Lolita

Lolita

I want you to live with me and die with me and everything with me!
(Lolita, 1962. Dir. Staley Kubrick)

O que pode ser mais polêmico que escrever um livro baseado na obsessão de um homem por uma garota de 12 anos? Kubrick deveria estar bem entediado quando decidiu que a história do russo Vladimir Nabokov deveria ser adaptada ao cinema, ou com tudo planejado. Vindo de filmes que apesar do grande valor técnico não o catapultaram à fama que viria, filmar Lolita garantiria pelo menos que seu nome tornasse bastante comentado.

Lolita conta a história de Humbert Humbert, um homem comum, professor, um cidadão acima de qualquer suspeita, exceto por um mero detalhe: sua atração por meninas. Ao ser aceito como professor numa universidade, ele se muda para a pensão de Charlotte Haze, onde conhece e se encanta por Dolores, filha daquela, e apelidada pelo protagonista de Lolita (sim, leitor desavisado, o termo foi cunhado com o livro). Acontece que a censura, ela não apenas impede que Rafinha Bastos compare negros à macacos, ela impede que Kubrick faça um filme que poderia ser genial.

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É evidente a intromissão do estúdio. O filme começa com Humbert cometendo um crime, para o público considerá-lo criminoso antes mesmo de mostrar sua trajetória. E há as diferenças entre filme e livro. Se fãs mais ardorosos reclamam da cor de cabelo que no livro era azul e no filme virou preto, a mudança nesse caso é bem mais grave. Enquanto a Lolita do livro tem 12 anos, a Lolita do filme tem 14 anos, e peitos. O relacionamento amoroso entre os protagonistas nunca fica evidente, sempre nas sutilezas, sem beijos, a confissão amorosa cochichada no ouvido. As passagens do protagonista em sanatórios são omitidas, e a soma de tudo isso influi na compreensão da motivação dos personagens, e em acreditar que há um relacionamento.

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Apesar de toda a censura, Kubrick realiza um trabalho que consegue ser provocante em cenas pontuais, como Humbert pintando as unhas dos pés de Dolores, ou fantasiando com uma foto de sua amada enquanto tem Charlotte em seus braços. E é nos detalhes capturados por Kubrick que as camadas de Humbert são desvendadas, seu horror pela esposa, que suporta apenas para ficar perto de Lolita, seu ciúme quando Charlotte fala em enviar a filha para um internato, tudo fica evidente graças à direção.

"I take your Queen"

“I take your Queen”

Sem o apoio de imagens, o roteiro – em teoria escrito pelo próprio Vladimir Nabokov, mas na verdade, pouco do que o russo escreveu foi aproveitado – é a grande força do filme, mas não é perfeito. O começo é bem elaborado ao apresentar os personagens e em desenvolver Humbert, mas entre conhecer Charlotte, se envolver com ela e ficar à sós com Lolita, tudo é um pouco apressado. Por outro lado, o filme perde força quando foca apenas nos dois protagonistas, e falha em mostrar o desencantamento de Humbert ao unir-se novamente com sua Lolita no final. Porém, é uma boa escolha expandir o personagem Clare Quilty no filme. Cria-se um mistério que prende após Humbert e Lola estarem juntos, e permite que Peter Sellers roube a cena, de longe, a melhor atuação em cena. O trabalho de Shelley Winters como Charlotte Haze também merece destaque. É fácil entender os motivos que levam Humbert a desprezar a esposa. Porém, nada mais falho que Sue Lyon como Dolores. Apesar de ter a idade certa, Sue não tem o menor apelo sensual – a censura agradece -, e leva Lolita mais como uma criança mimada e birrenta que o mistério que ela realmente é. Sem falar que a química com James Mason é abaixo de zero – a censura agradece, de novo.

Mesmo com essas falhas, Lolita é um bom retrato de um homem imperfeito que busca a perfeição da inocência, mas tem suas fantasias destruídas, pois, no fim das contas, não há perfeição.

NOTA MARCELLE MACHADO: 8,0

Alexandre Alves: 8,5
Felipe Rocha: 8,5
Ralzinho Carvalho: 8,0
Tiago Lipka: 8,5

MÉDIA CLAIRE DANES DO SHITCHAT: 8,3 claire danes sorrisinho

4 respostas em “Lolita

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