O Substituto

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(Detachment – Dir. Tony Kaye)

“E eu nunca me senti tão imerso em uma pessoa e ao mesmo tempo tão desapegado de mim mesmo e tão presente no mundo” 

A citação de Albert Camus logo no início de O Substituto resume bem a trajetória de seu protagonista: um melancólico professor substituto, apaixonado e dedicado pela profissão, mas que ao se manter disponível apenas temporariamente por onde quer que passe, jamais consegue se apegar ao que realmente faz – algo que se reflete também em sua vida pessoal.

O filme é também um bem vindo retorno do diretor Tony Kaye, que desde seu trabalho mais celebrado, o excelente A Outra História Americana, lançou um documentário que chamou a atenção (Lake of Fire) mas, de resto, ficou entre projetos que ou passaram em branco, ou simplesmente não foram lançados. Com O Substituto, Kaye volta a demonstrar seu cuidado em lidar com questões sociais, elemento sempre presente em seus trabalhos.

Já cuidar da barba que é bom nada, né? af

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O elenco é um dos grandes acertos do filme: Adrien Brody, Marcia Gay Harden, Christina Henrdicks, Bryan Cranston, Tim Blake Nelson, James Caan, Lucy Liu, Sami Gayle, Willian Petersen e Blythe Danner e Louis Zorich (ufa!) fazem trabalhos excepcionais, sem exceção, independente do quanto aparecem em cena – Lucy Liu (uma atriz limitadíssima) tem um momento fortíssimo ao desabafar em frente a uma aluna, por exemplo. Brody domina a obra, com uma atuação tão brilhante quanto aquela que fez em O Pianista. O diretor também acerta ao escolher atores menos conhecidos do público para interpretarem os alunos, e Betty Kaye (filha do diretor) se destaca com alguns dos melhores momentos do longa.

Apesar de tudo, O Substituto tem uma parcela considerável de problemas. O tom dos diálogos é panfletário demais: as conversas parecem mais discursos do que qualquer outra coisa. Além disso, ao buscar ser crítico, Kaye perde o foco em vários momentos: o raccord sonoro de um desabafo frustrado e raivoso de um personagem com um discurso de Hitler é interessante, mas exagerado. E se as animações em stop motion feitas num quadro negro são obviamente apropriadas e interessantes, acabam surgindo intrusivas dentro da narrativa em vários momentos. Há ainda a relação entre o protagonista e Erica, a prostituta menor de idade, acaba se desenvolvendo de forma rápida demais, causando uma leve estranheza.

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Mas apesar de tudo isso, é impressionante como o filme funciona bem. Quando vemos uma elipse musical envolvendo o final de semana de todos os professores, é surpreendente constatar o quanto nos importamos com aquelas pessoas, e que o filme consiga isso ainda pouco antes da metade é um feito louvável. Parte disso vem da sua estética documental, do estilo direto do cineasta do talento de todo o elenco, mas também do roteiro, que estabelece bem os personagens: pensem na primeira cena envolvendo Christina Hendricks, ou a chegada de Tim Blake Nelson em casa, com sua família apática.

E se tropeça levemente na condução da narrativa, é no desenvolvimento de sua temática que está o grande triunfo do filme. Estudo de personagem complexo e delicado, O Substituto, além do impactante terceiro ato, ainda se mostra corajoso em seu desfecho: melancólico, joga o espectador para fora do filme sem qualquer resposta fácil. E seu enquadramento final somado ao título original “Detachment” (desapego, indiferença), deixa duas conclusões óbvias para o espectador:

1 – A sensação angustiante proposta pelo roteiro e;

2 – Lamentar pela tradução pífia da distribuidora nacional.

CALMA CARA, é só um filme

CALMA CARA, é só um filme

NOTA TIAGO LIPKA: 8,5

Felipe Rocha: 9
Ralzinho Carvalho: 8,5

MÉDIA CLAIRE DANES DO SHITCHAT: 8,6

claire danes sorrisinho

5 respostas em “O Substituto

  1. decepcionadíssimo com o escriba Tiago Lipca que não comentou a maravilhousa sequenciazinha animada com tijolos num quadro negro fazendo uma relação com another brick in the wall

    porém certíssima a publicação, inclusive fiquei #arrasado com o final #devastador e #chocante e #reflexivo e #etc

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