nights de Dostoievski, aquele autor russo que as entendidas adoram fingir que conhecem, e também conhecido por ter sido o suposto último filme em que Joaquin Phoenix faria antes de se aposentar.

Amantes começa com o protagonista Leonard Kraditor, interpretado por Phoenix, buscando a fuga no suicídio – e pelo comentário da mãe, o público descobre que não era a primeira vez -, mas sem sucesso. Se jogando no mar para se arrepender depois, de cara o espectador percebe que é na morte que Leonard encontra vida: uma temática que será abordada mais de uma vez no filme.

vlcsnap-2013-05-17-00h52m50s223Retornando para casa após a tentativa falha de suicídio, Leonard é avisado pela mãe, Ruth (Isabella Rossellini) que eles receberiam para jantar amigos do pai, Reuben (Moni Moshonov); e é no jantar que o personagem de Phoenix é apresentado aos Cohen, entre eles, a filha Sandra (Vinessa Shaw), solteira, da mesma idade aproximadamente. É claro que tudo é uma armação para que o casal se encontre, e até que Leonard se interessa, mas o Vertical Horizon explica por que não explodem as faíscas aqui.

vlcsnap-2013-05-17-00h54m37s7Porém, no dia seguinte, Leonard conhece Michelle (Gwyneth Paltrow), a nova vizinha, e todo o encantamento que não sentiu pela primeira, ele sentiu pela segunda, e Britney explica os motivos aqui. Mesmo sem afastar Sandra de vez, talvez por não querer decepcionar os pais, talvez por vaidade (pois é claro que a moça está interessada), Leonard passa a trocar mensagens e a sair com Michelle. Ela é livre, tem um
relacionamento com um homem casado e está morando num bairro afastado do agito da cidade pelas circunstâncias, enquanto que Leonard está preso à sua família e a um emprego que o sufoca. É difícil ele não se entregar à fantasia de ter um relacionamento com uma mulher tão “fucked-up” quanto ele. Mas, más notícias, Leonard, você foi friendzoned e é só o irmão pra Michelle.

af, pelamordedeus, parem com isso de friendzone

af, pelamordedeus, parem com isso de friendzone

Aí Leonard procura o porto seguro que é Sandra, e James Gray utiliza de forma crocante as fotografias que o protagonista tira como forma de marcar a passagem de tempo e o relacionamento dos dois. E é interessante observar como a vida familiar toma conta até de uma das poucas coisas que dava prazer a Leonard: as fotos, que antes mostravam a vida urbana, agora mostram pessoas. Mas lá vem a tempestade, e durante o bar mitzvah do irmão de Sandra, Leonard recebe uma ligação de Michelle, e o protagonista está novamente dividido.

James Gray passa as quase duas horas desenvolvendo essa temática da vida em pausa. Leonard não está dividido entre Sandra, a que o ama e quer cuidar dele, e Michelle, a que o desafia e provoca. Ele também está dividido entre viver ou permanecer sufocado, se jogar no mar ou continuar trabalhando na empresa do pai. Resumir o filme a escolhas amorosas é limitar um filme que faz um estudo minucioso de um personagem – inclusive, não há cena sem a presença de Leonard. O final é o encerramento perfeito, pois não poderia haver solução mais egoísta nem enquadramento mais irônico.

vlcsnap-2013-05-17-00h51m59s180Amantes valeria a pena apenas pela excelente condução de James Gray, que conduz bem o espectador ao clima do filme. Os jogos de escuro e claro que o diretor faz com a câmera, como na cena do encontro de Michelle e Leonard, são uma efetiva forma de criar expectativa. Porém, não basta o diretor ser bom, ele tem um elenco que se entrega aos personagens. Até Gwyneth Paltrow convence como uma mulher vidaloka, e mostrando que sabe atuar quando tem um papel de verdade, ao contrário de outras atuações da moça. Vinessa Shaw também se destaca como a um tiquinho de sexy sem jamais ser vulgar Sandra, sempre contida e jamais indo além do esperado como a filha séria e certinha. Isabella Rossellini é sutil na medida como a mãe de Leonard (será que o Ross ainda colocaria ela no top 5 dele?). Joaquin Phoenix apenas cumpre todas as expectativas que poderíamos ter com sua atuação, e domina o filme. Fosse outro ator a interpretar Leonard, e o personagem não teria toda a força que tem, pois Phoenix é perfeito em mostrar as inseguranças e insatisfações do personagem. Ainda bem que a aposentadoria foi apenas um surto, e ele voltou depois para fazer O Mestre.

Abordando temáticas como a família e decisões amorosas de pano de fundo para o dilema existencialista do protagonista, Amantes nunca cai no superficial ou no pedante. Algumas metáforas até podem ser óbvias, mas são utilizadas de forma a levar respostas ao espectador, pois o objetivo de Gray é analisar Leonard, e ele é eficiente na execução. Amantes foi o terceiro filme de James Gray a aparecer em Cannes, e agora com mais marcando presença no festival, o diretor não precisa provar mais nada.

NOTA MARCELLE MACHADO: DÉEEEEZ

Felipe Rocha: 8
Tiago Lepeka: 10
Wallysson Soares: 8,5

Média Claire Danes do Shitchat: 9,1

claire de burca