Django Livre

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(Django Unchained – Dir. Quentin Tarantino)

Tem um filme bem legal dentro de Django Livre. Pena que ele tem uma hora e meia, e está cercado por uma hora de qualquer coisa. Essa “qualquer coisa” não é de todo ruim, mas é formada por cenas desnecessárias, algumas inspiradas em Monty Python, e flashbacks, que de tão inúteis, só revelam informações que serão passados em diálogos de qualquer forma. Em loooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooongos diálogos.

A parte estranha é que talvez seja o primeiro filme de Tarantino em que ele consiga passar várias informações de forma concisa: por exemplo, o flashback que mostra a fuga de Django e da esposa. Mas o grande problema do cineasta ainda são seus longos diálogos. Tarantino se acha ótimo demais, que toda linha que escreve tem que entrar no filme de qualquer jeito. Em qualquer aula de roteiro, você aprenderá que toda cena tem que ter um começo, um meio e um fim, e o cineasta certamente leva isso ao pé da letra. As vezes demais, e faz pequenos curta-metragens. Escreve nada, e estende esse nada o máximo que pode, com uma cobertura “cool”, para o delírio dos fãs.

de boas aqui, enquadrando um pipi

de boas aqui, enquadrando um pipi

O problema é que em outra aula de roteiro (a que Tarantino deve ter faltado), você também aprenderá que se a cena não apresenta uma informação importante para o prosseguimento da história, então ela deve ser cortada, sem dó. E caso isso acabe passando da fase do roteiro, certamente não pode passar da fase de montagem. Não sou  um careta que acha que tudo deve ser feito como é ensinado. Mas uma carreira ser consagrada quando erra no básico é uma coisa complicada.

Tarantino é um bom cineasta, com um bom senso de espetáculo. Sabe criar cenas de efeito, e isso fica claro em sua obra. O problema é que desde Kill Bill sua tendência é dar mais importância para o espetáculo do que para a história, algo bem resumido pelo crítico Andrew O’Hehir:

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Para exemplificar, lembre da sequência envolvendo a KKK-que-nao-é-bem-a-KKK-mas também-pode-ser-não-sei: apesar de Django Livre certamente ser o mais linear dos filmes do cineasta, pense na estrutura dessa sequência: vemos três membros observando os protagonistas; em seguida, os cavalos em disparada; em seguida, uma reunião da KKK, e depois voltamos para os cavalos em disparada.

Ok: qual a necessidade de desmanchar a linearidade da sequência, a não ser o ~efeito dramático~? Nenhum, certo? Você pode argumentar que o efeito dramático em si é uma justificativa. E eu concordo. Eu só peço que você lembre que, em prol do efeito dramático, Tarantino estendeu uma cena completamente dispensável. Em um filme de quase três horas.

Quase isso.

Quase isso.

Curiosamente, mesmo assim, Django Livre é um bom filme. Mas só quando se concentra no protagonista e seu tutor. Jamie Foxx é bom ator, carismático, e aqui também surpreende nas cenas dramáticas. Christoph Waltz está ok, mas é difícil não lembrar de seu personagem em Bastardos Inglórios. Ou em Besouro Verde. Ou seja: está começando a dar uma de Laurence Fishburne depois de Matrix. Mas o destaque é mesmo Leonardo DiCaprio, que melhora (e muito) o filme assim que aparece.

- to querendo martelar desde que vi oldboy, ~rysos~

– to querendo martelar desde que vi oldboy, ~rysos~

Aliás, a única sequência realmente memorável de Django Livre é aquela do jantar na casa de Calvin Candie. O monólogo do vilão sobre o crânio certamente é um dos melhores momentos na carreira de Tarantino. E curiosamente, o cineasta se sabota com isso: o clímax da cena do jantar é infinitamente mais poderoso do que o posterior, que ainda é prejudicado pela cena fraquinha, fraquinha, que a antecede, e inclui uma ponta do próprio diretor.

E por falar no clímax: tão adepto a referências, Tarantino surpreende de vez ao citar uma esquecida personagem da teledramaturgia brasileira:

Hildinha

Sim, a  Fada Bela!!!!!

