Barton Fink – Delírios de Hollywood

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(Barton Fink, Dir. Joel Coen – 1991)

E a #MaratonaCannes chega ao fim. E não bastava ser responsável por encerrar a maratona, me voluntariei a escrever sobre o filme de Ethan e Joel Coen. E não qualquer filme, mas Barton Fink. A obra foi vencedora da Palma de Ouro de Cannes em 1991,além de ter vencido os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Ator. Agora, os irmãos Coen retornam em 2013 com Inside Llewyn Davis, com participação de John Goodman, presente também em Barton Fink.

Minhas colegas de trabalho tiveram pena de mim por causa desta tarefa: Felipe Rocha demonstrou sua compaixão através desta canção, e Tiago Lipka se solidarizou com esta. Mas só assistindo ao filme para entender a dificuldade em escrever sobre. Pra começo de conversa, é difícil classificar o filme em um gênero. Pra complicar, o filme é cheio de simbolismos, lida com diversas temáticas e há vários significados escondidos. Minha reação após ver Barton Fink e percebendo o desafio que me aguardava pode ser resumida numa gif:

e eu me voluntariei pra escrever sobre esse filme. sei de nada msm

e eu me voluntariei pra escrever sobre esse filme. sei de nada msm

Para evitar estragar surpresas, aviso com antecipação que o texto está cheio de spoilers. Recomendo sair da internet e só voltar quando tiver visto Barton Fink, sério, é um favor que os caros leitores fazem a si. Voltem depois e me agradeçam.

Barton Fink se passa em 1941 e narra a história de um jovem escritor nova iorquino de peças teatrais que conseguiu relativo sucesso de crítica, chamando atenção dos estúdios de Hollywood. À princípio, Barton não aceita a proposta levada por seu agente e os primeiros minutos mostram os motivos: o protagonista escreve sobre e para o trabalhador e não quer ter sua arte submetida aos interesses das grandes produtoras. Porém, o escritor é convencido pelo dinheiro que iria receber e pelas palavras de seu agente de que o cidadão comum não fugiria de Nova Iorque.

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O escritor segue para Los Angeles, se hospedando no Hotel Earle, onde é recepcionado por Chet (Steve Buscemi), e na cidade, lida com seu vizinho de quarto, Charlie Meadows (John Goodman); o dono do estúdio que o contratou, Jack Lipnick (Michael Lerner); o produtor Ben Geisler (Tony Shalhoub); o escritor e inspiração para o protagonista, Bill Mayhew (John Mahoney); e a secretária deste, Audrey Taylor (Judy Davis).

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É desse ponto de partida e conjunto de personagens que os Coen discorrem sobre dois temas básicos: o processo de escrita e a cultura de entretenimento. Em Los Angeles, contratado para escrever sobre um tema que lhe é distante, Barton tem que enfrentar a pressão dos estúdios com prazos e tentar produzir algo que conquiste o grande público, enquanto se cobra para ter uma idéia. Os Coen abordam essas duas temáticas com fortes inspirações do próprio processo de criação. Barton Fink foi escrito enquanto trabalhavam em Ajuste Final e se depararam com um bloqueio de escrita, mas também houve inspiração de figuras famosas do cinema, como F. Scott Fitzgerald, que também foi contratado para ser roteirista em Hollywood. O personagem de Jack Lipnick foi inspirado em chefes de estúdio da vida real e, inclusive, a sua cena final, usando uniforme militar, é inspirada em uma história verdadeira envolvendo Jack Warner (mas os Coen são espertos e disseram que não lidaram com pessoas como Lipnick).

Não é à toa que o filme se passa em 1941, época clássica de Hollywood. Muito se comenta do cinema atual, de como ele é feito para as massas, sem se preocupar com qualidade, como se antigamente não fosse assim. As cobranças, os produtores e donos de estúdios controlando tudo, sempre foi assim. A decepção com Hollywood também está presente na figura de Bill Mayhew. A euforia de Fink em conhecer um dos escritores que o inspirou torna-se decepção ao conhecer a pessoa por trás das obras que ele leu e a descoberta que Audrey era quem escrevia, na verdade. Os Coen também alfinetam os intelectuais, que querem escrever sobre o trabalhador, mas se acham superiores e se mantêm distantes do que acontece no mundo. Barton escreve sobre o cidadão comum, mas quando o tal cidadão começa a fazer barulho, ele reclama para a recepção do hotel. Sem inspiração, prefere ficar falando de si a ouvir alguém que poderia inspirá-lo.

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Em meio a todos esses temas, Ethan e Joel Coen trabalham diversos simbolismos e um dos mais interessantes é o Hotel Earle. Em Los Angeles, cercado de luxo e pessoas influentes, Barton se hospeda num hotel decadente como uma forma de se manter fiel aos seus princípios. Ele não se mistura com os ricos e influentes. Inclusive, uma das interpretações possíveis é a de que o hotel é uma representação física da mente de Barton, ou seja, é tudo imaginação. Contratado para escrever sobre lutadores, recebendo muito bem por isso, Barton está traindo seus princípios e Charlie é a voz interior relembrando a ele sobre o que ele deveria realmente falar, insistentemente calada pelo escritor. À medida que Barton se envolve com as figuras de Hollywood, o clima vai literalmente esquentando. O ápice é quando Fink termina o roteiro, selando seu compromisso com o estúdio, quando o hotel literalmente pega fogo. Claro, esta é apenas uma forma de compreender a história, e é aí que está o motivo para os Coen merecerem todo aplauso: o espectador pode entender tudo como uma metáfora, ou interpretar o literal, ainda haverá sentido.

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Além do simbolismo geral do hotel, os Coen tem cuidado impressionante com elementos inseridos no filme. O som repetitivo do oceano, representando a mente sem idéias de Fink, o zumbido constante do mosquito sempre que Barton começa a escrever, uma forma de impedir que ele crie, enfim, a trilha sonora, de forma geral, não é gratuita. Além disso, são inseridos símbolos, como o mosquito que só Barton Fink enxerga, e pode ser analisado como seus ideiais e seu trabalho sendo sugados. No quarto do escritor há um quadro de uma mulher na praia e esta imagem é representada no final, menção direta ao fato que a vida imita a arte e que seja em 1941, 1991, ou em 2013, o cinema tem poder de atingir e afetar as pessoas. Mas para qual intuito os cineastas utilizam esse poder: para ampliar o conhecimento de mundo do espectador ou para mantê-lo preso às fórmulas? Qual é a responsabilidade de um cineasta?

NOTA MARCELLE MACHADO: 10

Felipe Rocha: 10
Tiago Lipka: 10

Média Claire Danes do ShitChat: 10claire de burca

4 respostas em “Barton Fink – Delírios de Hollywood

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