Holy Motors

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(Holy Motors – Dir. Leos Carax)

” – O que o faz insistir nesse trabalho, Oscar?

– Aquilo que me motivou: a beleza do ato.

– Dizem que a beleza está nos olhos de quem vê. E se não houver mais quem olhe?”

Em tempos em que as salas de cinema foram dominadas pelos blockbusters idiotizantes e a falta de respeito do público médio tem feito até mesmo o mais afoito dos cinéfilos titubear entre ir ao cinema ou simplesmente baixar o filme e ver em sua casa, longe de incômodos, nada mais apropriado do que um diálogo como este presente em Holy Motors, de Leos Carax. Para o diretor, o cinema tem prazo de validade, e ele está mais próximo do que parece. O que segue é uma obra apocalíptica, mas também apaixonada pelo cinema.

O longa acompanha Oscar, que atravessa Paris de limusine para cumprir seus compromissos: em cada um deles, ele se torna um personagem completamente diferente, e o filme acompanha esta mutação, alternando gêneros: diálogos intimistas,  momentos surreais e suspense, passando também por números musicais.

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Oscar é interpretado por Denis Lavant (colaborador habitual de Carax), numa atuação surpreendente até mesmo para quem já conhecia seus trabalhos anteriores. As sutilezas e nuances que o ator aplica de um personagem para o outro (que vão desde tom de voz à expressão corporal) são notáveis. Basta comparar as sequências da mendiga com o brilhante momento do motion capture para aplaudi-lo de pé.

Mas não é apenas na parte metafórica que Holy Motors é bem sucedido. Sua montagem, por exemplo, é surpreendente ao conseguir um ritmo constante sem jamais se perder entre uma sequência e outra (algo dificílimo em filmes desse tipo). Além disso, a estrutura do filme, em si, é um espetáculo: reparem que o momento mais introspectivo e intimista, o do pai levando a filha para casa, é seguido do Entr’acte, com a sequência do número musical com acordeões: Carax parece “denunciar” a artificialidade do recurso ao mesmo tempo em que a celebra, já que a utiliza para retomar o ritmo da história.

Além disso, é preciso notar que o filme também está repleto de sutis críticas sociais: a transformação da modelo em uma mulher de burca é significativa, não só ao comparar a submissão representada pelas duas figuras, mas por lembrar a polêmica discussão sobre a proibição da burca em vários países da Europa. Junto com o cemitério, cujas lápides tem os dizeres “Visite meu site”, uma das coisas mais chamativas da obra é o seu desfecho… incomum, mas que tem direta relação com o momento em que um datamosh acontece no sonho de Oscar (o que seria o contraponto de um defeito tecnológico acontecendo em uma mente humana?).

No final das contas, Holy Motors acaba conquistando o espectador mesmo pelo seu clima surreal e pela reflexão que gera depois que os créditos subiram. Nesse sentido, as comparações com Cidade dos Sonhos, de David Lynch, fazem sentido. Mas se Carax queria fazer o seu réquiem pessoal para o cinema, curiosamente acabou realizando mesmo uma carta de amor. Dolorosa, e repleta de mágoa.

Mas uma carta de amor.

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NOTA TIAGO LIPKA: 10

Felipe Rocha: 9,5
Marcelle Machado: 6 (horrorosa)
Alexandre Alves: 10

Média Claire Danes do Shitchat: 8,5

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5 respostas em “Holy Motors

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