A Viagem

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(Cloud Atlas – Dir. Andy Wachowsky, Lana Wachowsky e Tom Tykwer)

É fácil imaginar que uma série de interpretações espíritas de Cloud Atlas (A Viagem? af), ou puxadas para o cristianismo, islamismo, budismo, ou qualquer outro prefixo seguido de “ismo” que você desejar vai começar a surgir em breve (se já não estão surgindo). Foi o que aconteceu com Matrix, quando muitos enxergaram profundidade e divindade num processo criativo que deve ter sido mais ou menos assim:

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Com a entrada do alemão Tom Tykwer na empreitada, a única diferença que consigo enxergar do processo criativo de Matrix para o de Cloud Atlas é essa:

sim, chucrute

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Mas enfim: Cloud Atlas é um filme fascinante – muito mais pela jornada cinematográfica do que pelos temas, diga-se de passagem. Fala sobre padrões comportamentais (“um homem tem de fazer o que um homem tem de fazer”, mas de acordo com sua época) e sobre o progresso, como ele surge do conflito entre a ordem estabelecida e uma idéia revolucionária, independente de sua escala: seja a abolição da escravatura, o jornalismo politizado dos Estados Unidos nos anos 70, a fuga de idosos em um asilo ou uma “fabricada” desafiando o mundo dos “consumidores”.

Dividido em seis épocas, três dirigidas por Tom Tykwer, e as outras três pelos irmãos Wachowsky, Cloud Atlas (A Viagem, pelo amor de Deus…) é um épico de ficção científica incrivelmente coerente e bem conduzido, e nem mesmo a longa duração atrapalha. A estratégia da co-direção aliás beneficia muito o filme: a diferença gritante entre as épocas, não só visualmente (cores, direção de arte, figurino, etc), mas também nas interpretações, faz com que o espectador em nenhum momento fique confuso quanto a qual trama está presenciando, evitando diálogos expositivos sobre o assunto. Quanto a estratégia de usar os mesmos atores para diferentes personagens nas várias épocas, ela é curiosa e faz sentido  (e talvez seja o único fator que realmente colabore com uma teoria “espírita”), embora se torne um elemento distrativo.

Como curiosidade: Tom Tykwer dirigiu a melhor parte: a do músico (Ben Whishaw) que deixa o amor de sua vida para trabalhar como assistente de seu músico favorito – e, para mim, a melhor cena de Cloud Atlas é a do sonho entre os dois amantes se reencontrando  em meio a uma sala com pratos sendo quebrados.

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Por outro lado, a “pior parte” é dirigida por… Tom Tykwer – justamente a do editor que, depois de dar um golpe em um de seus escritores, é colocado pelo irmão no asilo. Não que seja ruim, mas o diretor exagera no tom de Sessão da Tarde da cena (um velho maluco e uma turma do barulho aprontando altas confusões no asilo).

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Visualmente, é um espetáculo: os Wachowsky se livram das invencionices com a câmera, e fazem uma direção mais “clássica”, mesmo em meio a estética futurista. Mas a conhecida criatividade da dupla pode ser sentida em todas as cenas com ‘Georgie’, o ~diabo verde~ de Hugo Weaving, por exemplo.

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Enquanto isso, a montagem de Alexander Berner transita com eficiência de uma época para outra, encontrando espaço para fazer interessantes jogos visuais: Sonmi fugindo pela ponte, enquanto o escravo anda pelo mastro do navio.

cloudatlas03Contando com uma trilha sonora belíssima (e injustamente ignorada pelas premiações – assim como o trabalho de maquiagem), Cloud Atlas é um épico ambicioso, formado por histórias envolventes que, em nenhum momento, deixam de ser sobre os personagens – e o seu clímax funciona tão bem justamente pelo nosso envolvimento com suas histórias e aqueles que habitam nelas.

E uma dica: se alguém te aporrinhar depois de uma sessão do filme falando sobre Karma,  chame ELES (mas não ligue se, por alguns minutos, eles se perderem).

NOTA TIAGO LIPKA: 9,0

Felipe Rocha: 8,5
Leandro Chá de Beterraba Ferreira: 8,0
Marcelle Machado: 8,0
Ralzinho Carvalho: 9,0
Rafael Monteiro: 8,5

MÉDIA CLAIRE DANES DO SHITCHAT: 8,5 – quase que ela tirou a burca do armário

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11 respostas em “A Viagem

  1. maravilhouso o filme e maravilhousa crítica.

    esse filme é shom, teve uma hora que eu achei que tava batendo uma punheta no cinema pq eu tava quase gozando com o clímax <3333333 as histórias funcionam muito bem e a trilha sonora é foda. e essa porra não saiu da minha cabeça ainda desde que eu o vi.

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