A Doce Vida

adocevida5“Somos tão poucos os descontentes com nós mesmos”

(La Dolce Vita, 1960 – Dir. Federico Fellini)

A Doce Vida é o filme que definiu Fellini como um diretor genial e uma de suas obras primas, junto com Oito e Meio, Amarcord e Noites da Cabíria. Por muito tempo, foi a maior bilheteria de um filme estrangeiro nos Estados Unidos e influenciou muita gente boa por aí, que nem Roman Polanski, David Lynch, Woody Allen e Terry Gilliam (esse último, provavelmente o que chegou mais perto do estilo do italiano).

É um filme que se mantém forte e atual, contendo várias críticas ao povo do ~classe média sofre~ ou à falsa moral religiosa e, minha filha: se você não viu, corre lá agora e vai assistir, porque pra discutir aprofundadamente sobre o filme, eu vou citar muitas coisas específicas dele e você já teve 53 anos (em 2013) pra assistir a isso, né? (Mas quando surgirem spoilers de verdade, eu aviso).

O longa começa com a imagem de Cristo sobre Roma, com a estátua sendo levada de helicóptero para uma catedral e termina com uma raia morrendo em uma praia. O contraste entre as duas imagens resume o que é A Doce Vida: o conflito entre o idealizado e o real; a imagem de Cristo ressuscitado é louvada pelo povo, mas não é uma imagem real. Já a raia morta é vista com asco, cheira mal – mas é bem real.

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EVERYBODY CHILL THE FUCK OUT! I GOT THIS!

Se complementarmos o contraste entre o idealizado e o real para o documental e a ficção, temos o conflito principal de Marcello (Marcello Mastroianni), o protagonista do filme. Ele sempre sonhou em ser escritor, mas acabou sendo jornalista. E, por jornalista, entenda-se redator de coluna de fofocas. Sendo assim, está sempre cercado por celebridades, belas mulheres e pessoas da alta sociedade, ficando cada vez mais distante das pessoas de seu passado, como amigos e família. A Doce Vida mostra alguns dias decisivos na vida de Marcello, como um sujeito bonitão que veio do interior, se estabeleceu na cidade grande e tenta suprir sua infelicidade ao se relacionar com várias mulheres.

RECEBIDA

RECEBIDA

E ao mesmo tempo é um filme sobre Roma, louvando a beleza da cidade, mas também crítico. Logo no início, Marcello leva Maddalena (Anouk Aimée) para casa quando ela resolve dar carona a uma prostituta. Maddalena acaba realizando parcialmente sua fantasia de se tornar uma prostituta ao transar na casa de uma com ele – e, novamente, a fantasia (o idealizado) esconde a realidade de Maddalena e Marcello e vemos que a prostituta sofre nas mãos de um cafetão violento.

Fellini também demonstra um asco divertidíssimo dos fotógrafos de jornais – e não é à toa que o termo Papparazzi foi criado nesse filme. A chegada de Sylvia (Anita Ekberg), a belíssima atriz americana, é hilária quando o diretor foca a ação na movimentação absurda dos fotógrafos e pessoal de mídia. E, voltando ao tema central, reparem que os fotógrafos fazem Sylvia sair mais de uma vez da porta do avião: a busca pelo ideal, mesmo em sua forma mais mundana está presente ali e, enquanto todos sofrem para chegar perto de Sylvia, Marcello espertíssimo sai paquerando duas aeromoças.

Marcello é cônjuge de Emma (Yvonne Furneaux), uma mulher levemente desequilibrada e obsessiva para com ele, mas que realmente está abandonada. Aliás, é curioso lembrarmos que é sempre citada a obra nunca terminada de Marcello. Se ligarmos isso a seu relacionamento com Emma, temos mais uma camada complexa ao filme: para ele, Emma foi a musa pela metade. Não é a toa que suas discussões são extremamente superficiais e violentas. Marcello não está reclamando de ações; quer sua inspiração de volta quando grita com ela (reparem que mesmo no calor da discussão ele nunca a interrompe e sempre leva um bom tempo para buscar um argumento contra ela: ele precisa brigar, mas nem deve saber direito porque).

E quando a primeira entrevista de coletiva com Sylvia acontece em seu quarto de hotel, Marcello acaba preso no telefone com Emma. Dividido entre o amor excessivamente maternal e obsessivo de Emma e a beleza encantadora de Sylvia, Marcello acaba se tornando levemente obsessivo com a atriz, algo que culminará numa das cenas mais famosas da história do cinema, quando Sylvia, numa amostra igualmente extraordinária de egocentrismo e inocência vai se banhar na Fontana di Trevi. E, como a realidade nunca falha, descobrimos que Sylvia sofre de abusos domésticos com o ator com quem tem um desses casos secretos que todos sabem que existe.

adocevida6Há ainda o encontro entre Marcello e seu pai. Cheio de longas pausas, seu pai parece estar sempre tentando evitá-lo e só fica a vontade quando há mais pessoas na mesa. Os dois acabam indo para uma boate, onde encontram uma dançarina que, provavelmente, já foi amante de Marcello. O pai dele acaba achando que a está seduzindo, quando ela, na verdade, está apenas provocando Marcello. A noite acaba na casa dessa mulher de forma extremamente melancólica. O pai passa mal com a bebida, e Fellini num dos vários toques de gênio espalhados na obra, deixa ele de costas durante toda a cena, inicialmente num plano aberto, e depois no plano/contra-plano mais fechado. Em si, a cena parece resumir a infância e toda a carência do protagonista (e tenha em mente que o pai é vendedor).

