Nascido Para Matar

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Kiss me goodbye and write me while I’m gone
Goodbye my sweetheart, Hello Vietnam.

(Full Metal Jacket, 1987. Dir. Stanley Kubrick)

A guerra é tema recorrente da filmografia de Kubrick, mas depois de Glória Feita de Sangue e Dr Fantástico, era difícil acreditar que o diretor pudesse abordar o tema anti-guerra sem soar repetitivo. Mas aí vem Nascido Para Matar, e nada como mostrar seu desprezo pela guerra que narrando a rotina de um soldado e o que ele enfrenta desde o recrutamento até a hora de encarar a guerra.

Em 1980, Kubrick planejava escrever sobre o Holocausto, porém, logo descartou essa abordagem. Em busca de um novo plano de fundo, em 1982, Kubrick se depara com The Short-Timers, livro de Gustav Hasford, e finalmente havia encontrado uma trama para seu novo filme, a guerra do Vietnam. O perfeccionismo do diretor fica evidente: entre definir um tema e o lançamento do filme, passam-se 5 anos.

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Nascido Para Matar – no original Full Metal Jacket, uma referência à bala usada pelos soldados americanos no Vietnã – é dividido em duas partes que até podem parecer desconexas, apesar dos mesmos personagens, mas Kubrick não dá ponto sem nó, e no final, tudo faz sentido. A trama começa mostrando a desindividualização e perda da identidade dos soldados logo na primeira cena, com todos raspando o cabelo. O controle do governo sobre o indivíduo já havia sido tratado por Kubrick em Laranja Mecânica, mas Kubrick é direto. Os soldados não possuem mais nome, mas apelidos, seus gestos são milimetricamente calculados, e o que fazem é rigorosamente observado pelo Sargento Hartmann – uma interpretação sem ressalvas de R. Lee Ermey, militar que a princípio ajudaria Kubrick nos bastidores, mas acabou conseguindo o papel -, pois no exército, os soldados não são pessoas, mas máquinas de matar.

Porém, em meio ao treinamento, é impossível ignorar que soldados são humanos. O maior exemplo dito é Leonard “Gomer Pyle” Lawrence. Fica evidente desde seus primeiros minutos em cena que Lawrence não está preparado para a guerra (mas, por que deveria estar, né). Não contém o riso diante do Sargento, não consegue seguir os colegas no treinamento, e está sempre cometendo algum erro por não se enquadrar nos dogmas do exército. Kubrick, na figura de Pyle, deixa explícito a estupidez da guerra no campo individual, e as consequências em transformar seres humanos em assassinos.

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A segunda parte do filme muda o foco do grupo de soldados para centrar em Joker e sua experiência no Vietnã. O apelido não poderia ser mais correto, pois o personagem, interpretado por Matthew Modine é sarcástico e faz piadas o tempo todo, mas também é uma dualidade ambulante, como o coringa do baralho. Na primeira parte, fica claro que empatiza com Lawrence, mas não deixa de castigá-lo, na segunda parte, está trabalhando como correspondente de guerra, mas não hesita em ir para o combate quando surje a oportunidade. E é aí que Kubrick aborda a guerra de forma mais geral.

Utilizando locações reais, Kubrick mostra como os soldados estão à própria mercê, abandonados por aqueles que os colocaram lá, sem nem conhecerem os motivos que os levaram à guerra. De máquinas para matar, os soldados viram produtos descartáveis largados à própria sorte, sem apoio do governo, da tecnologia – e prestes a perder o fiapo de humanidade que resta aos soldados quando devem decidir se são clementes ou não com o inimigo, que é tão vítima quanto eles.

avaliem minha cara de susto quando vi John Casey no filme

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Tecnicamente, Kubrick está sobrando em tela. O sufoco do treinamento militar é comparado ao sol extremamente laranja. A transformação de Lawrence em máquina para matar é marcada com uma fotografia friamente cinza-azulada, tanto na cena em que apanha, quanto na cena em que acontece o ajuste. A segunda parte tem momentos de documentário, com depoimento dos soldados, e esse realismo reflete em cenas como quando os soldados deparam com um atirador. A trilha sonora, composta de músicas marcantes da década de 70, tem seus momentos de sarcasmo, e momentos de soco na cara, como o encerramento com Paint It Black, dos Rolling Stones. Mas o ponto alto do filme é unir as duas partes no final.

Enquanto nos primeiros 45 minutos vemos a transformação de Pyle, na segunda parte, acompanhamos Joker na guerra. Ambos sofrem uma transformação: Pyle vai de um rapaz tolo e sem jeito até se tornar uma máquina de matar – é incrível o trabalho de Vincent D’Onofrio, que começa sem conseguir parar de sorrir, e acaba com assustando com seu olhar sem nada além de raiva -, enquanto que Joker começa sua vida como soldado escolhendo trabalhar como hjornalista, mas no fim das contas, a guerra o encontra. Da mesma forma como Pyle teve que encarar o resultado de sua transformação na morte, reconhecendo seu fim ao dizer “I am… in a world… of shit”, Joker abraça a guerra, ao mesmo tempo que a vontade de sobreviver o domina: “I’m in a world of shit… yes. But I am alive”, diz o personagem. Mas não há uma motivação em manter-se vivo além de seguir em frente, agora Joker terá que encarar batalha após batalha, por qual motivo, não há como saber, pois não há um propósito para a guerra, além de revelar o pior lado da humanidade.

NOTA MARCELLE MACHADO: 10

Alexandre Alves: 10
Felipe Rocha: 10
Leandro Ferreira: 10
Tiago ridiculo Lipka: 9,0
Wallyson af Soares: 9,0

Média Claire Danes do Shitchat: 9,666 Claire com o diabo no corpo por causa desses 9,0claire_burca

2 respostas em “Nascido Para Matar

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