Sim, a Fada Bela!!!!! (obrigado ao leitor @galdinho )

“Nossa, quanto recalque contra Tarantino, vai lá e faz melhor então” – essa frase deve estar na cabeça e coraçãozinho de muitos agora. Não, não tenho nada contra o cineasta, apesar de achá-lo um babaca como pessoa (se você não acha, não viu o discurso dele no Globo de Ouro, por exemplo), mas isso não interfere em minha visão de seus filmes. O problema é que ele chegou naquele ponto em que pode cagar qualquer coisa, e seus fãs vão louvá-lo até a última instância, mais ou menos como os fãs de Christopher Nolan (apesar de Nolan estar longe de ter feito qualquer trabalho medíocre até aqui). Com isso, temos essas aberrações, como listas de filmes da década encabeçadas por Bastardos Inglórios. Década que teve O Labirinto do Fauno, Filhos da Esperança, 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, Dogville, A Fita Branca, O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, Sangue Negro, Onde os Fracos Não Têm Vez, Sobre Meninos e Lobos, Ônibus 174, O Homem Urso, entre MUITOS outros. Ou seja: af.

É o mesmo problema de Jesus: não é ele; são os fãs.

NOTA TIAGO LIPKA: 7,0

Felipe Rocha: 7,5
Marcelle Machado: 7,0
Rafael Monteiro: 8,5
Ralzinho Carvalho: 8,0

MÉDIA CLAIRE DANES DO SHITCHAT: 7,7

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14 respostas em “Django Livre

    • Curiosidade: a KKK não existia na época em que o filme se passa. A cena ficou ainda mais babaca com essa informação.

      (a trama se passa em 1858, a KKK fez a primeira aparição em 1865)

      • acho que o tarantino retardadíssimo achou que num filme que fala de racismo precisava fazer referência à KKK mesmo q não faça sentido histórico. Se eu não me engano o KKK surgiu justamente pq a escravidão perdeu força e a ideia de que todos são iguais tava popularizando, não? Sei lá, vou esperar um power point do Spielberg pra me explicar essa parte

  1. Sou fã de Quentin Tarantino, e BASTARDOS INGLÓRIOS é um filme excelente (melhor que ONDE OS FRACOS NÃO TEM VEZ, FILHOS DA ESPERANÇA, ASSASSINATO DE JESSE JAMES, ÔNIBUS 174, SOBRE MENINOS E LOBOS e HOMEM URSO; os demais são melhores mesmo).
    Mas devo admitir que concordo com tudo que disse a respeito de DJANGO LIVRE. Esse filme tem muitos problemas, um início longo, arrastado e desnecessário, cenas inteiras que poderiam ser simplesmente cortadas.
    Gostei muito do elenco, especialmente Leonardo Dicaprio e Samuel L. Jackson.
    E a comparação do @galdinho foi hilária, muito bem lembrado. Infelizmente isso prova que todos nós já assistimos a Fada Bela, mas tudo bem…
    Abraço, ótimo texto!

  2. Sally Manke faz uma puta falta. Eu fiquei chocado quando o Big Daddy pede pra uma escrava acompanhar o Django e… caaaaara, ele fez um monólogo gigantesco pra isso. Sem falar dos flashbacks que tu falou. Daquela cena do KKK que não sei como passou da decupagem, além de muitas outras. E das auto-referências que ele faz que me irritaram profundamente, mas deixam os fãs mais babacas espumando. Não sei se é preguiça, o ego grande ou os dois. Explico: o Waltz falando em alemão com a mulher do Django pra não ser entendido pelos outros, aquela cena que o Django pede pra todo negro sair menos o Stephen, Butch… Cara, só eu ri alto no cinema nessa hora da Fada Bela. Que final toscão! Mas tem uns momentos bacanas do DiCaprio e do Sam Jackson. Se garantiu no texto Tchago!

      • Tranquilo. Só pra deixar claro uma coisa: vi um monte de críticas que relatam os problemas do filme mas usam o seguinte argumento pra defendê-lo “É só Tarantino sendo Tarantino” – pergunta básica: mas se não fosse do Tarantino… aí acharia o filme pior ou não?

        Fica a questÃ.

    • próxima vez que algum fudido vier reclamar do slowmotion do Snyder vou falar logo “é só Snyder sendo Snyder”. Mesma coisa pra câmera torta do Tom Hooper. Mesma coisa pras tremedeira do Michael Bay.

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