Dr. Fantástico

bomba

(Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, Dir. Stanley Kubrick – 1964)

Pesquisando no Google sobre o menino Kubrick, li uma coisa sobre Dr. Fantástico. Stan dizia que só tocaria o projeto para frente caso o filme fosse uma sátira em vez de algo mais sério. A Guerra Fria estava em seu ápice e o medo de uma guerra nuclear tomava conta dos americanos – Kubrick, inclusive, acreditava que estava em perigo, pois, caso uma Terceira Guerra Mundial realmente começasse, sua cidade, Nova York, seria um dos principais alvos. E então ele conseguiu fazer Dr. Fantástico, um filme que pega o assunto mais importante e delicado daquele momento e sacaneia tudo. Era um zuão menino Kubrick.

tá aí só pela zuera

tá aí só pela zuera

Em Dr. Fantástico, Sterling Hayden, depois de se fuder em O Grande Golpe, resolve fuder com todo o planeta. Completamente demente, ele acredita que os comunistas estão se infiltrando na América através de FLUIDOS CORPORAIS e resolve atacar sozinho a União Soviética com bombas nucleares. Os americanos percebem que vai dar merda e se reúnem na War Room, a famosa e inesquecível Sala da Guerra, para discutir soluções. Junto com eles, o embaixador soviético e o presidente da USSR, por telefone.

Resumidamente, Dr. Fantástico trata de três temas específicos: a capacidade destruidora da guerra, a violência do Estado para com o cidadão e a dependência tecnológica. Cada um desses temas seria abordado por Kubrick novamente em Nascido Para Matar, Laranja Mecânica e 2001 – Uma Odisseia no Espaço. No entanto, nenhum dos três faz isso de forma tão leve e bizarra e surreal e hilária como esta pequena delícia aqui.

Não existe um único diálogo, uma única frase dita dentro da War Room que não seja digna de uns dez minutos de risadas. Desde a conversa entre os presidentes, à qual, aliás, só temos acesso pelas respostas do presidente americano ao colega (“Dimitri, não há motivo para pânico”) até um enlouquecido George C. Scott desconfiado das intenções do embaixador russo (“ele não pode entrar aqui, ele vai ver o Quadro”), tudo ali é ouro. E, claro, aquela que é considerada uma das maiores quotes de todos os tempos: “Senhores, vocês não podem brigar aqui. Esta é a Sala de Guerra”. Tem gente por aí que tenta a vida inteira e não consegue fazer uma piadinha sequer mais ou menos 50% no nível do que ocorre ali.

war room

Nada no filme é por acaso. Por todo lado, lê-se a frase que talvez seja a mais cínica de todo o filme: “a paz é nossa profissão”. Além disso, a construção dos cenários, com a War Room sendo maior que a cara de pau do pastor bundão indicado para presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara e os outros ambientes todos pequenos e claustrofóbicos, juntamente com a falta de pessoas vivendo no “mundo exterior”, contribuem com toda a loucura e chegam a passar a ideia de que a guerra, na verdade, já aconteceu.

O que se deve levar em consideração é que, apesar de ser uma comédia (talvez a melhor da história), em nenhum momento Kubrick trata o filme como uma comédia, com exceção do próprio Dr. Strangelove na parte final (improvisada), que parece se esforçar para arrancar risadas do público. E aquele momento ficaria completamente deslocado do restante do filme caso o cientista alemão nazista não fosse interpretado por Peter Sellers de uma forma tão natural que quase (quase!) me fez acreditar que ele seria uma pessoa de verdade.

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Sellers já havia roubado a cena no filme anterior do Kubrick, Lolita, e aparece aqui em três papeis diferentes, cada um deles com características completamente opostas uns dos outros – de cientista louco com um braço mecânico a um inteligente oficial do exército e um calmo e impotente presidente americano. Ele está tão à vontade em cada uma de suas atribuições que começou uma tendência maravilhosa.

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No fim, Kubrick mostra sua visão pessimista do mundo mesmo em uma comédia quando manda todo o planeta para a casa do caralho. Obviamente, ele não faz isso de maneira convencional e até mesmo no uso da música ele aplica sua ironia – “We’ll Meet Again”, tocada enquanto bombas explodem no encerramento do filme, ficou conhecida como uma espécie de hino dos soldados da Segunda Guerra Mundial.

♫ We’ll meet again, don’t know where, don’t know when but I know we’ll meet again some sunny day ♫

NOTA FELIPE ROCHA: 10

Alexandre Alves: 10
Marcelle Machado: 10
Tiago Lipka: 10

MÉDIA CLAIRE DANES DO SHITCHAT: 10

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4 respostas em “Dr. Fantástico

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