adocevida4No entanto, dramaticamente, talvez seja Steiner (Alain Cuny) quem melhor resuma tudo o que Fellini tem a dizer sobre a “doce vida” do título. Grande amigo de Marcello, repleto de amigos intelectuais, casado e pai de duas adoráveis crianças, ele representa quase uma segunda figura paterna para Marcello, que quando convidado para sua casa pede quase infantilmente que deixe que ele frequente mais aquele local. Dono de enorme sensibilidade, reparem como Steiner desvenda toda a crise entre Marcello e Emma poucos segundos depois deles entrarem, matando a charada para ela na mesma hora: “Quando você compreender que ama Marcello mais do que ele ama a si mesmo, será feliz”.

E aqui é de verdade: se não viu ao filme, é melhor não prosseguir (mas tem o fim dos spoilers em negrito avisado ali embaixo, corre lá).

E é então que Marcello é chamado na casa de Steiner e o encontra depois de ter assassinado os filhos e se matado em seguida. Quando revisto, as pistas de que isso aconteceria estavam todas ali: até a música que ele toca na Igreja para Marcello parece um pedido por ajuda (e Marcello, egoísta, é incapaz de reconhecer a dor do outro, por mais próximo que ele seja). Mas ainda sobre essa sequência, talvez poucas vezes a atividade jornalística tenha sido retratada como algo tão nojento e mesquinho como no momento em que a polícia vai abordar a esposa de Steiner com Marcello e os fotógrafos cercam a situação. Se o suicídio de Steiner não fosse em si a representação mais forte do conflito entre realidade x ficção, lembrem que logo no início da trama Emma tenta usar do suicídio para chamar a atenção do marido – algo que torna sua situação ainda mais trágica, mas num sentido quase patético, em comparação.

O suicídio de Steiner é o estopim que desencadeará a Marcello abandonar de vez o seu sonho e trabalhar como assessor de imprensa, partindo à parte publicitária do assunto – se aproximando mais do que o que seu pai faz (vendedor, lembra?) do que sua figura paterna o estimulava a fazer. O striptease e a orgia fracassados no final fecham com perfeição o arco tragicômico de sua jornada e o reencontro com a menina “com feições de anjo” no final é absoluto: se conseguir ouvir ou compreender a mensagem dela, ele apenas

¯\_(ツ)_/¯

¯\_(ツ)_/¯

e vai embora. Além de fazer mais uma ligação entre a primeira e a última cena (Marcello estava no helicóptero tentando se comunicar com as garotas, seguindo aquele que levava Jesus), é o exato momento em que o protagonista se dá conta do que se tornou e que, agora sim, talvez seja tarde demais para tentar tudo outra vez.

FIM DOS SPOILERS

Embora a cena da Fontana di Trevi seja a mais lembrada do filme, para mim, as melhores cenas que Fellini criou nesse filme, fora o já citado momento de Marcello com o pai, é o número do palhaço com os balões (por todo o contexto: o número é lindo, o pai não presta atenção por causa da moça; Marcello presta atenção no pai e a moça quer que os dois vejam o palhaço) e a sequência no casarão de família. Nesta última, Marcello “encontra” Maddalena, e esta o leva à ~sala dos assuntos sérios~, onde ele fica sentado apenas ouvindo o que ela, em outro cômodo, diz, através de uma fonte. Ela o obriga a se declarar e enquanto ouve suas palavras “apaixonadas”, seduz outro homem. E não uso “encontra” e “apaixonadas” em aspas a toa: repare que, provavelmente, Maddalena não estava no local.

Vale lembrar também da coragem do cineasta pelo nível da crítica apresentado na sequência das crianças que fingem enxergar Nossa Senhora. A cena em si é tão completa que é difícil escolher apenas um detalhe para representá-la, mas pessoalmente duas coisas me impressionam: a família da criança colocada pelos fotógrafos em determinada posição e se mantendo naquelas poses mesmo quando as fotos já foram tiradas e os fotógrafos já saíram; e o momento da chuva, quando a preocupação é salvar os equipamentos de luz e não os doentes.

adocevida3Mas apesar de toda a complexidade, de toda as ironias e da clara alegria do seu diretor em contar sua história (ninguém fazia filmes tão pedantes quanto alegres como Fellini) é a atuação de Marcello Mastroianni o fator determinante para o sucesso do filme. Ator único e extraordinário, cuja naturalidade em frente a câmera é extremamente rara, é graças a uma combinação única de sentimentos que a jornada do protagonista se torna tão significativa para o público: Marcello (o personagem) é machista, egoísta, impulsivo, mas é também sensível, divertido, apaixonado. Contraditório como todos somos e como a vida também é. Se ela é doce ou não, vai do gosto do freguês.

NOTA TIAGO LIPKA: 10

Alexandre Alves: 10
Felipe Rocha: 10
Leandro Ferreira: 10
Marcelle Machado: 10
Rafael Moreira: 10

Média Claire Danes do Shitchat: 10

claire de burca

7 respostas em “A Doce Vida

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